Mundo ficciónIniciar sesiónSEIS MESES ATRÁS.
— A garota da profecia. — Jonah Blackwood gira o whisky no copo, olhos presos na bebida. Por um instante, o tilintar do gelo no vidro é o único barulho da sala privada da Nostrum. — Ela seria perfeita agora.
Lá fora, a música é tão alta e as luzes tão coloridas que mal dá para raciocinar. As garotas dançam seminuas nas barras de aço do palco, enquanto os homens nas mesas perdem saliva para o chão.
Mas aqui dentro, nenhum som e nenhuma luz. Estamos protegidos pelas paredes à prova de incômodo. Aqui, só uma iluminação baixa, uma estante de livros que encara três poltronas de couro marrom sobre um tapete clássico e avermelhado, um bar pequeno, e uma mesa baixa de centro.
É o que nós precisamos quando as coisas ficam sérias e pedem privacidade.
Em geral, os encontros com meus dois melhores amigos costumam envolver mais bebida, mais charutos e assuntos sobre garotas. Hoje as coisas estão diferentes. A noite parece calma, mas nenhum de nós três quer admitir que o clima está pesado.
Dorian Falcon está ganhando força. Rápido demais.
Soren solta uma fumaça densa do charuto de baunilha e j**a o corpo para trás na poltrona de couro enquanto pergunta:
— Garota da profecia? A criança sumida dos Langford e dos Varyn?
— Elisa. — Jonah corrige, sem levantar o olhar, mas lança um sorrisinho irônico para o copo. — Ou seja lá o nome que ela tiver agora. E ela já não é mais criança.
“Quando a lua selar sua filha em sinal e o círculo brilhar no corpo real, a lua de sangue e o rito ancestral erguem o alfa supremo letal.”
Solto o ar pelo nariz e balanço a cabeça.
— Vocês acreditam mesmo nessa merda de marca proibida? — pergunto, cruzando uma perna sobre o joelho, na cadeira de couro. Já tem mais de uma década que ninguém toca no assunto do massacre dos Langford e dos Varyn. Ninguém mais acredita em marca nenhuma.
Soren me encara por um segundo, depois vira o copo de uma vez, como se o whisky fosse água.
— Eu não — diz, limpando a boca com o dorso da mão. — Mas Jonah, pelo visto, acredita.
De nós três, Jonah é o mais fácil de lidar. Com exceção de algumas explosões pontuais quando as merdas ficam sérias, Jonah é um cara tranquilo. Não faz o tipo que arquiteta nada com malícia. Isso sempre ficou por minha conta.
E é por isso que eu estou achando curioso o interesse dele por Elisa Langford Varyn. E que logo ele esteja insinuando o que eu acho que está.
Jonah levanta o olhar e abre um sorriso de canto de boca:
— Não só eu. Falcon também. Vocês não acham estranho ele nunca ter parado de procurar por ela?
— Ninguém sabe se a garota é mesmo marcada pela lua — Soren diz, depois puxa uma tragada funda, e a ponta do charuto brilha em vermelho.
— Um dos homens de Falcon viu a marca no pescoço dela quando rastrearam Jayden Langford pela última vez. Antes dele sumir de vez com ela.
— Isso tem uns quinze anos — comento e Jonah me lança um sorrisinho cheio de malícia.
— Dezesseis. Ela já fez vinte e um.
Vinte e um anos. Nova demais. Mas, definitivamente, adulta.
Agora eu levanto uma sobrancelha e resolvo provocar:
— Pelo visto, você leva esse assunto a sério.
E o sorriso do meu amigo morre de uma vez.
— Elisa é uma arma de guerra. Antes a gente não tinha motivo para se preocupar. As coisas mudaram agora. E se Falcon colocar as mãos nela…
Langford e Varyn. Os nomes ainda soam estranhos. Nossos clãs eram parceiros, duas famílias tradicionais do sul, que se uniram depois do elo entre o herdeiro dos Varyn e a herdeira dos Langford. Eram famílias influentes… até as vésperas do nascimento de Elisa, quando uma vidente previu a chegada da nova “Benção da Lua”.
A lenda é velha: a cada cinco gerações, supostamente, uma mulher nasce marcada pela lua. A marca, um círculo vazado no pescoço ou no pulso, é poder puro: o alfa que se unir a ela em uma noite de lua de sangue vira o alfa supremo. O mais forte de todos.
