Mundo de ficçãoIniciar sessãoRicardo destruiu três anos de relacionamento com um post no Instagram e uma influenciadora agarrada ao seu braço. Para piorar a humilhação, ainda teve coragem de convidar Isadora Alves Villela para o casamento de amigos em comum — o evento mais luxuoso do ano. A última coisa que a elite espera é ver a famosa “Rainha do Gelo” abandonada. Então Isadora decide aparecer acompanhada. Mas não por um empresário elegante ou um herdeiro mimado como os homens do seu círculo social. Ela escolhe alguém capaz de chocar todos eles: um mecânico arrogante, tatuado e absurdamente atraente que trabalha em uma oficina na Zona Norte. Daniel Montenegro é perigoso desde o primeiro olhar. Ele tem mãos marcadas por graxa, um sorriso provocador e uma facilidade irritante de desmontar cada uma das defesas de Isadora. Acostumada a controlar tudo, ela acredita que pode transformá-lo no acompanhante perfeito por alguns dias. Afinal, quanto difícil pode ser ensinar boas maneiras a um homem bonito? O problema é que Daniel não é quem aparenta ser. Por trás da oficina simples e das roupas escuras existe um homem milionário, brilhante e cheio de segredos. E enquanto Isadora tenta usá-lo para atingir o ex, Daniel parece decidido a brincar com seu orgulho, sua sanidade e seu corpo da forma mais perigosa possível. O acordo entre eles deveria durar apenas um fim de semana. Mas no resort cercado de luxo, olhares invejosos e noites quentes demais para serem ignoradas, a mentira começa a sair do controle. Porque Daniel Montenegro não age como um homem contratado. Ele age como um predador. E quanto mais Isadora tenta fugir, mais percebe que talvez seja tarde demais para escapar do lobo que ela mesma colocou dentro da sua vida.
Ler maisDaniel Atlas Montenegro
O som do metal contra o metal é a única coisa que consegue calar os meus pensamentos.
Estou debaixo de um Mustang 68, o óleo quente pingando perigosamente perto do meu rosto, mas não me movo. Gosto desse perigo. Gosto da honestidade de um motor quebrado. Ele não mente, não manipula ações na bolsa e não tenta esconder falhas de fabricação para proteger o lucro trimestral. Se ele falha, é porque algo está gasto, cansado ou maltratado. E eu sei exatamente como consertar. Diferente da minha vida anterior. Às vezes, o cheiro da graxa não é suficiente para apagar o cheiro de carpete caro e café importado da Atlas Tech. Três anos. Três anos desde que joguei o crachá de vice-presidente na mesa do meu pai e saí de lá sem olhar para trás. Ele achou que eu voltaria rastejando em uma semana. Ele não entende que o que me move não é o saldo bancário, mas a capacidade de dormir à noite sem o peso de saber que pessoas poderiam morrer porque economizamos em uma liga de alumínio de segunda categoria. Eu apontei a falha. Estava lá, nos meus cálculos de fadiga: os braços de suspensão do novo modelo Atlas S não aguentariam a pressão em curvas de alta velocidade. Eles iam rachar. Iam colapsar. E o meu pai? Ele apenas sorriu, chamou aquilo de 'margem de erro aceitável' e assinou a produção em massa para garantir o bônus dos acionistas. Naquele dia, eu entendi que a Atlas Tech fabricava caixões de luxo sobre rodas. E eu não seria o engenheiro que assinaria o atestado de óbito de ninguém. — Chefe? — A voz do Juninho me tira do transe. Saio debaixo do carro, a prancha deslizando pelo chão de cimento frio. Limpo as mãos em um pano que já viu dias melhores, sentindo a aspereza da pele calejada. É uma sensação boa. Real. — Fala, Juninho. — O telhado, cara. A chuva de granizo de ontem acabou de vez com a calha do fundo. Está vazando em cima da bancada de eletrônica. Se a gente não arrumar isso logo, o próximo temporal vai fritar o scanner novo. Olho para cima, para as telhas de amianto manchadas pelo tempo. Eu poderia assinar um cheque agora mesmo e trocar o telhado inteiro da oficina, colocar isolamento térmico e até um mezanino de luxo. Mas não posso. O dinheiro da Montenegro Tech está trancado em um fundo que jurei nunca tocar. O que