CAP 2

— Lute, vadia, eu gosto mais assim — o hálito podre do homem de barba me agride.

Mas no instante em que ele tenta soltar o cinto com uma mão, eu levanto um joelho e acerto suas partes íntimas com o máximo de força que encontro. Ele geme alto e inclina o tronco pela dor, e eu aproveito para sacar o punhal de prata na bota.

“Nenhuma técnica vai te fazer mais forte do que um macho, Amallia”, A voz de Jay invade minha memória em um piscar de olhos. “Mire no tendão de Aquiles. Isso vai te fazer ganhar tempo”.

E é o que eu faço. Antes que ele possa se defender, eu o empurro para o chão e deslizo a lâmina afiada na parte de trás do seu pé.

O grito do homem vibra pelas árvores, e ele rola no chão, ao meu lado.

Tendão de aquiles cortado.

Mas o outro já vem pelas minhas costas e me derruba, prendendo meus pulsos para o alto. Com facilidade, toma o meu punhal:

— Quietinha agora. — O hálito quente na minha orelha.

Fico de bruços, o rosto esmagado contra a terra e as folhas úmidas. É impossível me soltar, a força dele me prende inteira. 

O coração está tão disparado que parece a ponto de explodir, e meu corpo pede mais oxigênio, mas ele não vem.

Então, de repente, o peso desaparece.

O ar volta para os meus pulmões de uma vez.

O homem foi arrancado de cima de mim com uma força que parece impossível, e em seguida, um estalo, como madeira rachando — são os ossos dele se partindo contra a árvore mais próxima, e o baque do corpo caindo no chão.  

Ao fundo, o primeiro, do tendão cortado, já não geme mais, uma linha fina de sangue pendendo do pescoço no seu corpo inerte.

Levanto com um salto sem olhar para ninguém, e corro na direção da cabana. O cheiro de sangue e fumaça enche os meus pulmões, e me faz tossir com força — as labaredas já estão altas contra as janelas… 

Tudo em mim se resume a um único pensamento: meu tio ainda está lá dentro.

— Jay! — o grito queima minha garganta e quebra minha alma.

A angústia é maior do que qualquer racionalidade.

Preciso entrar. Jay não vai conseguir…

Mas antes que eu chegue ao primeiro degrau do alpendre, um braço enorme e musculoso envolve a minha cintura e me impede de avançar. 

É aquele que chegou por último.

Luto contra ele, com meus braços e pernas — com toda a força que eu tenho — mas é em vão, o maldito monte de músculos parece uma parede concreto contra o meu corpo.

— Me solta, seu cretino, eu vou te matar! — Meu grito vem cheio de ódio.

— O fogo já tomou tudo lá dentro — sua voz grave é quase tão alta quanto o meu grito. — Acabou!

O ar sai da minha boca com uma lufada quando só então o meu lado racional consegue avaliar o que um dia foi a minha casa, mas que agora é uma fogueira gigante. 

Acabou.

Minhas pernas perdem a força, o corpo desistindo de me manter de pé, e eu desabo no chão.

Meu tio. O único pai que eu tive. 

Meu único tudo.

O homem que abriu mão da própria vida para salvar a minha, que me amou, me treinou, me ensinou a odiar os Vanderhall antes de amar a mim mesma. 

— Vamos, garota — ele puxa meu punho com brusquidão e força o meu corpo a levantar — a fumaça está alta, a polícia vai chegar a qualquer minuto.

Me desvencilho dele com um tranco e quase caio no chão mais uma vez.

— O que você quer, seu maldito? — Volto a tossir com a fumaça espessa me envolvendo, querendo rasgar minha garganta e meus pulmões. — Quem é você?

Mas a pergunta — ou o xingamento — aguça alguma coisa nele, e os ossinhos da sua mandíbula se mexem quando ele trava o maxilar.

Só agora olho para ele de verdade: Pele morena, cabelos escuros como a noite. Olhos vermelhos, mas é só o reflexo do fogo que agora toma de mim tudo o que eu amo.

Seu olhar duro amarra o meu… e uma fincada na base da minha coluna surge quando, de alguma forma, eu pressinto quem ele é.

— Meu nome é Niccolai Vanderhall.

Cada sílaba desse nome é um soco diferente no meu estômago.

Vanderhall. 

A família que destruiu a minha vida. E que agora matou o meu tio.

Minha mente entra em colapso, com todos os pensamentos racionais sumindo de novo.

Em um piscar de olhos, não penso e não sinto nada. Só corro. 

Mas mal dá tempo de traçar um plano, poucos passos depois meu corpo colide com alguma coisa tão rígida que quase me faz perder o equilíbrio. Outras mãos me agarram e, meus olhos voam para os dele. Dessa vez, reconheço o rosto: um dos homens que estava no estacionamento da farmácia.

Seus braços enormes me viram de costas para ele, e um tecido cobre meu nariz e minha boca. O cheiro doce e alcoólico se espalha rápido pelos meus pulmões, me sufocando.

Me debato contra ele, minhas unhas cravando sua pele até sangrar, mas quanto mais esforço eu faço, mais inspiro a química.

A tontura vem rápido. E meu coração começa a desacelerar de repente.

Tento lutar contra os olhos pesados, desesperados para se fechar, mas é impossível.

E, entre a fumaça e a mata iluminada pelo fogo, lá está ele mais uma vez. 

O assassino.

O reflexo das chamas ainda nos seus olhos, fixos em mim.

É a última coisa que eu vejo.

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