Mundo de ficçãoIniciar sessão
Meu tio está morrendo.
E os gemidos dele foram o meu despertador hoje.
Jay, minha única família, logo vai partir, e eu vou ficar sozinha nessa cabana úmida e caindo aos pedaços. Sozinha no mundo. A prata, acumulada nos órgãos dele, o envenena um pouquinho mais a cada dia, e a culpa é minha.
Ele está deitado no sofá, os olhos azuis — iguais aos meus — fechados, e o rosto contraído de dor. Tem sido assim há anos, as transformações que ele bloqueia passaram a deixá-lo cada vez mais doente. E, quanto mais perto da lua cheia, mais debilitado ele fica.
Jayden Langford, irmão gêmeo da minha mãe, deveria ser o alfa da alcateia Langford, mas foi obrigado a abrir mão de tudo e fugir comigo, recém-nascida, depois que os Vanderhall invadiram nossa aldeia e queimaram tudo até o chão, tentando me sequestrar.
E me manter prisioneira até eu ter idade de me unir ao alfa deles.
Nasci com uma maldição marcada no meu pescoço. O lobo que eu me vincular vai se transformar no mais forte do mundo.
Pelo menos, é o que a profecia diz sobre esse maldito circulo vazado na minha pele.
Visto meu vestido floral novo e a bota de cano curto que esconde o coldre de couro do punhal de prata, que está sempre comigo. Passo um pouco de maquiagem no pescoço, jogo o cabelo preto por cima do ombro esquerdo, como sempre. A marca fica escondida e eu pareço uma garota normal.
Depois começo a carregar o carro com as caixas de velas aromáticas, óleos essenciais e o resto todo que eu produzi durante o mês. É o primeiro sábado do mês, dia de ir à cidade, vender a minha produção para comprar os remédios do Jay.
— Amallia… — a voz dele me faz parar. Apoio uma caixa no chão. — Pegue uma dose antes de sair.
Balanço a cabeça, porque suas mãos estão tremendo mais do que o normal hoje.
— Tio, é muito, você tomou ontem e…
— Ele está forte, Malli… — me corta, sem fôlego. — Eu sinto… ele perto demais hoje.
“Ele”. O lobo que ele reprime desde que percebeu que foi a própria transformação dele que atraiu os outros licanos, naquela noite, dezesseis anos atrás.
Misturo a prata coloidal com dois dedos de água, como tenho feito há tanto tempo, e saio, porque não tem nada mais que eu possa fazer além trabalhar para amenizar o sofrimento dele.
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O centrinho da cidade fica tomado de gente nos dias de feira, e hoje, com o sol desse jeito, está impossível andar.
Alguns desviam de mim quando eu passo, outros cochicham. As crianças correm de um lado para o outro o tempo todo, gritando ‘bruxa’ com o mesmo veneno dos pais.
Só o de sempre.
Mas ignoro tudo que eles fazem e passo o dia inteiro atrás da barraca, vendendo os óleos, bálsamos, as velas e, dessa vez, uns sabonetes de camomila que estou testando. Tudo feito com o que eu planto em volta da cabana e na clareira ensolarada que fica ao lado.
O sol já está se pondo quando fecho a última venda do dia, e corro para o carro com as caixas que sobraram, para chegar a tempo na farmácia. Apoio as caixas no chão, mas quando me abaixo para destravar a porta, as risadas atrás de mim fazem o meu coração disparar em um segundo.
— Olha só, a bruxa do bosque comprou vestido novo.
Fecho os olhos e inspiro com força. Não preciso olhar para saber quem é, essa voz me atormenta desde os treze anos. Elena.
Quando me viro, Elena e as três escudeiras estão me olhando com o mesmo desdém de sempre.
— Aposto que foi com o dinheiro que ela tira dos homens com essas poções — diz uma delas, rindo e jogando o cabelo escuro para o lado.
— Quer chamar atenção dos casados também? — A outra completa.
Eu aperto o tecido da saia nas mãos e resolvo continuar calada, não vale a pena discutir. Só quero entrar no carro, ir embora, antes que eu não consiga os remédios do meu tio.
— Não vai responder? — Elena, dá um passo à frente. — Ou está criando algum feitiço aí na cabeça?
— Eu preciso… preciso ir, a farmácia vai fechar… meu tio precisa…
Mas enquanto estou falando, duas delas vão pelas minhas costas e seguram os meus braços, enquanto Elena crava as mãos na barra do meu vestido e puxa com agressividade.