sustenta este lugar é o que entra de serviço. E o mês passado foi apertado. — Vou ver isso — respondo, a voz curta. — Coloca um balde lá por enquanto. Vou dar um jeito. — O orçamento que o cara passou é salgado, Daniel. Quase dez mil com a mão de obra. A gente não tem isso sobrando. — Eu sei, Juninho. Eu disse que vou ver isso. Volta pro serviço. Ele se afasta, resmungando algo sobre "trabalhar em um submarino". Suspiro e encosto na pilastra descascada. O orgulho é uma coisa engraçada. Ele te mantém de pé, mas às vezes te deixa na chuva. Literalmente. Eu escolhi isso. Escolhi a oficina suja, o rádio velho tocando rock nacional e a liberdade de dizer "não" para quem eu quiser. Mas, às vezes, o peso de ser o "Atlas" — o cara que carrega o mundo nas costas — cansa. Eu só queria um desafio que não envolvesse contas de luz atrasadas ou telhados furados. Algo que me fizesse sentir vivo de novo, além do ronco de um motor V8. Estou meditando nisso quando ouço o som de um motor fino se aproximando. Um Jaguar. Novo. O tipo de carro que não pertence a este CEP. O ronco é suave, uma sinfonia de engenharia alemã que corta o silêncio pesado da Zona Norte. Eu conheço esse som. É o som do dinheiro que eu deixei para trás. O portão enferrujado range, um protesto metálico que ecoa por todo o galpão. E então, o som de saltos altos batendo no cimento. É um ritmo seco, decidido, como um metrônomo anunciando o caos. Eu não preciso olhar para saber que o meu dia — e talvez a minha vida pacata — acabou de mudar de marcha. Levanto o rosto devagar, a chave inglesa ainda pesando na minha mão direita, e o que eu vejo me faz esquecer, por um segundo, como se respira. Ela entra na oficina como se estivesse desfilando em uma passarela de Paris, ignorando completamente a sujeira e o óleo que mancham o chão. É uma visão absurda. Uma mulher linda, de uma beleza que dói nos olhos de tão deslocada naquele ambiente bruto. Seus cabelos são de um dourado intenso, como fios de ouro capturando a luz fraca que entra pelas telhas quebradas. Eles caem em ondas perfeitas sobre os ombros de um trench coat cinza que custa mais do que todos os carros da minha oficina juntos. Mas são os olhos que me prendem. Verdes. Um verde profundo, como esmeraldas brutas, que me encaram com uma mistura de arrogância e curiosidade. Ela é impecável. A pele é clara, sem uma única mancha, os lábios pintados de um vermelho discreto, mas que grita "perigo". Ela exala um perfume caro, algo que mistura flores raras e poder, um contraste violento com o cheiro de graxa e suor que impregna a minha pele. Por um segundo, eu quase sinto pena dela. Ela não tem ideia de que entrou no covil de um homem que não tem nada a perder, mas que tem todo o tempo do mundo para se divertir com a arrogância dela. Ela parece uma boneca de porcelana em um depósito de ferro-velho. — Você está perdida? — pergunto, deixando a voz sair mais rouca do que o normal, sentindo o peso do meu próprio corpo contra a pilastra. — Errou o endereço ou tá procurando elenco para comercial de pneu?IsadoraNão sei exatamente em que momento paramos de caminhar. Só sei que, quando percebo, já estamos no jardim lateral do hotel.O som da festa fica distante atrás das paredes de vidro. Aqui fora há apenas o murmúrio suave da água da fonte, o perfume doce das flores noturnas e o vento leve brincando com a barra do meu vestido.Daniel ainda segura minha mão.Os dedos dele entrelaçados nos meus com uma naturalidade que faz meu coração bater mais rápido.Ele para.Vira-se para mim.Por um segundo, ficamos apenas nos olhando.E tudo volta.A curiosidade.As perguntas.Bernardo Atlas.O olhar estranho de Daniel quando o nome foi mencionado.Eu abro a boca.— Daniel, eu ainda....Mas não termino a frase.Porque ele se aproxima.A mão dele sobe lentamente até o meu rosto, os dedos quentes deslizando pela minha bochecha, parando na curva do meu queixo.Os olhos dele percorrem meu rosto como se estivessem memorizando cada detalhe.— Você pensa demais — ele murmura.— E você responde de menos.
