CAP 5 - NICCOLAI

CAP 5 - NICCOLAI

SEIS MESES ATRÁS.

— A garota da profecia. — Jonah Blackwood gira o whisky no copo, olhos presos na bebida. Por um instante, o tilintar do gelo no vidro é o único barulho da sala privada da Nostrum. — Ela seria perfeita agora. 

Lá fora, a música é tão alta e as luzes tão coloridas que mal dá para raciocinar. As garotas dançam seminuas nas barras de aço do palco, enquanto os homens nas mesas perdem saliva para o chão. 

Mas aqui dentro, nenhum som e nenhuma luz. Estamos protegidos pelas paredes à prova de incômodo. Aqui, só uma iluminação baixa, uma estante de livros que encara três poltronas de couro marrom sobre um tapete clássico e avermelhado, um bar pequeno, e uma mesa baixa de centro. 

É o que nós precisamos quando as coisas ficam sérias e pedem privacidade.

Em geral, os encontros com meus dois melhores amigos costumam envolver mais bebida, mais charutos e assuntos sobre garotas. Hoje as coisas estão diferentes. A noite parece calma, mas nenhum de nós três quer admitir que o clima está pesado.

Dorian Falcon está ganhando força. Rápido demais. 

Soren solta uma fumaça densa do charuto de baunilha e j**a o corpo para trás na poltrona de couro enquanto pergunta:

 — Garota da profecia? A criança sumida dos Langford e dos Varyn? 

— Elisa. — Jonah corrige, sem levantar o olhar, mas lança um sorrisinho irônico para o copo. — Ou seja lá o nome que ela tiver agora. E ela já não é mais criança. 

“Quando a lua selar sua filha em sinal e o círculo brilhar no corpo real, a lua de sangue e o rito ancestral erguem o alfa supremo letal.”

Solto o ar pelo nariz e balanço a cabeça.

— Vocês acreditam mesmo nessa merda de marca proibida? — pergunto, cruzando uma perna sobre o joelho, na cadeira de couro. Já tem mais de uma década que ninguém toca no assunto do massacre dos Langford e dos Varyn. Ninguém mais acredita em marca nenhuma.

Soren me encara por um segundo, depois vira o copo de uma vez, como se o whisky fosse água.

— Eu não — diz, limpando a boca com o dorso da mão. — Mas Jonah, pelo visto, acredita.

De nós três, Jonah é o mais fácil de lidar. Com exceção de algumas explosões pontuais quando as merdas ficam sérias, Jonah é um cara tranquilo. Não faz o tipo que arquiteta nada com malícia. Isso sempre ficou por minha conta. 

E é por isso que eu estou achando curioso o interesse dele por Elisa Langford Varyn. E que logo ele esteja insinuando o que eu acho que está.

Jonah levanta o olhar e abre um sorriso de canto de boca:

— Não só eu. Falcon também. Vocês não acham estranho ele nunca ter parado de procurar por ela? 

— Ninguém sabe se a garota é mesmo marcada pela lua — Soren diz, depois puxa uma tragada funda, e a ponta do charuto brilha em vermelho. 

— Um dos homens de Falcon viu a marca no pescoço dela quando rastrearam Jayden Langford pela última vez. Antes dele sumir de vez com ela.

— Isso tem uns quinze anos — comento e Jonah me lança um sorrisinho cheio de malícia.

— Dezesseis. Ela já fez vinte e um.

Vinte e um anos. Nova demais. Mas, definitivamente, adulta.

Agora eu levanto uma sobrancelha e resolvo provocar:

— Pelo visto, você leva esse assunto a sério.

E o sorriso do meu amigo morre de uma vez.

— Elisa é uma arma de guerra. Antes a gente não tinha motivo para se preocupar. As coisas mudaram agora. E se Falcon colocar as mãos nela…

Langford e Varyn. Os nomes ainda soam estranhos. Nossos clãs eram parceiros, duas famílias tradicionais do sul, que se uniram depois do elo entre o herdeiro dos Varyn e a herdeira dos Langford. Eram famílias influentes… até as vésperas do nascimento de Elisa, quando uma vidente previu a chegada da nova “Benção da Lua”.

A lenda é velha: a cada cinco gerações, supostamente, uma mulher nasce marcada pela lua. A marca, um círculo vazado no pescoço ou no pulso, é poder puro: o alfa que se unir a ela em uma noite de lua de sangue vira o alfa supremo. O mais forte de todos.

