Mundo de ficçãoIniciar sessãoAMALLIA Eles mataram a minha família. Me caçaram como um animal a vida toda. Fui obrigada a me esconder, a aceitar ser maltratada e humilhada pelos humanos. Treinada para sobreviver com dor, adagas e desconfiança nas veias. Tudo por conta de uma profecia, de uma marca de nascença no meu pescoço. E foi exatamente o herdeiro daqueles que eu odeio acima de tudo — aquele a quem eu jurei um dia me vingar — quem me encontrou e me sequestrou. Niccolai Vanderhall. Cínico, manipulador… um mulherengo cretino no corpo de uma arma de destruição. Um predador que se acha meu dono. Mas a marca não respeita o ódio. E a loba dentro de mim não aceita ordens. Quanto mais eu tento fugir, mais meu corpo me trai, mais minha loba se inclina ao alfa dentro dele. Ele jura que meu verdadeiro inimigo está se aproximando, jura que está me protegendo… Mas eu não posso me perder. Preciso vingar a minha família. NICCOLAI Ela pode transformar qualquer alfa no mais forte de todos. E eu preciso dessa força contra o inimigo que está tentando tomar o meu território. Amallia é uma selvagem de língua afiada. Armada e indomável. Mas pela primeira vez, não sei se o que eu quero é esganar o pescoço de uma mulher ou esfregar minha boca nele. Tampar a boca dela para nunca mais ouvir sua voz… ou pedir para ela gemer mais alto quando suas pernas se abrirem para me receber. E cada dia que passa, pensando em tudo que ela viveu… só de pensar que alguém possa fazer algum mal a ela… eu fico louco! Essa mulher é minha. Só não sei se vai me fazer o alfa mais forte… ou se vai se tornar a minha maior fraqueza.
Ler maisMeu tio está morrendo.
E os gemidos dele foram o meu despertador hoje.
Jay, minha única família, logo vai partir, e eu vou ficar sozinha nessa cabana úmida e caindo aos pedaços. Sozinha no mundo. A prata, acumulada nos órgãos dele, o envenena um pouquinho mais a cada dia, e a culpa é minha.
Ele está deitado no sofá, os olhos azuis — iguais aos meus — fechados, e o rosto contraído de dor. Tem sido assim há anos, as transformações que ele bloqueia passaram a deixá-lo cada vez mais doente. E, quanto mais perto da lua cheia, mais debilitado ele fica.
Jayden Langford, irmão gêmeo da minha mãe, deveria ser o alfa da alcateia Langford, mas foi obrigado a abrir mão de tudo e fugir comigo, recém-nascida, depois que os Vanderhall invadiram nossa aldeia e queimaram tudo até o chão, tentando me sequestrar.
E me manter prisioneira até eu ter idade de me unir ao alfa deles.
Nasci com uma maldição marcada no meu pescoço. O lobo que eu me vincular vai se transformar no mais forte do mundo.
Pelo menos, é o que a profecia diz sobre esse maldito circulo vazado na minha pele.
Visto meu vestido floral novo e a bota de cano curto que esconde o coldre de couro do punhal de prata, que está sempre comigo. Passo um pouco de maquiagem no pescoço, jogo o cabelo preto por cima do ombro esquerdo, como sempre. A marca fica escondida e eu pareço uma garota normal.
Depois começo a carregar o carro com as caixas de velas aromáticas, óleos essenciais e o resto todo que eu produzi durante o mês. É o primeiro sábado do mês, dia de ir à cidade, vender a minha produção para comprar os remédios do Jay.
— Amallia… — a voz dele me faz parar. Apoio uma caixa no chão. — Pegue uma dose antes de sair.
Balanço a cabeça, porque suas mãos estão tremendo mais do que o normal hoje.
— Tio, é muito, você tomou ontem e…
— Ele está forte, Malli… — me corta, sem fôlego. — Eu sinto… ele perto demais hoje.
“Ele”. O lobo que ele reprime desde que percebeu que foi a própria transformação dele que atraiu os outros licanos, naquela noite, dezesseis anos atrás.
Misturo a prata coloidal com dois dedos de água, como tenho feito há tanto tempo, e saio, porque não tem nada mais que eu possa fazer além trabalhar para amenizar o sofrimento dele.
