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Vai aceitar o serviço ou vai continuar com o show de sarcasmo?

— Então, diga. — Ele cruza os braços, os bíceps saltando sob a regata preta. — O que uma mulher como você quer num lugar como esse?

 Mordo o lábio inferior, sentindo o peso das palavras dele. Ele diz "mulher como você" com o desprezo típico de quem já foi esnobado por gente com o meu sobrenome. 

Sim, eu sou esse tipo de mulher. A herdeira da Villela Motors, a mulher que frequenta os melhores restaurantes e que, há duas semanas, recebeu um convite de casamento que pareceu um soco no estômago. O convite da minha amiga para seu casamento sabendo que Ricardo também foi convidado. O homem que disse que me amava até decidir que eu era "demais" e que preferia se apaixonar por alguém "mais quente".

Respiro fundo, buscando o controle que meu pai sempre exigiu de mim, e deslizo os dedos por dentro da minha bolsa Hermès.

— Tenho um carro que precisa de você. Meu avô me deu a missão de encontrar alguém competente para arrumar o carro. — Digo, estendendo a foto do Rolls-Royce prateado. — Ninguém consegue fazê-lo funcionar direito. Só me restou você. E um mecânico da Elite Motors me indicou sua oficina. Disse que você resolveria o problema.

Ele pega a foto, mas seus olhos não ficam no carro por mais de dois segundos. Eles voltam para mim, descendo lentamente até a minha boca antes de subirem de novo para os meus olhos. Ele sorri de canto. É o sorriso de um predador que acabou de encontrar uma presa interessante.

— Qual é o problema do carro?

— Ele esquenta muito. Já trocamos várias peças, mas o problema persiste. É como se ele estivesse... sufocado.

— E por que acha que eu vou querer esse trabalho? — Ele devolve a foto, seus dedos engraxados deixando uma pequena marca no papel caro.

— Porque paga bem-digo, firme, tentando usar a única linguagem que achei que ele entenderia. — Esse carro é da minha família e restaurá-lo é uma questão de honra para o meu avô. Embora nosso ramo seja o comércio de vários carros na Villela Motors, meu avô tem apego sentimental a esse. Ele o comprou zero na época e ficou conosco até hoje.

Abro a bolsa novamente e entrego meu cartão de visita. Ele o pega com dois dedos, gira o papel devagar, lendo o nome em silêncio. Vejo seu maxilar endurecer por um instante.

— Villela Motors? — Ele arqueia uma sobrancelha, o sorriso cínico se alargando. — Então você é a Isadora Alves Villela. A princesa dos superesportivos.

— A própria.

Ele gira o cartão entre os dedos, como se fosse uma peça de xadrez prestes a ser descartada. Ou guardada como um troféu.

— Agora faz sentido. O carro. A pose. O salto batendo no chão como se fosse dona da calçada. Você não quer um mecânico, Isadora. Você quer um milagre para manter o status da sua garagem.

— E você? Vai aceitar o serviço ou vai continuar com o show de sarcasmo?

— Manda alguém trazer o carro que eu darei uma olhada — ele diz, dando de ombros com uma indiferença que me irrita profundamente. — Se eu topar, ligo em três dias. Se não ligar... bem, você sabe a resposta.

— Três dias? É isso? Eu tenho pressa, senhor Montenegro.

— É o que tem para hoje, princesa. Minha agenda não se ajusta ao seu relógio de ouro.

Viro-me para sair, sentindo uma mistura explosiva de ofensa e uma excitação estranha, quase proibida. Nenhum homem jamais falou comigo desse jeito. Nenhum homem se impôs com tanta força, sem precisar de um terno ou de um cargo de diretoria.

— Você sempre trata clientes assim? — pergunto, já com a mão no portão enferrujado.

— Só os que chegam cheirando a Chanel e medo.

Parei. O insulto me atingiu em cheio. Virei-me devagar, forçando um sorriso frio e cortante, o tipo de expressão que eu uso para encerrar reuniões com executivos incompetentes.

— Eu não tenho medo de você.

Ele não responde com palavras. Ele se aproxima. Um passo. Dois. Três. Quatro e o espaço entre nós desaparece. Agora ele está a menos de um palmo do meu rosto. O cheiro dele me inunda: uma mistura inebriante de suor, graxa e algo amadeirado, quente. Não é perfume. É pele. É homem. Ele abaixa um pouco o rosto, quase encostando na minha bochecha. Sinto o hálito dele roçar meu pescoço, enviando um arrepio violento por toda a minha espinha.

— Então me prove — ele sussurra, a voz tão baixa que parece uma carícia perigosa. — Traga você mesma o carro para mim amanhã. Sem motoristas. Sem intermediários. Só você e o seu problema prateado.

Será que ele me negou o serviço, só para me fazer trazer o carro para ele?

Meu coração dispara, batendo contra as costelas como um animal enjaulado. Meu corpo inteiro vibra sob o olhar dele. Quando me afasto, minhas pernas pesam, como se tivessem esquecido como se anda sobre saltos de dez centímetros. Mas mantenho o rosto impassível, a máscara de herdeira Villela firmemente no lugar.

— Eu trago.

Saio da oficina ouvindo o som de risos abafados dos outros mecânicos, mas o único som que realmente importa é o do meu próprio sangue latejando nas têmporas. Entro no Jaguar, minhas mãos tremendo levemente ao segurar o volante.

Daniel.

O nome ecoa na minha mente como um motor que acaba de ser ligado. Eu vim buscar um mecânico, mas sinto que acabei de encontrar o meu maior problema. E, pela primeira vez em muito tempo, eu mal posso esperar pelo amanhã.

 

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