O som do tecido fino rasgando, da barra até o quadril, me faz prender o ar.
E as quatro só… gargalham.
— Você se acha mais bonita do que todo mundo, não é? — Ela cospe no chão perto do meu pé. — Essa cidade não te quer aqui, bruxa.
Quando se viram e saem, eu encosto no carro até regularizar a respiração. Minhas pernas estão tremendo, mas é só quando eu vejo as moedas e os bolinhos de notas que eu recebi hoje espalhados pelo chão é que as lágrimas caem.
Dói na minha alma, mas agacho e cato o dinheiro todo o mais rápido possível, como se fosse esmola que jogaram para um mendigo.
Como se eu fosse um bicho de rua, morto de fome, ganhando restos de comida.
Esfrego as costas das mãos no rosto para afastar rápido as malditas lágrimas, que não param de cair — não quero que ninguém nessa cidade veja o que eles conseguem fazer comigo.
Entro no carro com o vestido rasgado, e meus dedos tremem tanto que demoro para girar a chave.
Amanhã é lua cheia, quando a dor dele aumenta, Jay não pode ficar sem os remédios. Então, eu acelero o máximo que posso, mas quando viro a esquina e vejo as luzes da farmácia apagadas, meu coração simplesmente… desaba.
Desço ainda com o motor ligado e bato na porta de vidro, uma, duas vezes.
— Por favor… — minha voz sai rouca, quase sem som. — Abre, por favor.
Nada. Só o reflexo dos meus olhos inchados no vidro da vitrine.
Encosto a testa no vidro frio e puxo o ar com força.
— Por favor… — repito, sem nem saber para quem.
E é quando alguma coisa no ar só… muda.
Meu corpo toma um tranco e eu olho rápido de um lado para o outro…
Até que o meu olhar encontra o deles.
Dois homens jovens estão apoiados em um carro do outro lado no estacionamento escuro da farmácia, me encarando sem disfarçar.
Eles sabem quem eu sou.
Corro para o carro e tranco as portas no mesmo instante, minha respiração está tão acelerada que o ar só entra pela boca.
É o meu instinto gritando o que eles são.
Licanos — os primeiros que eu vejo desde os meus cinco anos, desde que fugimos da última cidade.
No retrovisor, um deles continua imóvel; o outro tira o celular do bolso e leva ao ouvido, com tanta calma que me deixa ainda mais desesperada.
A estrada até a cabana essa noite parece não acabar nunca. E a cada quilômetro eu aperto mais o volante, porque a cada quilômetro meu pânico aumenta mais.
Preciso avisar Jay, nós precisamos fugir.
Os Vanderhall nos encontraram de novo.
Abandono o carro de qualquer jeito perto da cabana, e nem fecho a porta.
— Jay? — entro correndo, mas o silêncio é a única resposta.
E antes que eu consiga registrar qualquer coisa, meu couro cabeludo arde e meu corpo voa para trás. Mãos grossas me agarram pelos braços e pelo cabelo, e me arrastam até o lado de fora.
— Nós finalmente te encontramos… — o desconhecido diz, sua barba longa perto demais do meu rosto. — Agora quero ver o que te faz tão especial para todo mundo.
— Leve ela logo para o carro — o outro interrompe, mas seus olhos escuros parecem tão sádicos quanto os do parceiro.
Então, eu entendo que não querem me matar aqui, querem me levar. Vão mesmo forçar um vínculo.
É o maior medo do meu tio se tornando realidade.
— Me solta, desgraçado! — Minhas palavras saem apertadas, cuspidas entre dentes cerrados, quando o de barba me empurra contra uma árvore com força suficiente para fazer a casca furar a minha pele.
— Eu ia te levar direto para casa, querida — diz, com malícia, seu rosto colado ao meu. — mas acho que quero uma prova antes.
Viro o rosto para o lado, fugindo do contato da sua boca na minha, mas quando encaro a cabana, meu pavor fica, de repente, sufocante.
Outro deles.
O terceiro segura um galão e, espalha gasolina pelo alpendre.
Jay está fraco demais para conseguir sair.
— Não! — grito, tentando me soltar, enquanto as faíscas riscam o ar. O fogo começa a estalar, engolindo rápido a frente da cabana, e o calor me atinge junto com o pânico. — Jay!
O homem me prende mais, seu joelho já forçando minhas pernas a se abrirem.
— Lute, vadia, eu gosto mais assim — o hálito podre me agride…
…enquanto uma mão dele corre para o próprio cinto.