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O centrinho da cidade fica tomado de gente nos dias de feira, e hoje, com o sol desse jeito, está impossível andar.
Alguns desviam de mim quando eu passo, outros cochicham. As crianças correm de um lado para o outro o tempo todo, gritando ‘bruxa’ com o mesmo veneno dos pais.
Só o de sempre.
Mas ignoro tudo que eles fazem e passo o dia inteiro atrás da barraca, vendendo os óleos, bálsamos, as velas e, dessa vez, uns sabonetes de camomila que estou testando. Tudo feito com o que eu planto em volta da cabana e na clareira ensolarada que fica ao lado.
O sol já está se pondo quando fecho a última venda do dia, e corro para o carro com as caixas que sobraram, para chegar a tempo na farmácia. Apoio as caixas no chão, mas quando me abaixo para destravar a porta, as risadas atrás de mim fazem o meu coração disparar em um segundo.
— Olha só, a bruxa do bosque comprou vestido novo.
Fecho os olhos e inspiro com força. Não preciso olhar para saber quem é, essa voz me atormenta desde os treze anos. Elena.
Quando me viro, Elena e as três escudeiras estão me olhando com o mesmo desdém de sempre.
— Aposto que foi com o dinheiro que ela tira dos homens com essas poções — diz uma delas, rindo e jogando o cabelo escuro para o lado.
— Quer chamar atenção dos casados também? — A outra completa.
Eu aperto o tecido da saia nas mãos e resolvo continuar calada, não vale a pena discutir. Só quero entrar no carro, ir embora, antes que eu não consiga os remédios do meu tio.
— Não vai responder? — Elena, dá um passo à frente. — Ou está criando algum feitiço aí na cabeça?
— Eu preciso… preciso ir, a farmácia vai fechar… meu tio precisa…
Mas enquanto estou falando, duas delas vão pelas minhas costas e seguram os meus braços, enquanto Elena crava as mãos na barra do meu vestido e puxa com agressividade.
O som do tecido fino rasgando, da barra até o quadril, me faz prender o ar.
E as quatro só… gargalham.
— Você se acha mais bonita do que todo mundo, não é? — Ela cospe no chão perto do meu pé. — Essa cidade não te quer aqui, bruxa.
Quando se viram e saem, eu encosto no carro até regularizar a respiração. Minhas pernas estão tremendo, mas é só quando eu vejo as moedas e os bolinhos de notas que eu recebi hoje espalhados pelo chão é que as lágrimas caem.
Dói na minha alma, mas agacho e cato o dinheiro todo o mais rápido possível, como se fosse esmola que jogaram para um mendigo.
Como se eu fosse um bicho de rua, morto de fome, ganhando restos de comida.
Esfrego as costas das mãos no rosto para afastar rápido as malditas lágrimas, que não param de cair — não quero que ninguém nessa cidade veja o que eles conseguem fazer comigo.
Entro no carro com o vestido rasgado, e meus dedos tremem tanto que demoro para girar a chave.
Amanhã é lua cheia, quando a dor dele aumenta, Jay não pode ficar sem os remédios. Então, eu acelero o máximo que posso, mas quando viro a esquina e vejo as luzes da farmácia apagadas, meu coração simplesmente… desaba.
Desço ainda com o motor ligado e bato na porta de vidro, uma, duas vezes.
— Por favor… — minha voz sai rouca, quase sem som. — Abre, por favor.
Nada. Só o reflexo dos meus olhos inchados no vidro da vitrine.
Encosto a testa no vidro frio e puxo o ar com força.
— Por favor… — repito, sem nem saber para quem.
E é quando alguma coisa no ar só… muda.
Meu corpo toma um tranco e eu olho rápido de um lado para o outro…
Até que o meu olhar encontra o deles.
Dois homens jovens estão apoiados em um carro do outro lado no estacionamento escuro da farmácia, me encarando sem disfarçar.
Eles sabem quem eu sou.
Corro para o carro e tranco as portas no mesmo instante, minha respiração está tão acelerada que o ar só entra pela boca.
É o meu instinto gritando o que eles são.
Licanos — os primeiros que eu vejo desde os meus cinco anos, desde que fugimos da última cidade.
No retrovisor, um deles continua imóvel; o outro tira o celular do bolso e leva ao ouvido, com tanta calma que me deixa ainda mais desesperada.