IsadoraA festa continua.Música elegante, taças tilintando, risadas educadas. Tudo perfeitamente ensaiado, como um teatro onde ninguém esquece o próprio papel.Mas eu não estou prestando atenção em nada disso.Meus olhos continuam voltando para o mesmo lugar.O corredor por onde Daniel desapareceu.Eu tento conversar com Letícia. Tento rir de alguma história do noivo dela. Tento fingir que estou presente.Mas não estou.Algo naquela troca entre ele e Bernardo Atlas ficou preso na minha cabeça como uma farpa.Daniel não é um homem que intimida facilmente.Mas ele também não é um homem que discute com bilionários em casamentos luxuosos.Então por que aquilo aconteceu?Estou prestes a inventar uma desculpa para ir procurá-lo quando o vejo.Daniel atravessa o salão novamente.O terno azul-marinho reaparece entre os convidados como se sempre tivesse pertencido ali. As pessoas se afastam instintivamente quando ele passa, abrindo espaço sem perceber que estão fazendo isso.Há algo nele.Uma
DanielEntro no elevador e aperto o botão da cobertura.O espelho diante de mim revela um homem que eu não via há três anos.O Atlas do passado.Não é o corte impecável do terno que me incomoda. Nem a precisão quase cirúrgica do nó da gravata.É o que ele representa.O reflexo grita pertencimento a um mundo que eu tentei enterrar com as próprias mãos.Um mundo que eu tentei matar.E, ainda assim, ele continua olhando para mim do outro lado do espelho.Quando as portas se abrem, caminho pelo corredor silencioso e acarpetado da cobertura. O silêncio aqui é diferente — pesado, caro, quase ofensivo.Paro diante da porta 1202.Não bato.Apenas espero.Alguns segundos depois, a porta se abre.Meu pai está parado ali.Bernardo Atlas.Sem o paletó, a camisa branca de mil dólares aberta no pescoço, um copo de uísque na mão. Os olhos dele me analisam com a calma fria de um predador que acabou de encontrar algo que não esperava caçar.— Você demorou.A arrogância na voz dele continua intacta. O
Ele me oferece uma taça de champanhe. Aceito, e o líquido borbulhante desliza pela minha garganta com um leve ardor.— Você está pensativa, princesa — diz ele suavemente. — Algo te incomoda?Hesito.Devo perguntar? Confrontá-lo? Exigir respostas?Ou devo esperar… observar… dar a ele o benefício da dúvida?A razão me aconselha cautela.Mas meu coração, impaciente e inquieto, quer respostas.— Apenas a grandiosidade de tudo isso — minto, fazendo um gesto amplo em direção ao salão iluminado. — É um mundo tão diferente do seu, não é? Do seu mundo na oficina.Ele sorri. Mas o sorriso não chega aos olhos.— Sim, é. Mas eu me adapto. Sempre me adaptei.Ele inclina levemente a cabeça.— E você, princesa? Você se adapta ao meu mundo?A pergunta me pega desprevenida.Ele está me testando?Ou está apenas curioso?Penso na oficina. No cheiro de óleo e metal quente. Na simplicidade da vida que ele me mostrou.É um contraste brutal com o luxo que me cerca agora.E, pela primeira vez, eu realmente m










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