CAP 6

“Ei… o que eu te disse sobre chorar?”, a voz do meu tio surge na minha cabeça, tão clara como se ele estivesse na minha frente agora. “Quando você estiver em perigo, precisa focar em sobreviver. Seu inimigo vai estar focado.” 

Encaro o vestido que Selina colocou em um cabideiro — escolhido de um armário inteiro preparado para mim — logo antes de eu dizer para ela que o seu chefe nunca teria a minha presença em “jantar de merda nenhum” e que eu preferiria “comer lavagem com os porcos do que jantar ao lado de um assassino”.

Por um segundo, a mágoa em seus olhos foi como um aperto no estômago, mas se ela escolheu trabalhar para psicopatas, precisa arcar com as consequências. 

Agora, pensando melhor, Jay diria que eu estou errada. Que eu preciso me fortalecer, conhecer a rotina da casa e dos funcionários, me armar antes de cravar um punhal nas costas daquele alfa. Ou melhor, no seu pescoço. 

Então, mesmo contrariada, coloco o vestido de alcinhas finas, em um tecido branco e suave, que corre abaixo do meio das minhas pernas e marca bem a minha cintura. Seria lindo se não viesse dessa alcateia desprezível, então, penso de forma crítica que é delicado demais para mim.

Coloco meu cabelo de lado, sobre o ombro esquerdo, como sempre, e respiro fundo antes de descer. 

Só aí avalio de verdade a casa. 

Eu nunca entrei em um lugar tão lindo. É uma mansão de dois andares, toda de paredes em pedra acinzentada — aparentemente bem antiga, mas tudo parece novinho. O teto tem vigas de madeira grossas, intercaladas por espaços em alvenaria branca, de onde pendem uns lustres com pendentes em cristal. 

Pelas muitas janelas de vidro, vejo uma área externa gramada não muito extensa, que termina em mata fechada. 

O piso é de madeira lisa e bem tratada, coberta com tapetes clássicos, com cores pastéis e avermelhadas. 

Enquanto caminho devagar pelo lugar, meus dedos passeiam por um conjunto de sofás e cadeiras de almofadas fofas, cor de areia, que encara uma lareira, agora apagada. E tudo que eu consigo pensar é: deve ser maravilhoso relaxar em um sofá que não tenha molas que acabem com as suas costas, como eu tive a vida inteira.

A iluminação é amarela e baixa — e isso conforta os meus olhos — e de algum lugar soa uma música clássica baixinha, que parece transmitida para o ambiente todo. 

É paz no meio da guerra.

Sigo a sala de estar até o final e entro na sala de jantar, onde uma mesa de dez lugares está inteira posta e decorada com castiçais de velas já acesas. Nunca vi tanta comida sendo servida de uma única vez. Mas ninguém está fazendo as honras.

— Achei que ia jantar com os porcos essa noite.

Me viro quase com um salto e meus olhos encontram os dele. 

Sua voz é divertida, mais provocação do que seriedade. Niccolai veste uma camisa de tecido leve, as mangas dobradas até o antebraço, e os dois primeiros botões abertos deixam à mostra o início do peito forte e moreno. 

E só de olhar para ele, minha pulsação dispara, um calor inconveniente subindo para a nuca. 

Para disfarçar a reação, eu abro um sorrisinho de canto de boca, como quem diz que estar à mesa com ele é mesmo como jantar com porcos.

— Vou fingir que não notei o seu sarcasmo — ele volta a falar, agora em tom neutro, enquanto puxa a última cadeira da mesa para mim.

Estreito os meus olhos para ele e me afasto. Não quero nenhuma gentileza por parte desse desgraçado. 

Ele finge ignorar o meu gesto e senta na sua própria, na ponta da mesa, e eu resolvo focar no meu plano: conhecer essa alcateia de dentro para fora.

— Quantas pessoas vêm jantar com você? 

— Normalmente, a mesa fica cheia, mas hoje somos só nós dois. 

Encaro a mesa com olhos arregalados: Meia dúzia de pratos principais e mais meia dúzia de acompanhamentos, além de frutas, sucos, vinhos…

— E o que vocês fazem com o restante? — quase prendo o meu ar em expectativa pela resposta.

