Mundo de ficçãoIniciar sessão— Interessante escolha de roupa para criar confusão.
Meu coração quer saltar pela boca.
A camisola é fina demais, totalmente translúcida. Um tipo de linho maleável que parece desaparecer quando molhado. E sem que eu consiga controlar, essa avaliação descarada dele esquenta meu corpo inteiro.
Porque ele já tirou a minha roupa sem permissão, e agora está me olhando desse jeito. É uma violação. E não tem esse direito.
Durante a noite passada eu estava tão cheia de adrenalina que não notei o quão grande meu inimigo era, mas agora, frente a frente com ele nesse quarto fechado, me sinto pequena demais, brigando pelo mesmo ar que este homem imenso.
Quatro palmos de distância, talvez cinco… mas é como estar quase colada a ele.
E é nesse instante que eu entendo o porquê dele ser um alfa. Niccolai não é só ridiculamente alto, tudo nele grita a violência de uma máquina de destruição.
Minhas bochechas estão quentes, provavelmente vermelhas de vergonha, mas me forço a continuar de frente. Cansei de dar às pessoas o gostinho de me ver constrangida e ferida.
Cansei de fugir.
Então, só cruzo os braços no peito, levantando o queixo para forçar o meu olhar firme no dele — mesmo com a diferença de um palmo e meio de altura entre nós dois.
— Você me sequestrou — devolvo a frieza, tentando disfarçar o sangue fervendo de ódio sob a pele. — E roubou as minhas roupas.
Seus olhos, que só agora eu percebo serem de um cinza-tempestade, acompanham o movimento dos meus braços e um sorrisinho irônico nasce no canto dos seus lábios.
— Seu vestido está sendo cuidado, estava cheio de terra e fuligem. E rasgado. — Ele faz uma pausa e sorri mais. — E se essa é a sua forma de me agradecer, confesso que gostei.
Canalha.
Minhas têmporas começam a latejar e a respiração acelera ainda mais. Esse homem tem o descaramento de acabar com a minha vida… e me provocar assim?
— Vou adorar que você fique assim sempre que a casa estiver vazia, lobinha — ele volta a falar. — Mas eu espero mais do que só olhar.
— Você acha isso engraçado? — cuspo. Esse sorriso dele só aumenta a minha repulsa.
— Curioso. — Rebate rápido. — Estou curioso para saber por que você está me atacando quando deveria me agradecer. Mais um minuto e aquele cara na mata teria…
Dou um passo à frente, e ele para de falar. Depois mais um. Seu olhar de diversão transformou minha raiva em fogo alto.
— Eu deveria agradecer por ter sido levada à força por alguém que precisa dopar uma mulher para ter companhia? Eu deveria agradecer um assassino?
O sorrisinho irônico morre de uma vez, seu rosto virando pedra em uma fração de segundo.
— O que você disse? — Agora é ele quem dá um passo à frente, e os olhos mostram o que ele é de verdade.
— Você é um assassino. Um sequestrador… — respondo devagar, deixando as palavras afiadas se assentarem entre nós antes de continuar: — … e eu não duvido que seja um estuprador também…
Niccolai fica imóvel, parecendo pronto para atacar, mas travado.
Eu aproveito:
— Mas você nunca vai conseguir o que está imaginando. Eu vou te matar antes.
Então, é rápido demais. Meu corpo é girado pelos ombros e minhas costas encontram a pedra gelada da parede atrás de mim. O ar some de uma vez com a dor da pancada.
Niccolai quase encosta a testa na minha e eu vejo, perto demais, seu maxilar tenso, os músculos do pescoço saltando.
E é quando o cinza dos seus olhos muda. Acende como lâmpada fria por trás das íris, um brilho prateado, quase branco.
Um raio em cada tempestade.
Meu Deus…
“Olhos de Lúmen”, eu arfo pela surpresa. Uma mutação rara entre os nossos.
Tão terrível e tão… lindo… que eu não consigo reagir.
— Eu te salvei — ele diz, a voz grave e tensa, tão perto que o ar que sai dele roça o meu rosto. — Te trouxe para a minha casa… você não vai me chamar de estuprador. E não vai me ameaçar.
Niccolai Vanderhall tem cheiro de cedro, de verbena e… suor limpo de homem. E whisky e charuto. Completamente bruto, absurdamente masculino.
O instinto da loba reage a essa força, reconhece a proximidade e esse poder todo que ele emana, e eu não tenho nenhum controle sobre ela. Minha pele inteira pulsa só por estar tão próxima dele assim.
A parede fria atrás de mim, o calor dele na minha frente… Meu coração dispara tanto que eu preciso descolar os lábios para puxar mais ar.
— Eu sou mesmo um assassino. E sou um sequestrador. Mas as mulheres sempre estão comigo porque querem.
O brilho prateado fica mais forte. E eu sinto, mesmo sem toque algum, um arrepio que sobe das minhas pernas, se espalha pela parte baixa da minha barriga e trava a respiração na garganta. É ódio, é medo… mas tem mais alguma coisa. É como se a eletricidade dos raios dele me impedisse de sair dali, de empurrar esse corpo enorme para longe do meu.
— Você se unir a mim na primeira lua de sangue, Amallia. E quando isso acontecer, vai implorar pelo meu toque.
O elo. Ser marcada e tomada por este homem.
Ela uiva dentro de mim. E, de repente, minha marca de nascença parece viva, a pele do pescoço reconhecendo o comando deste alfa maldito.
Isso me enoja… e me apavora.
— Eu prefiro morrer. — As palavras saem meio fracas, entre os dentes travados.
O olhar dele passeia pelo meu rosto por um instante. Analítico. A distância entre nós já quase não existe.
— Então, você vai.
E em um piscar de olhos, o brilho prateado dos seus olhos desaparece, a lâmpada interna apaga, e ele se vira e sai.
Meus ombros desabam, mas a respiração continua disparada. Estou cansada como se a nossa luta tivesse sido física.
Ele acaba de admitir que é mesmo um assassino, como os outros antes dele com esse maldito sobrenome!
Eu preciso fugir… ou matar esse desgraçado!
Antes que ele mesmo me mate por não aceitar nosso elo.







