Mundo de ficçãoIniciar sessãoMinha voz arrasta as sílabas, carregada de um deboche que eu sei que ela não está acostumada a ouvir. Eu a observo de cima a baixo, sem pressa, deixando claro que, aqui dentro, o status dela não vale o óleo que eu limpo das mãos.
Ela não recua. Pelo contrário, ergue o queixo, e o brilho naqueles olhos verdes me diz que ela aceitou o desafio. Algo me diz que aquela mulher nunca pisou em uma oficina na vida. O jeito como ela olha para as ferramentas, como se fossem artefatos de uma civilização primitiva, me faz sorrir por dentro. Ótimo. Eu estava precisando de entretenimento. E essa loira de olhos verdes parece ser o tipo de problema que eu adoraria desmontar, peça por peça, até descobrir o que realmente faz o coração dela bater. — Eu não estou perdida — ela responde, a voz firme, mas com uma nota de surpresa por ser recebida com tanta insolência. — Estou exatamente onde me disseram que encontraria o melhor. Ou o que sobrou dele. Eu solto uma risada curta, seca. Ela tem garras. Gosto disso. — O melhor custa caro, princesa. E eu não aceito cartão de crédito de papai. Ela dá um passo à frente, e o som do salto no cimento soa como um desafio final. O jogo começou. E eu, Daniel Montenegro, engenheiro de Harvard e mecânico por escolha, estou pronto para ver até onde essa herdeira aguenta o calor do motor. Minutos antes Isadora Alves Villela.A chuva cai fina, quase elegante, como se pedisse licença para tocar o teto de vidro do meu Jaguar XF preto. Eu dirijo devagar, sentindo cada irregularidade do asfalto da zona industrial decadente. Este definitivamente não é o meu mundo. Aqui, o concreto é rachado, os prédios semiabandonados parecem engolir a pouca luz do fim de tarde e a sinalização é uma piada de mau gosto.
Mas não é o cenário que mais me agride. É o cheiro. Assim que estaciono e abro a porta, sou atingida por um bafo quente que emana das entranhas daquela rua. É uma mistura brutal de óleo queimado, fumaça de diesel, borracha velha e o aroma salgado e inconfundível de suor masculino acumulado. Há uma agressividade primitiva nesse ar, uma crueza que ataca minhas narinas e faz meu estômago dar um nó. Sinto-me como se estivesse invadindo um território proibido, um covil onde as regras de etiqueta, os jantares formais e o sobrenome Villela não valem absolutamente nada. Suspiro, desligo o motor e encaro o portão enferrujado à minha frente. Montenegro Restaurações. O nome é sussurrado em círculos de luxo como se fosse um mito urbano. Dizem que, se você quiser que uma relíquia volte a respirar, só existe um homem capaz de realizar o milagre: Daniel Montenegro. O mecânico da Elite Motors foi categórico: "Se o Silver Shadow 1976 da sua avó não funcionar nas mãos dele, Isadora, pode mandar para o ferro-velho". Dou uma risada mentalmente, um som seco e carregado de ceticismo. Daniel Montenegro. Nome de semideus, profissão de mecânico. É uma combinação improvável. Mas, depois de três oficinas de luxo — lugares com chão de mármore e café expresso importado — me derem as costas dizendo que o carro era um "caso perdido", o desespero me empurrou para este buraco na Zona Norte. Ajusto o meu Trench Coat cinza sobre os ombros, verifico se meu cabelo loiro ainda está impecável e empurro o portão. O metal range, um protesto estridente que anuncia minha entrada. Meus saltos altos batem secos no chão de cimento bruto, produzindo um som que soa como um escândalo naquele silêncio operário. É um metrônomo de luxo em um depósito de ferro. Imediatamente, sinto os olhares. Homens uniformizados, com as mãos negras de graxa, lançam olhares rápidos e dissimulados na minha direção. Nenhum deles se move. Nenhum deles vem me perguntar se preciso de ajuda. No canto, um rádio velho chia uma melodia de rock nacional que eu não reconheço, mas que parece combinar perfeitamente com a poeira que dança no ar. E então, eu o vejo. Não preciso perguntar quem é. É impossível não saber. Daniel Montenegro está curvado sobre o capô de um Mustang azul-marinho, as mãos grandes e engraxadas segurando uma chave inglesa como se fosse uma extensão do próprio corpo. Ele não usa terno, não usa crachá. Veste apenas uma calça jeans escura, gasta nos joelhos, e uma regata preta suada que gruda no torso largo como uma segunda pele, revelando cada músculo em movimento. Braços tatuados, ombros que parecem largos o suficiente para carregar o peso do mundo e uma postura que exala uma confiança quase ofensiva. Ele é imenso, uma força da natureza contida entre paredes descascadas. Mas não é o corpo dele que me paralisa por um segundo. É o modo como ele me olha. Assim que levanta o rosto e percebe minha presença, os olhos dele cravam nos meus com um peso que me faz vacilar. São grandes olhos cinzentos. Frios. Intensos. Como aço sob um céu nublado, capazes de cortar a névoa e enxergar exatamente o que eu estou tentando esconder. Não há surpresa no olhar dele. Não há simpatia. Há apenas avaliação. Como se eu fosse um quadro torto em uma parede perfeitamente alinhada que ele está decidindo se vale a pena endireitar. — Você está perdida? — A voz dele vem rouca, profunda, arrastando as sílabas como se a preguiça fosse um charme ou uma ameaça velada. — Errou o endereço ou tá procurando elenco para comercial de pneu? Sinto o sangue subir para as minhas bochechas, mas mantenho o queixo erguido. O deboche dele é ácido, direto, e atinge meu orgulho como um soco. — Não. Estou exatamente onde me disseram que encontraria o melhor — respondo, forçando uma calma que não sinto.






