Mundo de ficçãoIniciar sessãoDesperto em um solavanco.
O ar entra arranhando minha garganta seca, como se eu tivesse passado dias sem beber uma gota de água. E a cabeça… lateja tanto que parece que alguém martelou um sino de ferro contra o meu crânio a noite inteira.
Minha língua virou um tufo de algodão, e as bochechas estão grudando nos dentes.
Viro o rosto devagar em um travesseiro macio. A luz do sol entra por janelas altas do meu lado, iluminando um teto que eu não reconheço, as paredes de pedra, móveis escuros e uma cama de dossel grande demais para a cabana.
— Jay… — chamo, a voz rouca de sede.
Silêncio.
Esfrego os olhos e… que lugar…?
Então, as lembranças são uma pancada na minha mente, enrijecendo meus músculos como choque.
Fogo na cabana.
Um homem de cabelos escuros e íris refletindo as chamas.
“Meu nome é Niccolai Vanderhall”.
Jay.
Ah, meu Deus, Jay!
Puxo o ar com força pela boca, meu coração dispara rápido e me obriga a sentar na cama.
É quando um homem surge no meu raio de visão.
Encostado na parede, no canto mais afastado do quarto, ele tem os braços cruzados no peito largo, a postura rígida e imóvel no corpo musculoso, me observando sem piscar.
Pulo da cama em reflexo e me encosto na parede de pedra na outra extremidade, meus olhos varrendo o quarto, procurando por qualquer coisa que eu possa usar como arma contra ele.
Mas nenhuma faca, nada pontudo ou afiado. Nada que eu possa usar para me defender.
As janelas estão trancadas e a porta fechada ao seu lado.
Estou presa.
A luz que entra pelas janelas ressalta o tom vermelho dos fios lisos e curtos, as sardas sobre o nariz e a linha dura do maxilar enquanto ele me encara, parecendo ainda mais ameaçador pelo silêncio.
Só aí percebo a camisola branca que cobre meu corpo até os joelhos. Não é minha.
E um cheiro que eu não reconheço está em tudo, entranhado em mim — na minha pele, no meu cabelo, na camisola — fazendo flashes curtos, imagens picotadas, explodirem na minha memória: Alguém me carregando no colo, meu rosto contra um peito que não era o do meu tio.
É o cheiro dele, do homem que me carregou. Foi ele quem me trouxe até aqui, ele que… tirou a minha roupa… e me vestiu assim.
Mas o cheiro em mim não é o que estou sentindo vir deste na minha frente.
— Quem é você? — rosno, a voz saindo como a de um animal acuado. — Que lugar é esse?
O ruivo descruza os braços, devagar — sua expressão fechada e agressiva — e dá um passo à frente, depois mais um, chegando cada vez mais perto de mim.
E antes que possa dizer qualquer coisa, a porta é aberta e uma senhora baixinha surge, com os cabelos grisalhos presos em coque e uma expressão calma demais para alguém lidando com uma estranha sequestrada e trancada no cômodo.
— Você acordou — a mulher diz, avançando pelo quarto com uma jarra de água e um copo nas mãos. — Eu sou a Selina. Esta é a propriedade do alfa Niccolai Vanderhall.
A última frase me causa uma náusea imediata.
É a casa do maldito.
Os Vanderhall mataram a minha família, o meu tio… e agora me obrigaram a vir para a toca deles. Tudo aquilo que meu tio tentou impedir a vida inteira… acabou de acontecer.
Meu pulso martela nos ouvidos enquanto olho do ruivo para a mulher e para o único detalhe que importa agora — minha única esperança para escapar deste lugar: a porta aberta atrás dela.
Sem pensar duas vezes, me lanço para a frente e empurro Selina com força contra o homem, fazendo com que os dois se choquem no meio do quarto. A jarra escapa das mãos dela e a água voa para todos os lados, caindo no chão e sobre o ruivo, que solta um palavrão ao tentar se equilibrar, com o copo se estilhaçando aos seus pés.
Aproveito o espaço que se abre e corro.
Mas mal cruzo a porta quando braços largos me envolvem pela cintura e me arrancam do chão em um puxão bruto, me trazendo de volta para dentro do quarto.
Me debato, tentando acertar cotoveladas, chutes, qualquer coisa que me traga alguma vantagem. Mas ele me segura firme demais, o corpo encharcado molhando agora minha camisola também.
Até que a parte de trás dos meus joelhos b**e contra a cama e eu caio sobre o colchão, o peso do corpo musculoso me prendendo, seus joelhos afundando no colchão ao lado das minhas pernas.
Então, ele agarra meus punhos e os segura acima da minha cabeça.
— Você já deu muito trabalho — rosna, a voz carregada de raiva. — Agora fique quieta!
— Esteban…
A voz que surge atrás de nós não é alta, mas parece mais brutal do que uma punhalada.
O corpo do ruivo enrijece em reflexo e eu sinto imediatamente suas mãos de algemas nos meus pulsos afrouxarem.
— … solte.
O peso daquela única palavra é suficiente para arrancá-lo de cima de mim. Esteban solta meus punhos de vez e se levanta, sem discutir, mas ainda me lançando um olhar cheio de tensão.
Aproveito o segundo de espaço e quase corro até a parede de pedra oposta à entrada, onde encosto as costas, tentando recuperar o fôlego.
Só então eu olho em volta.
Selina está parada perto da porta, também encharcada, a expressão agora o oposto da calma que tinha antes. Ao lado dela, dois homens ocupam a entrada do quarto, tão grandes que bloqueiam completamente o meu caminho.
E no meio deles está ele.
Niccolai Vanderhall.
Congelo. O oxigênio também parece congelar nos meus pulmões. E o único ponto de calor do meu corpo é a marca no pescoço, que repuxa como se estivesse tentando me dar um alerta.
Mas não preciso dela para entender o perigo.
O alfa assassino na minha frente está coberto de sangue.
No rosto, na camisa preta manchada… Os antebraços estão cheios de marcas em vermelho seco, como se tivesse acabado de lutar com alguém ou alguma coisa.
Quatro pares de olhos sobre mim, mas me prendo a apenas um deles.
Niccolai.
E só de encará-lo agora, um arrepio glacial finca a base da minha coluna, antes de se espalhar pelo corpo todo.
É a minha loba reconhecendo um alfa. Não um macho como o meu tio, que nasceu para ser alfa. Um alfa de verdade.
As narinas de Niccolai se dilatam no instante em que nossos olhos se encontram, então, o olhar dele desce por uma fração de segundo — rápido e avaliador — e um vinco se forma no meio da sua testa quando ele estreita os olhos para mim.
No rosto do assassino eu vejo parte da mesma raiva e da repulsa que eu sinto por ele. Mas só parte, porque ele jamais poderia me odiar tanto quanto eu o odeio.
— Fora. Os três. Agora. — Ele ruge de repente, a voz grave para os outros homens. Mas a atenção ainda está inteira em mim. — Nem mais um olhar para ela.
Os três obedecem imediatamente, se apressando para sair sem uma palavra, seguidos por Selina.
Silêncio.
Nenhum de nós dois se move.
— Interessante escolha de roupa para criar confusão. — Ele diz, por fim. Sua voz é fria e seca, o rosto é a definição da falta de emoção.
Então, meus olhos seguem os dele e descem para o meu colo, onde meus seios pressionam a camisola fina, os mamilos rígidos colados no tecido molhado e…
Ah, meu Deus…
completamente transparente.







