Vou e volto logo

Eu estava sentada na mesa da cozinha de minha tia Márcia, com o cheiro de pão de milho recém-tirado do forno preenchendo o ar, quando decidi dar a notícia.

Nem precisei terminar a frase. Minha mãe largou a colher de pau como se tivesse queimado a mão.

— Filha, você sabe que lá estará sob as leis do país… e seu pai pode te obrigar a casar com quem ele quiser.

Ela disse aquilo com os olhos marejados e o sotaque catarinense quase atropelando as palavras. Minha mãe só ficava assim quando estava genuinamente preocupada ou quando eu queimava o arroz.

Respirei fundo.

— Eu sei, mãe.

Antes que ela pudesse continuar a enxurrada de advertências, tia Márcia entrou no papo como quem chega jogando uma bomba:

— A não ser que você arrume alguém para se casar com você e te dar liberdade.

“Silêncio”.

Virei para ela. Minha mãe virou-se para ela. Até o cachorro virou para ela.

Tia Márcia piscou devagar, percebeu a besteira e recuou na mesma hora, abanando a mão como quem tenta apagar o fogo com vento.

— Tá… tudo bem, foi uma ideia idiota. Finge que eu nem falei nada.

Eu ri.

Elas não.

— Eu vou. Confirmei, firme. — Com o nome brasileiro. Faço o estágio quietinha, fico na minha e volto. Ele nem vai saber que estive nos domínios dele, eu sei ser discreta.

Minha mãe apoiou as mãos na mesa e veio até mim, como se eu tivesse acabado de anunciar que ia escalar o Everest calçando chinelo.

— Filha… são seis meses. Você vai ter que esconder seu cabelo loiro. E tentar não cruzar com nenhum conhecido.

— Mãe… segurei as mãos dela e sorri, eu vou estar em uma cozinha. O chef famoso não vai me largar nem para tirar o lixo, imagina socializar.

Tia Márcia bufou, entrelaçando os braços.

— E os amigos ricos? Aquelas pestes de adaga na cintura?

— Eles não entram em uma cozinha nem por decreto.

Fiz um gesto teatral.

— Fica tranquila. Nenhum principezinho turco vai tropeçar em mim entre as panelas.

Minha mãe suspirou, vencida.

— Eu só tenho receio…

— Eu também tenho, mãe. Confessei. Mas eu não vou passar a vida fugindo. Quero isso. É meu sonho.

— É… Tia Márcia murmurou. E sonhos, minha filha, não esperam a poeira baixar para acontecer. Eles chegam e bagunçam tudo.

Ela tinha razão, mas só espero que não bagunce demais.

Naquela mesma semana, viajei para a Turquia.

A porta automática do aeroporto abriu e, por um segundo, o cheiro da Turquia antiga misturado com o caos moderno me atingiu como um soco suave no peito. Eu não imaginava que estava com tanta saudade do meu país.

Se eu fosse uma brasileira qualquer, chegando aqui pela primeira vez, teria provavelmente travado com a quantidade de olhos observadores, avaliando, medindo, julgando.

Mas eu não era “qualquer brasileira”.

Fui criada aqui.

Eu sabia exatamente como me portar.

Antes mesmo de pôr o pé no saguão, ajeitei o véu que minha mãe tinha me dado quando nos despedimos.

Suave, discreto, nada chamativo, puxei o tecido sobre meu cabelo loiro e deixei só o necessário à mostra.

Postura ereta, passos medidos, olhar calmo. Sem pressa. Sem medo e, claro, sem chamar atenção.

Passei pelo aeroporto, como se nunca tivesse ido embora.

O taxista nem piscou quando entrei no automóvel.

Meu nome no passaporte dizia “Silva”.

Minha postura dizia “nada para ver aqui”.

Cheguei ao pequeno hotel onde eu havia reservado uma vaga com antecedência, um lugar simples, mas confortável e, acima de tudo, discreto.

Entrei na recepção com a mala pequena na mão e o véu ainda cobrindo meu cabelo como se eu tivesse nascido daquele jeito.

A mulher do balcão me observou como quem avalia compatibilidade de tempero.

— You speak Turkish? (Você fala turco?), ela perguntou, inclinando a cabeça.

Meu coração deu um micro-pulo, mas meu rosto permaneceu impassível.

Balancei a cabeça e respondi em inglês, com meu sotaque mais “turista brasileira perdida no mundo”.

— No, I don’t. I’m sorry… only Portuguese and English. (Não, não falo. Me desculpe… apenas português e inglês.)

Ela pareceu relaxar um pouco, mas seus olhos continuavam atentos. Os turcos sempre percebem mais do que dizem.

Preencheu a ficha, solicitou meu passaporte e apontou para o elevador com uma gentileza séria que eu lembrava bem da minha infância.

Quando chegamos ao corredor do segundo andar, ela me entregou a chave e deu uma olhada rápida nos fios que insistiam em escapar do véu.

— You should be careful who you talk to here. (Você deve ter cuidado com quem conversa aqui.)

Depois completou, com um gesto quase materno:

— And use the veil properly. (E use o véu do jeito certo.)

Sem pedir licença, ela se aproximou, ajeitou o tecido e cobriu completamente o meu cabelo loiro.

Eu sorri, fingindo surpresa inocente.

— Thank you. I didn’t know. (Obrigada. Eu não sabia).

Claro que eu sabia.

Sabia exatamente o que significava cada centímetro de cabelo à mostra, cada gesto, cada olhar. Esse país era meu lar e minha prisão ao mesmo tempo.

Fechei a porta do quarto e respirei fundo.

Seis meses.

Estágio.

Baixo perfil.

Ninguém me reconhece.

Ninguém descobre meu sobrenome verdadeiro.

Simples, né?

É, minha amiga leitora, eu estou de volta ao meu país e tentando me manter incógnita. Só tem um problema, minha mãe costuma dizer que sou um ímã de problemas, espero que desta vez eu não cause a Terceira Guerra Mundial, não tenho minha mãe comigo para impedir que eu me lasque.

Nada vai acontecer, você não acha? Vou fazer meu curso e vou voltar para o Brasil, e isso só vai ser mais uma aventura para a minha história.

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