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PERIGOSAMENTE SEDUTOR
PERIGOSAMENTE SEDUTOR
Por: Sandra Rummer
Daniel Atlas Montenegro

Daniel Atlas Montenegro 

O som do metal contra o metal é a única coisa que consegue calar os meus pensamentos.

Estou debaixo de um Mustang 68, o óleo quente pingando perigosamente perto do meu rosto, mas não me movo. Gosto desse perigo. Gosto da honestidade de um motor quebrado. Ele não mente, não manipula ações na bolsa e não tenta esconder falhas de fabricação para proteger o lucro trimestral. Se ele falha, é porque algo está gasto, cansado ou maltratado. E eu sei exatamente como consertar.

Diferente da minha vida anterior.

Às vezes, o cheiro da graxa não é suficiente para apagar o cheiro de carpete caro e café importado da Atlas Tech. Três anos. Três anos desde que joguei o crachá de vice-presidente na mesa do meu pai e saí de lá sem olhar para trás. Ele achou que eu voltaria rastejando em uma semana. Ele não entende que o que me move não é o saldo bancário, mas a capacidade de dormir à noite sem o peso de saber que pessoas poderiam morrer porque economizamos em uma liga de alumínio de segunda categoria.

Eu apontei a falha. Estava lá, nos meus cálculos de fadiga: os braços de suspensão do novo modelo Atlas S não aguentariam a pressão em curvas de alta velocidade. Eles iam rachar. Iam colapsar. 

E o meu pai? Ele apenas sorriu, chamou aquilo de 'margem de erro aceitável' e assinou a produção em massa para garantir o bônus dos acionistas. 

Naquele dia, eu entendi que a Atlas Tech fabricava caixões de luxo sobre rodas. E eu não seria o engenheiro que assinaria o atestado de óbito de ninguém.

— Chefe? — A voz do Juninho me tira do transe.

Saio debaixo do carro, a prancha deslizando pelo chão de cimento frio. Limpo as mãos em um pano que já viu dias melhores, sentindo a aspereza da pele calejada. É uma sensação boa. Real.

— Fala, Juninho.

— O telhado, cara. A chuva de granizo de ontem acabou de vez com a calha do fundo. Está vazando em cima da bancada de eletrônica. Se a gente não arrumar isso logo, o próximo temporal vai fritar o scanner novo.

Olho para cima, para as telhas de amianto manchadas pelo tempo. Eu poderia assinar um cheque agora mesmo e trocar o telhado inteiro da oficina, colocar isolamento térmico e até um mezanino de luxo. Mas não posso. O dinheiro da Montenegro Tech está trancado em um fundo que jurei nunca tocar. O que sustenta este lugar é o que entra de serviço. E o mês passado foi apertado.

— Vou ver isso — respondo, a voz curta. — Coloca um balde lá por enquanto. Vou dar um jeito.

— O orçamento que o cara passou é salgado, Daniel. Quase dez mil com a mão de obra. A gente não tem isso sobrando.

— Eu sei, Juninho. Eu disse que vou ver isso. Volta pro serviço.

Ele se afasta, resmungando algo sobre "trabalhar em um submarino". Suspiro e encosto na pilastra descascada. O orgulho é uma coisa engraçada. Ele te mantém de pé, mas às vezes te deixa na chuva. Literalmente.

Eu escolhi isso. Escolhi a oficina suja, o rádio velho tocando rock nacional e a liberdade de dizer "não" para quem eu quiser. Mas, às vezes, o peso de ser o "Atlas" — o cara que carrega o mundo nas costas — cansa. Eu só queria um desafio que não envolvesse contas de luz atrasadas ou telhados furados. Algo que me fizesse sentir vivo de novo, além do ronco de um motor V8.

Estou meditando nisso quando ouço o som de um motor fino se aproximando. Um Jaguar. Novo. O tipo de carro que não pertence a este CEP. O ronco é suave, uma sinfonia de engenharia alemã que corta o silêncio pesado da Zona Norte. Eu conheço esse som. É o som do dinheiro que eu deixei para trás.

O portão enferrujado range, um protesto metálico que ecoa por todo o galpão. E então, o som de saltos altos batendo no cimento. É um ritmo seco, decidido, como um metrônomo anunciando o caos.

Eu não preciso olhar para saber que o meu dia — e talvez a minha vida pacata — acabou de mudar de marcha.

Levanto o rosto devagar, a chave inglesa ainda pesando na minha mão direita, e o que eu vejo me faz esquecer, por um segundo, como se respira.

Ela entra na oficina como se estivesse desfilando em uma passarela de Paris, ignorando completamente a sujeira e o óleo que mancham o chão. É uma visão absurda. Uma mulher linda, de uma beleza que dói nos olhos de tão deslocada naquele ambiente bruto.

Seus cabelos são de um dourado intenso, como fios de ouro capturando a luz fraca que entra pelas telhas quebradas. Eles caem em ondas perfeitas sobre os ombros de um trench coat cinza que custa mais do que todos os carros da minha oficina juntos. Mas são os olhos que me prendem. Verdes. Um verde profundo, como esmeraldas brutas, que me encaram com uma mistura de arrogância e curiosidade.

Ela é impecável. A pele é clara, sem uma única mancha, os lábios pintados de um vermelho discreto, mas que grita "perigo". Ela exala um perfume caro, algo que mistura flores raras e poder, um contraste violento com o cheiro de graxa e suor que impregna a minha pele.

Por um segundo, eu quase sinto pena dela. Ela não tem ideia de que entrou no covil de um homem que não tem nada a perder, mas que tem todo o tempo do mundo para se divertir com a arrogância dela. Ela parece uma boneca de porcelana em um depósito de ferro-velho.

— Você está perdida? — pergunto, deixando a voz sair mais rouca do que o normal, sentindo o peso do meu próprio corpo contra a pilastra. — Errou o endereço ou tá procurando elenco para comercial de pneu?

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