Mundo ficciónIniciar sesiónFugir de um casamento arranjado parecia o final feliz. Spoiler: não era. Seis anos depois de deixar a Turquia para trás, levo comigo a culinária, a criação rígida… e um pai que ainda acha que manda na minha vida. Voltar ao meu país para estudar em um restaurante renomado parecia seguro. Discreta. Controlada. Ingenuidade minha. Demir está vendo seu restaurante afundar graças à sua fama nada exemplar, e as famílias tradicionais já não querem nem cruzar a rua por ele. A solução? Um casamento de fachada. A vítima escolhida? Eu. A “brasileira”. O pequeno detalhe que ninguém combinou foi: eu não sou tão brasileira assim. E se meu pai descobrir que estou casando, o caos vem servido quente. Aceitar esse acordo pode ser minha liberdade definitiva… ou minha ruína completa. Porque meu falso noivo decidiu fazer um casamento digno de novela, meu pai descobriu tudo, e agora preciso fingir uma relação que nunca quis, dividir a vida com um homem que acha que sou experiente… E eu não sou.
Leer másSOBRE A CULTURA E AS LEIS NA TURQUIA
Antes de você mergulhar nesta história, quero abrir uma pequena porta para o mundo que a inspira. A Turquia é um país fascinante, onde a tradição conversa com a modernidade todos os dias. É também um lugar onde cultura, fé e costumes moldam profundamente a forma como homens e mulheres se relacionam — dentro e fora do casamento. Embora seja um país de maioria muçulmana, a Turquia é oficialmente laica. Porém, muitos costumes sociais seguem valores tradicionais: Demonstrações públicas de afeto costumam ser discretas, principalmente entre casais recém-formados. O respeito ao espaço feminino é uma regra cultural forte; em muitos ambientes, o contato físico entre homens e mulheres é reduzido ou bastante cuidadoso. A privacidade do casal é vista como algo precioso e protegido, e cenas de intimidade são raramente discutidas abertamente. Em muitas famílias tradicionais, o casamento ainda é algo muito sério, com responsabilidades claras e expectativas fortes para ambos os lados. Nada disso é imposto pela polícia ou pela lei — mas sim pelo peso cultural, religioso e social que acompanha a vida de muitas famílias turcas, especialmente as mais antigas ou influentes. Por isso, embora este livro seja apaixonado, intenso e cheio de tensão romântica, você não encontrará cenas gráficas ou explícitas. Não por falta de amor ou química entre os personagens (isso sobra!), mas por respeito ao contexto cultural que envolve a história — e também porque nem sempre o que é mais quente está no que é mostrado, e sim no que é sentido. Aqui, o amor é profundo, respeitoso, cheio de emoção… e absolutamente impossível de ser reduzido a uma única cena. Agora sim: respire fundo, pegue sua mala imaginária e venha comigo para um pedaço da Turquia que só a ficção pode revelar. — RR Floriano ISABELLA SILVA KARAMAN (Bel Silva) 1,60m Loira Olhos azuis Aparência delicada, mas temperamento forte Cozinheira talentosa, criativa, explosiva como o pai e doce como a mãe. Carrega um passado de opressão e um segredo gigantesco: é turca de nascimento, mas vive sob o nome brasileiro. Determinada, orgulhosa e movida pela necessidade de se provar. DEMIR OSMAN Moreno Alto Cabelos longos Olhos negros intensos Chef famoso, mulherengo, mandão e acostumado a ter controle. Mas por trás da pose existe alguém marcado pela responsabilidade, pela pressão da sociedade e pela solidão. Bel chega para bagunçar exatamente o que ele sempre acreditou controlar. SAMIRA SILVA KARAMAN Mãe de Bel. Suave, inteligente, prática. É quem rompe o ciclo ao sair da Turquia com a filha. Pede o divórcio, mas se recusa a se rotular como “ex”: para ela, Yaman continua sendo parte da história — só não manda mais na vida dela e nem da filha. É o coração sensato da família. MÁRCIA SILVA Tia brasileira de Bel. Vive no interior de Santa Catarina. Dona da fazenda que serviu como refúgio na fuga. Forte, acolhedora e com humor ácido. Ajuda Bel a reconstruir a identidade e descobrir sua paixão pela cozinha. UMUT EMIR Melhor amigo de Demir. Advogado do restaurante. Leal, brincalhão, charmoso sem esforço. É a voz da razão quando Demir está cego de orgulho… e o primeiro a perceber que Bel não é tão “inocente” quanto parece. JOAQUIM MARQUES Brasileiro curioso, aventureiro, daqueles que viajam com mochila e coragem. Vai para a Turquia buscando cultura e acaba preso no meio de um drama turco que parece novela. Traz leveza, humor e uma dose de caos. AISHA Empregada na casa de Demir. Intrometida, curiosa e convencida de que vive numa novela turca. Observa tudo, comenta tudo, aumenta tudo. São olhos e ouvidos atentos — e inevitavelmente vira peça importante na trama. YAMAN KARAMAN Pai de Isabella. Rico, poderoso, mandão e obcecado por tradição. Odeia ser contrariado — e odeia ainda mais o genro que sua filha escolheu. Tem como fraqueza o orgulho e como ponto cego a filha. AHMET Secretário particular de Yaman Karaman. Quase uma sombra, faz exatamente o que o patrão manda. Porque Yaman não pede.Sábado chegou.E eu estava ali, observando os convidados chegarem como se assistisse a uma cena que não era minha. Sorrisos ensaiados, roupas caras, perfumes caros demais. Todos pareciam saber exatamente onde ficar, o que dizer, quando sorrir.Menos eu.Eu continuava com aquela sensação incômoda de estar fora do enquadramento. Como se alguém tivesse me colocado no centro da imagem, mas esquecido de me avisar qual era o papel.Só que eu não era figurante.Não era coadjuvante.Eu era a peça principal.A mulher que serviria o café.A que selaria o próprio destino ao lado de um homem que não fazia a menor ideia de quem eu era de verdade.Ou pior — talvez fizesse, e ainda assim tivesse decidido continuar.A mesa do pedido foi montada no meio do salão, impossível de ignorar. Redonda, impecável, quase solene demais. Ali sentar-se-iam as famílias. A dele. A minha.Famílias.A palavra ecoou na minha cabeça com um gosto estranho.Eu me recusei a falar sobre a minha. Não por vergonha — mas por p
Umut chegou ao restaurante e nem precisou abrir a porta direito.As vozes escapavam de dentro como vapor sob pressão — cochichadas, tensas, carregadas daquele prazer meio sujo que só a fofoca fresca provoca. Era o tipo de som que denuncia tragédia antes mesmo do anúncio oficial.— Ela bateu tão forte com o cutelo que abriu um dente…— Eu juro, achei que o senhor Demir ia surtar.— Mas ele não falou nada. Só saiu da cozinha.Umut empurrou a porta de vez.— De que vocês estão falando?A pergunta saiu neutra demais para alguém que já sabia exatamente a resposta. Três funcionários se entreolharam como crianças pegas no flagra. Um deles pigarreou, inseguro.— Da senhorita Bell… — disse, quase em reverência, como se pronunciar aquele nome em voz alta fosse perigoso. — Ela usou as facas do chef. E… arrebentou o cutelo. Bem na frente dele.Umut levou a mão ao estômago num gesto quase teatral. Não por arrependimento — isso ele não cultivava mais havia anos —, mas porque compreendeu, naquele ex
