Mundo de ficçãoIniciar sessãoDaniel
Ainda com as mãos manchadas de graxa, ouço o portão enferrujado se fechar atrás dela. O clique da fechadura se perde no silêncio súbito da oficina — até o rádio parece murchar, como se o tempo hesitasse por um instante.
Ninguém diz palavra, mas sinto os olhares fixos em mim. Pego a foto do Rolls entre dois dedos. O papel é grosso, o cheiro inconfundível: perfume francês e dinheiro antigo. Isadora Alves Villela. Só esse nome pesa mais que metade das peças enferrujadas empilhadas no estoque. Solto uma risada seca, sem humor. Era mesmo uma Villela. Filhinha de papai, dona de um império que vende carros que eu poderia desmontar e montar de olhos fechados, mas que nunca me interessaram pelo status. Não suporto esse tipo de gente. Gente que acha que o mundo é um showroom climatizado. Mulher assim é veneno. Incêndio em terreno seco. Desastre com letra cursiva e assinatura dourada. E ainda teve a ousadia de me olhar como se pudesse comprar minha alma com um cheque em branco. Enfio a foto no bolso de trás da calça. Você é um idiota mesmo. Porque o problema é que uma parte de mim quer ser comprada. Quer aquela boca roçando no meu pescoço, sussurrando um “por favor” rouco. Mas a outra parte — a que sobreviveu à podridão da Atlas Tech — conhece muito bem esse tipo de mulher. Fúteis. Adoram uma plástica. Só pensam em viajar e gastar. O barulho dos pneus dela sumindo na rua mal esfriou quando o peso dos olhares me prensou pelas costas. — E aí? — Rodrigo quebra o silêncio, largando a chave de roda com um estalo. — Vai negar que sentiu o cheiro de Chanel daqui até a outra esquina? — Chanel? — Caíque ri. — Isso aí era dinheiro vivo. Se encostar nela, pode parcelar em doze vezes só o beijo. Finjo concentração, limpando a mão no pano, mas o maxilar já trava. — Ela vai trazer um Rolls. Está esquentando e ninguém acha o problema. — Porra — Caíque balança a cabeça. — Projeto para dois meses, fácil. — E muitas dores de cabeça. Devem ter mexido naquele carro com peça similar. Esse tipo de carro precisa de peças originais — complemento. Juninho me lança aquele olhar que já conheço. — Mas vai pegar, né? — Se ela voltar. E se eu tiver paciência para o chilique de dondoca. — Chilique? — Rodrigo corrige, sorrindo. — Aquilo ali tem pose de quem manda derrubar prédio com um e-mail. Sorrio de lado. Verdade. E, ainda assim, ela mexeu comigo. O jeito como olhou para a oficina… como se tivesse visto uma relíquia empoeirada e acreditado que podia transformar em ouro. Mulher assim não transforma. Ela entra, escolhe o que quer e vai embora antes do café. — Não me meto com mulher assim — digo, firme. — E está certo. Mulher como aquela não olharia com interesse para um de nós — provoca Juninho. Encaro ele, direto. — Isso é um fato. Eles dão de ombros e voltam a trabalhar. Mal sabem eles que eu larguei um império bilionário para viver entre motores velhos e honestidade bruta. Carro eu sei consertar. Coração? Esse aprendi a deixar do jeito que está: torto, duro e funcionando como pode. Mas aquela Isadora... ela não parece o tipo de problema que se resolve com uma chave de fenda. Ela parece o tipo de problema que explode na sua cara. E, por um segundo, eu quase quis ver o fogo. Juninho surge ao meu lado. — Então… — ele limpa as mãos num pano ainda mais sujo que o meu. — A princesa voltou para o castelo? Ignoro. Pego uma chave de boca da bancada e começo a girá-la lentamente entre os dedos, o metal frio deslizando na pele marcada de graxa. Faço isso como se estivesse analisando o Mustang aberto na minha frente, como se minha atenção estivesse totalmente voltada para o motor desmontado, para as mangueiras expostas e para o cheiro pesado de óleo queimado que domina a oficina. Não estou. Estou pensando na curva do pescoço dela. Droga. A imagem aparece na minha cabeça com uma nitidez irritante — a forma delicada da pele clara encontrando o colarinho do blazer caro, o jeito como ela inclinou a cabeça quando me encarou, como se estivesse avaliando alguma coisa rara… ou suspeita. — Aquilo ali — Caíque assobia baixo, cruzando os braços enquanto encara o portão da oficina — não é cliente. Aquilo é problema. — Problema caro — Rodrigo completa, apoiando o cotovelo na bancada cheia de ferramentas. — Jaguar zero na porta, salto que deve custar o salário de três meses e aquele cartão que parecia ter sido impresso com tinta de banco central. Juninho ainda segura o cartão preto entre os dedos, como se fosse uma relíquia. — Villela Motors — ele repete, impressionado. — Esses caras vendem carros que parecem nave espacial. — Nave que quebra igual — resmungo, sem levantar os olhos. Eles riem. O som ecoa pela oficina, misturando-se com o barulho distante de carros passando na rua molhada e com o ventilador velho que gira preguiçosamente no teto. Mas a verdade é que, por trás da minha aparente indiferença, meu cérebro já está desmontando mentalmente o problema do Rolls-Royce. Motor antigo. Sistema de arrefecimento temperamental. Um defeito persistente mesmo depois de troca de peças. Isso não é azar. Isso cheira a erro de diagnóstico. Ou a alguém que não teve paciência suficiente para olhar direito. E eu tenho. O que eu não tenho é paciência para herdeira mimada. — Você viu o jeito que ela te encarou? — Rodrigo comenta, ainda sorrindo. — Parecia que estava avaliando um cavalo antes de comprar. — Eu não estou à venda. — Não? — Caíque levanta uma sobrancelha, divertido. — Porque se aquela mulher oferecer metade da fortuna dela eu viro até mordomo. — Você viraria mordomo por um pastel e uma coca. — Verdade.