E, por consequência, o mais perigoso. Então, quem não tem chance de se unir a ela… quer matá-la.
Jayden Langford perdeu a família toda com o ataque que as duas famílias sofreram no dia do nascimento, e acabou fugindo, desaparecendo com a sobrinha recém-nascida.
Soren se inclina até a mesinha na nossa frente e serve mais uma dose do whisky que está logo ao lado do meu absinto. O cabelo claro e liso cai bagunçado pelo rosto quando ele j**a o tronco de volta na poltrona.
— Você precisa transar mais, Jonah. Falcon pode ter tomado o controle do sul, mas nosso território é muito maior.
Mas eu estou curioso demais com esse interesse de Jonah para deixar o assunto morrer. Giro o isqueiro entre os meus dedos por segundos, segurando o sorriso.
— O que você está sugerindo, Blackwood? — pergunto, sabendo que eu já aceitei o jogo sem nem saber quais são as regras.
Ele só levanta o olhar para mim, o restante do rosto ainda baixo, no copo.
— Revirar tudo. — Responde, frio e calmo, mas sério. — Cada um de nós envia um grupo de busca para uma região.
— E se nós a acharmos? — Soren ainda parece desinteressado.
— Quem encontrar, fica com ela — agora o sorriso de Jonah é cheio de maldade. — E vai se tornar o alfa supremo.
Meu sorriso cresce, e vira lenha para a fogueira de Jonah.
— Isso pode causar uma briga entre nós três. — comento, casual. O absinto desce tão bem com o assunto divertido que nem queima a garganta.
— Aquele que tomar a garota, protege os outros dois. A gente faz um pacto agora mesmo.
O desafio coça as minhas mãos. Jonah sabe o quão competitivo eu sou.
— Estou fora. — Soren diz, seco e direto. — Não estou na idade de me amarrar. Se vocês dois estão entediados, procurem mais mulheres. Eu não estou.
Jonah levanta uma sobrancelha.
— Ninguém quer, Soren. Nenhum de nós três quer se amarrar.
— E por que eu vou lutar por um prêmio que eu não quero? Ser protegido por um de vocês dois já é suficiente para mim.
— Não só Elisa — resolvo elevar o nível da aposta. — Quem ganhar leva um favor dos outros dois.
— Que tipo de favor? — Soren pergunta.
— Qualquer um. — respondo. — Menos o controle do clã dos outros.
Meu olhar fica preso no de Jonah Blackwood, em uma disputa sem palavras. O filho da puta sabe como me provocar.
— Porra, Nicco… — Pela visão periférica, posso ver Soren balançando a cabeça, um sorriso dançando no seu rosto todo — … Jonah está jogando com a sua cabeça. Ele sabe que você não resiste a uma merda assim.
Eu entendo a recusa de Soren. O alfa dos Van Darten é o homem mais analítico e fechado que eu conheço. É observador, calculista e frio… quase sempre. O que ele não sabe é que eu já percebi que ele também tem os próprios demônios para lutar — um único demônio, para ser mais específico.
Mas com demônio ou não, ele não vai se safar dessa.
Levanto a barra da minha calça, onde um pequeno coldre de couro, preso ao meu tornozelo, esconde uma lâmina. Pego a arma e a jogo sobre a mesinha na nossa frente.
— Estou dentro… — digo, ainda encarando Jonah — …se Soren estiver também.
Os olhos verde-escuros de Jonah correm para Soren ao mesmo tempo em que os meus:
— Nós três ou ninguém, Van Darten — ele diz, enquanto a lâmina da adaga traça uma linha fina de sangue no centro da sua palma, e ela a oferece a Soren.
— Vocês são dois filhos da puta. — Ele responde, se rendendo.
Então, o mesmo traço de sangue surge na palma de Soren, e os dois apertam as mãos. Em seguida, é a minha vez.
Três mãos ensanguentadas. Três apertos que selam um pacto de sangue, o que existe de mais honroso entre os licanos.
Sorrio com vontade. Hoje é dia de comemorar. E já começar a minha despedida de solteiro com todas as dançarinas dessa boate.
Eu vou me tornar o alfa supremo na próxima lua de sangue.
Porque eu tenho um trunfo que eles não sabem.