No outro dia, cheguei decidida a fazer Demir desistir dessa loucura.O restaurante estava cheio demais para uma terça-feira comum. Jornalistas disfarçados de clientes, curiosos de plantão, aquela energia de fofoca recém-nascida flutuando no ar.O “Prato da Noiva” já tinha virado lenda urbana e eu… aparentemente, a criatura mitológica por trás dele.Perfeito.Coloquei o avental, prendi o véu na cabeça e entrei na cozinha como quem pisa num ringue. Joaquim me lançou um olhar preocupado.— Bell… vai dar tudo certo?— Vai dar espetáculo. — Respondi, doce.A presença de Demir fechou a porta da cozinha segundos depois.Postura ereta, olhar atento, aquele ar de dono do tabuleiro.— Bell. — Ele disse. — Mesa sete pediu café turco. Forte. Sem açúcar.Sorri.— Mesa sete vai receber café. — confirmei.Peguei a xícara, fiz o café…E coloquei açúcar.Pouco. Mas coloquei.Joaquim arregalou os olhos. — Bell…— Confia. — Murmurei.Levei a bandeja até a mesa sete pessoalmente. O cliente agradeceu, tom
Eu estava na cozinha fingindo que nada havia acontecido.Cortando legumes. Limpando a bancada. Respirando fundo como quem tenta manter a própria sanidade em cubos bem organizados.Foi quando senti.Não ouvi passos.Senti.Aquele silêncio diferente que só aparece quando alguém entra decidido demais para retroceder.Demir parou a poucos passos de mim. Não cruzou os braços. Nem fez pose. E também não sorriu.Isso, por si só, já era alarmante.A cozinha ficou em silêncio, ninguém ousou se mover.— Bell. — disse, baixo.Não virei de imediato. Continuei picando, como se meu mundo ainda estivesse sob controle.— Se for para discutir, avisa antes. Assim guardo a faca.— Não vim discutir. — respondeu. — Vim te dizer que aceito.A lâmina parou.Virei devagar.Ele me encarava com algo novo no olhar. Não era orgulho. Nem irritação.Era… decisão.— Eu aceito seus termos. — disse. Um por um. — Todos.Entrelacei os braços, desconfiada.— Inclusive o pedido?Ele respirou fundo.E ali vi: o conflito.
Entrei no apartamento como quem cruza a linha de chegada de uma maratona emocional: ofegante, irritada e com o orgulho mastigado.Assim que a porta bateu, fui direto ao armário e arranquei a mala de dentro com a fúria de quem estava prestes a declarar independência.— Chega. — Resmunguei, jogando roupas na mala sem qualquer respeito por cores, lógica ou futuro. — Vou me esconder em algum lugar. Que se dane o Demir, o restaurante, o curso, a Turquia… o planeta inteiro.Parei.A imagem do meu pai veio como um soco silencioso.Ele tinha contatos demais.E a Turquia não era exatamente um lugar gentil com uma mulher sozinha tentando desaparecer.Sentei-me na cama. A força que me mantinha de pé simplesmente evaporou. A frustração veio quente, pesada, e as lágrimas apareceram antes que eu pudesse decidir ser forte.— Ótimo… maravilhoso… perfeito. — murmurei, enquanto o choro saía baixo, cansado, de quem luta contra a própria vida há tempo demais. — Presa.Enxuguei o rosto com raiva do drama.
Eu estava ajudando Joaquim a lavar as panelas, como fazia todo santo dia, quando levantei o olhar e vi Demir ainda dentro do aquário de vidro do escritório.Observando.Senti um arrepio subir pela nuca.O que será que ele estava fazendo? Me vigiando? Como um bom noivo turco faria?Engraçado. Eu ainda nem havia aceitado nada.Quando finalmente saímos, dei de cara com ele encostado perto da porta, claramente esperando. Joaquim percebeu o clima e fez o que qualquer pessoa sensata faria: sumiu.— Oi. — Demir disse, direto. — Vou te acompanhar.Meu estômago apertou.— Não precisa. Sei me virar.— Não vou deixar você andar sozinha a essa hora.— Se o senhor não tivesse assustado o Joaquim, eu não estaria sozinha.Ele apertou o maxilar. — Joaquim não vai mais te acompanhar.Parei. — Como é?— Eu não posso permitir. — disse, seco. — Depois do que saiu no jornal, não é seguro.Revirei os olhos. — Então vamos logo. Estou cansada e quero dormir.Saí andando antes que ele respondesse. Ele veio ao
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