A estrada até a cabana essa noite parece não acabar nunca. E a cada quilômetro eu aperto mais o volante, porque a cada quilômetro meu pânico aumenta mais.
Preciso avisar Jay, nós precisamos fugir.
Os Vanderhall nos encontraram de novo.
Abandono o carro de qualquer jeito perto da cabana, e nem fecho a porta.
— Jay? — entro correndo, mas o silêncio é a única resposta.
E antes que eu consiga registrar qualquer coisa, meu couro cabeludo arde e meu corpo voa para trás. Mãos grossas me agarram pelos braços e pelo cabelo, e me arrastam até o lado de fora.
— Nós finalmente te encontramos… — o desconhecido diz, sua barba longa perto demais do meu rosto. — Agora quero ver o que te faz tão especial para todo mundo.
— Leve ela logo para o carro — o outro interrompe, mas seus olhos escuros parecem tão sádicos quanto os do parceiro.
Então, eu entendo que não querem me matar aqui, querem me levar. Vão mesmo forçar um vínculo.
É o maior medo do meu tio se tornando realidade.
— Me solta, desgraçado! — Minhas palavras saem apertadas, cuspidas entre dentes cerrados, quando o de barba me empurra contra uma árvore com força suficiente para fazer a casca furar a minha pele.
— Eu ia te levar direto para casa, querida — diz, com malícia, seu rosto colado ao meu. — mas acho que quero uma prova antes.
Viro o rosto para o lado, fugindo do contato da sua boca na minha, mas quando encaro a cabana, meu pavor fica, de repente, sufocante.
Outro deles.
O terceiro segura um galão e, espalha gasolina pelo alpendre.
Jay está fraco demais para conseguir sair.
— Não! — grito, tentando me soltar, enquanto as faíscas riscam o ar. O fogo começa a estalar, engolindo rápido a frente da cabana, e o calor me atinge junto com o pânico. — Jay!
O homem me prende mais, seu joelho já forçando minhas pernas a se abrirem.
— Lute, vadia, eu gosto mais assim — o hálito podre me agride…
…enquanto uma mão dele corre para o próprio cinto.
— Uma selvagem! — meu rosnado enche o escritório. — É isso que ela é!O maldito cheiro de queimado ainda está pela casa toda e agora eu tenho gente pintando as paredes e trocando os móveis centenários e as cortinas que a louca destruiu. Sem mencionar dois dos meus homens em casa, de babá.Hoje uma chuva fina e insistente está caindo lá fora, deixando a noite irritantemente fria até para nós.Jonah, sentado à minha esquerda, gira o whisky no copo com tédio. — E o que você esperava, Nicco? Devoção? Você sequestrou a garota.Aperto a ponte do nariz, tentando me acalmar.— E ela disse que eu drogo mulheres para ter companhia!Soren joga a cabeça para trás e ri alto:— Espirituosa… Levanto quase com um salto, meu corpo tenso pedindo movimento, e ando em círculos pelo escritório.O lugar tem as mesmas três poltronas de couro que envolvem uma mesinha de centro, como na Nostrum, além de uma estante e um carrinho de bar parecidos. Mas por ser meu ambiente de trabalho em casa, também tem uma
CAP 8 Jonah puxa a minha mão e o solavanco quase me faz gritar de dor.— Meu ombro — digo, com dificuldade.— Merda — ele sussurra.Então, pega minha outra mão e começamos a correr juntos. Mas não para frente. É como se estivéssemos voltando para a casa.— Não! — Puxo a mão da dele. — Você está me levando de volta para ele, seu cretino.Jonah para de repente e apoia uma mão no meu ombro bom, levando a minha atenção para ele:— Confia em mim e vem — os olhos fundos nos meus. — Antes que ele te ache.Puxo o ar com força e aceito ser guiada por uma dezena de metros até um… estábulo?— Por que você me trouxe para cá? — minha pergunta é pânico puro, quando percebo que talvez ele tenha me traído. — Estamos muito perto da casa.O lugar é uma construção de madeira com quatro baias, cada uma delas cheia de palha ou feno. Em cada uma, um animal enorme. O cheiro irrita o meu nariz sensível.— Amallia, respire e preste atenção em mim. — Ele segura meu rosto com uma mão gentil e levanta meu queix