E, por consequência, o mais perigoso. Então, quem não tem chance de se unir a ela… quer matá-la.

Jayden Langford perdeu a família toda com o ataque que as duas famílias sofreram no dia do nascimento, e acabou fugindo, desaparecendo com a sobrinha recém-nascida. 

Soren se inclina até a mesinha na nossa frente e serve mais uma dose do whisky que está logo ao lado do meu absinto. O cabelo claro e liso cai bagunçado pelo rosto quando ele j**a o tronco de volta na poltrona.

— Você precisa transar mais, Jonah. Falcon pode ter tomado o controle do sul, mas nosso território é muito maior.

Mas eu estou curioso demais com esse interesse de Jonah para deixar o assunto morrer. Giro o isqueiro entre os meus dedos por segundos, segurando o sorriso.

— O que você está sugerindo, Blackwood? — pergunto, sabendo que eu já aceitei o jogo sem nem saber quais são as regras. 

Ele só levanta o olhar para mim, o restante do rosto ainda baixo, no copo.

— Revirar tudo. — Responde, frio e calmo, mas sério. — Cada um de nós envia um grupo de busca para uma região. 

— E se nós a acharmos? — Soren ainda parece desinteressado. 

— Quem encontrar, fica com ela — agora o sorriso de Jonah é cheio de maldade. — E vai se tornar o alfa supremo. 

Meu sorriso cresce, e vira lenha para a fogueira de Jonah.

— Isso pode causar uma briga entre nós três. — comento, casual. O absinto desce tão bem com o assunto divertido que nem queima a garganta.

— Aquele que tomar a garota, protege os outros dois. A gente faz um pacto agora mesmo. 

O desafio coça as minhas mãos. Jonah sabe o quão competitivo eu sou. 

— Estou fora. — Soren diz, seco e direto. — Não estou na idade de me amarrar. Se vocês dois estão entediados, procurem mais mulheres. Eu não estou.

Jonah levanta uma sobrancelha.

— Ninguém quer, Soren. Nenhum de nós três quer se amarrar.

— E por que eu vou lutar por um prêmio que eu não quero? Ser protegido por um de vocês dois já é suficiente para mim. 

— Não só Elisa — resolvo elevar o nível da aposta. — Quem ganhar leva um favor dos outros dois.

— Que tipo de favor? — Soren pergunta.

— Qualquer um. — respondo. — Menos o controle do clã dos outros.

Meu olhar fica preso no de Jonah Blackwood, em uma disputa sem palavras. O filho da puta sabe como me provocar.

— Porra, Nicco… — Pela visão periférica, posso ver Soren balançando a cabeça, um sorriso dançando no seu rosto todo — … Jonah está jogando com a sua cabeça. Ele sabe que você não resiste a uma merda assim.

Eu entendo a recusa de Soren. O alfa dos Van Darten é o homem mais analítico e fechado que eu conheço. É observador, calculista e frio… quase sempre. O que ele não sabe é que eu já percebi que ele também tem os próprios demônios para lutar — um único demônio, para ser mais específico. 

Mas com demônio ou não, ele não vai se safar dessa.

Levanto a barra da minha calça, onde um pequeno coldre de couro, preso ao meu tornozelo, esconde uma lâmina. Pego a arma e a jogo sobre a mesinha na nossa frente.

— Estou dentro… — digo, ainda encarando Jonah — …se Soren estiver também.

Os olhos verde-escuros de Jonah correm para Soren ao mesmo tempo em que os meus: 

— Nós três ou ninguém, Van Darten — ele diz, enquanto a lâmina da adaga traça uma linha fina de sangue no centro da sua palma, e ela a oferece a Soren.

— Vocês são dois filhos da puta. — Ele responde, se rendendo. 

Então, o mesmo traço de sangue surge na palma de Soren, e os dois apertam as mãos. Em seguida, é a minha vez. 

Três mãos ensanguentadas. Três apertos que selam um pacto de sangue, o que existe de mais honroso entre os licanos.

Sorrio com vontade. Hoje é dia de comemorar. E já começar a minha despedida de solteiro com todas as dançarinas dessa boate.

Eu vou me tornar o alfa supremo na próxima lua de sangue.

Porque eu tenho um trunfo que eles não sabem.

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