Ele dá de ombros, indiferente.

— Não sou eu que lido com estes assuntos.

Meus dentes travam, sinto os olhos arderem, mas reprimo as lágrimas de raiva. E todo o controle que eu deveria manter para conhecer esse lugar despenca.

— Nós vamos ficar com o frango e as batatas. — Digo, firme. — O restante vai ser doado antes de ser mexido. 

Ele cruza os braços no peito, e eu tenho vontade de tirar aquele sorriso irônico do rosto dele à base de pauladas.

— Acha que vai dar as cartas na minha casa? 

Silêncio. Estou segurando a minha respiração.

— Existem muitas pessoas passando fome, seu cretino, e você desperdiçando comida assim? Entregando restos aos seus próprios?

Me levanto de uma vez, pronta para sair da sala, mas ele é mais rápido. Uma mão enorme envolve o meu punho e me obriga a me virar para ele. 

— A vida que eu dou à minha alcateia é muito digna. — Sua voz é dura, assassina. Ele baixa o rosto até nossos olhos ficarem a um palmo de distância. 

— E a vida daqueles que são obrigados a fugir de você? — rebato sem nem pensar, minha voz um tom acima do necessário. — Você acha que a vida deles também é digna?

Niccolai franze a testa para mim, uma expressão de surpresa e dúvida tomando seu rosto.

— Eu mato os meus inimigos, lobinha — cospe desdém. — Nunca deixei nenhum deles fugir de mim. 

Puxo meu braço do dele com força, mas não recuo.

— Eu fugi! Sua família matou a minha e eu fugi! Você acabou com tudo que eu amo, mas eu sobrevivi!

Então, ele endireita a postura e dá um passo para trás, o rosto parecendo lívido… de surpresa… antes de se tornar uma pedra de gelo.

— Então, é por isso que você está me chamando de assassino? 

E, com essas palavras, por segundos, o meu coração simplesmente se recusa a bater, eu não consigo reagir. Para ele, acabar com dois clãs é tão pouco assim?

Mas antes que eu possa até pensar, os olhos dele voam na direção da sala de estar, reagindo a algum som ou cheiro, e quando voltam para mim, sua expressão parece tensa.

Em seguida, me empurra contra a primeira parede — dessa vez, não com agressividade. Passa uma mão pela minha nuca e eu levanto as sobrancelhas com a surpresa.

— Eu achei que teria mais tempo para isso, lobinha, mas parece que nós temos visita. Você não pode encontrar os outros assim.

— Assim como? — Tento me desvencilhar do seu toque, mas ele me puxa de volta.

— Sem uma marca de macho.

Só tenho tempo de arfar.

Sua boca corre para o meu pescoço, e no instante em que seus lábios tocam a minha pele, meu corpo arqueia contra o dele. 

É incontrolável. 

Fecho os olhos e o uivo dentro de mim quase me derruba, quando minhas pernas perdem as forças de uma vez.

Niccolai segura o meu peso com um braço pela minha cintura, como se eu fosse leve como um saco de plumas.

E então, me morde. Com força. E ainda assim, delicado.

As sensações se expandem dentro de mim até que o prazer explode — um prazer que devasta tudo em um segundo. 

Criando vida própria, minhas mãos correm para a nuca dele, e entram pelos seus cabelos, enquanto uma coxa minha levanta para me encaixar melhor ao seu corpo largo e musculoso. Como se eu quisesse mais.

E eu não quero. 

Mas mais rápido do que me prendeu, ele me solta, e quando me encara, não sei por que, parece tão atônito quanto eu.

Pela segunda vez, a marca de nascença está repuxando como uma ferida de queimadura.

É quando eu entendo. 

O maldito escreveu o nome dele em mim.

Mesmo que não seja a marca que sela a profecia — mesmo que não seja noite de lua de sangue ainda — qualquer outro vai sentir essa marcação de macho. Vai ver e entender o recado.

Para os outros, eu sou… dele.

Meu cérebro ainda não conseguiu mandar para o corpo a ordem para reagir, e eu continuo ali, travada, enquanto os sons que Niccolai ouviu agora ficam mais claros para mim.

Visitas.

Outros machos.

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