Meu Deus, ele realmente me marcou.Estou tão perplexa que não consigo reagir. Sei que a minha boca está aberta, mas as palavras estão emboladas na garganta. O cretino… me marcou.Vozes surgem perto e entendo que dois homens são acompanhados por Selina até a sala de estar, para onde Niccolai segue agora. Levo uma mão ao peito, a respiração ofegante enquanto tento conter o que não quer ser contido: é a minha loba. Uivando pela marcação. Mas eu… eu estou tremendo com um ódio que atravessa minha carne e vibra até nos ossos.Então, não perco tempo, pego a maior faca na mesa e sigo na direção dos três. Os dois visitantes sorriem e falam alto, mas a minha mente não absorve nada do que eles dizem. Só sinto um tambor pulsando nas paredes da minha cabeça, nas têmporas, no pescoço — é o meu coração. Metais comuns não matam licanos, eu sei, mas por essa noite, retalhar o rosto desse maldito vai bastar. Invado a sala a passos largos e, enquanto Niccolai ainda está de costas para mim, coloco t
“Ei… o que eu te disse sobre chorar?”, a voz do meu tio surge na minha cabeça, tão clara como se ele estivesse na minha frente agora. “Quando você estiver em perigo, precisa focar em sobreviver. Seu inimigo vai estar focado.” Encaro o vestido que Selina colocou em um cabideiro — escolhido de um armário inteiro preparado para mim — logo antes de eu dizer para ela que o seu chefe nunca teria a minha presença em “jantar de merda nenhum” e que eu preferiria “comer lavagem com os porcos do que jantar ao lado de um assassino”.Por um segundo, a mágoa em seus olhos foi como um aperto no estômago, mas se ela escolheu trabalhar para psicopatas, precisa arcar com as consequências. Agora, pensando melhor, Jay diria que eu estou errada. Que eu preciso me fortalecer, conhecer a rotina da casa e dos funcionários, me armar antes de cravar um punhal nas costas daquele alfa. Ou melhor, no seu pescoço. Então, mesmo contrariada, coloco o vestido de alcinhas finas, em um tecido branco e suave, que cor
CAP 5 - NICCOLAISEIS MESES ATRÁS.— A garota da profecia. — Jonah Blackwood gira o whisky no copo, olhos presos na bebida. Por um instante, o tilintar do gelo no vidro é o único barulho da sala privada da Nostrum. — Ela seria perfeita agora. Lá fora, a música é tão alta e as luzes tão coloridas que mal dá para raciocinar. As garotas dançam seminuas nas barras de aço do palco, enquanto os homens nas mesas perdem saliva para o chão. Mas aqui dentro, nenhum som e nenhuma luz. Estamos protegidos pelas paredes à prova de incômodo. Aqui, só uma iluminação baixa, uma estante de livros que encara três poltronas de couro marrom sobre um tapete clássico e avermelhado, um bar pequeno, e uma mesa baixa de centro. É o que nós precisamos quando as coisas ficam sérias e pedem privacidade.Em geral, os encontros com meus dois melhores amigos costumam envolver mais bebida, mais charutos e assuntos sobre garotas. Hoje as coisas estão diferentes. A noite parece calma, mas nenhum de nós três quer adm
— Interessante escolha de roupa para criar confusão.Meu coração quer saltar pela boca. A camisola é fina demais, totalmente translúcida. Um tipo de linho maleável que parece desaparecer quando molhado. E sem que eu consiga controlar, essa avaliação descarada dele esquenta meu corpo inteiro. Porque ele já tirou a minha roupa sem permissão, e agora está me olhando desse jeito. É uma violação. E não tem esse direito.Durante a noite passada eu estava tão cheia de adrenalina que não notei o quão grande meu inimigo era, mas agora, frente a frente com ele nesse quarto fechado, me sinto pequena demais, brigando pelo mesmo ar que este homem imenso.Quatro palmos de distância, talvez cinco… mas é como estar quase colada a ele.E é nesse instante que eu entendo o porquê dele ser um alfa. Niccolai não é só ridiculamente alto, tudo nele grita a violência de uma máquina de destruição. Minhas bochechas estão quentes, provavelmente vermelhas de vergonha, mas me forço a continuar de frente. Canse
Último capítulo