Chef Cinco Estrelas

O restaurante de Demir Osman não precisava de placas. Bastava seguir o cheiro de temperos, manteiga derretendo e… caos masculino.

Entrei e, antes mesmo de dar dois passos, ouvi uma voz poderosa ecoando na sala principal.

— Olha essa matéria que aquela jornalista de quinta fez, Umut! Ela destruiu minha reputação! Ele reclamava em turco.

O rapaz de sorriso fácil, cheio de paciência que eu não teria, comia börek como se fosse a coisa mais normal do mundo.

— Também, você a levou para seu apartamento e esqueceu que tinha outra lá. Respondeu em turco, como quem comenta sobre o clima.

Parei na porta e fiz o que uma turca tradicional faria: fiquei imóvel, olhando para o chão, esperando ser notada. Uma submissão forçada, antiquada e… uma idiotice, na minha humilde opinião. Mas funcionava. E eu precisava passar despercebida.

O rapaz foi o primeiro a notar minha presença. Ele limpou a boca com o guardanapo, se levantou e veio até mim.

— Bir şeye ihtiyacınız var mı? (Você deseja alguma coisa?)

Antes que eu respondesse, Demir virou o rosto e me encarou como se eu tivesse caído do teto.

O sorriso dele era debochado, calculado… e irritantemente bonito. Deus me livre, mas quem me dera.

— Bu kesin Brezilya'dan gelen ve benim tarafımdan aşağılanmak için getirilen çırak. (Essa deve ser a aprendiz do Brasil que veio para ser humilhada por mim.)

Dei meu melhor sorriso “ingênua e encantada”. Por dentro, eu já tinha jogado meia dúzia de panelas na cabeça dele.

Umut, percebendo meu silêncio e achando que eu não entendia uma única palavra em turco, ajustou imediatamente o tom.

— I don’t speak Portuguese, but I speak English. Do you understand me? (Eu não falo português, mas falo inglês. Você me entende?)

— Yes, sir. I came to intern in your kitchen. (Sim, senhor. Vim estagiar na sua cozinha.) Falei no meu melhor inglês de turista, fingindo não ter percebido que Demir era o outro ali. (E sim, eu chamei o chef errado propositalmente.)

Demir revirou os olhos com a sutileza de um rinoceronte.

— Şuna bak… Bana gönderilen eleman benim kim olduğumu bile bilmiyor. (Olha o tipo de assistente que mandam… nem sabe quem eu sou.)

Se ele soubesse como eu sabia e muito quem ele era, teria engolido a língua.

Ali, parada entre dois homens discutindo reputação, escândalos e humilhação alheia, eu senti uma coisinha estranha:

Eu ia me divertir. E muito. Ou estava entrando em um barco furado.

Demir veio caminhando até mim como quem sabe perfeitamente o estrago que causa.

Parou tão perto que senti o perfume dele: especiarias, fumaça e alguma coisa indecente que devia ser proibida por lei.

Ele ficou me encarando.

E, sim… sei exatamente o que meus olhos azuis fazem nos homens daqui. É quase injusto. Por isso, baixei o olhar como manda a cartilha das moças turcas comportadas.

Foi aí que ele abriu a boca e soltou um português arrastado que fez os pelos da minha nuca se arrepiarem.

— Sou Demir Osman… o chef de cozinha cinco estrelas. Falou com orgulho escorrendo.

Por dentro, eu pensei: “Meia estrela, no máximo. Não sei porque as mulheres ficam babando por você.”

Mas aí eu olhei. Aí… eu lembrei.

Um metro e oitenta, moreno, ombros largos, cabelo longo preso num rabo de cavalo perfeitamente desleixado… e aqueles olhos. Negros. Negros de um jeito que pareciam duas pedras de ônix polidas.

Maldito.

Foram cinco segundos de irritação pura misturada com alguma outra coisa que eu não vou admitir nem sob tortura.

Então coloquei meu melhor sorriso de fã impressionada, ridícula, dócil, “turista” e respondi no meu inglês mais básico.

— I'm sorry, Mister Dênis… I think it's the jet lag. I’m a little confused. (Me desculpe, senhor Dênis… acho que é o fuso horário. Estou um pouco confusa.)

Sim, eu o chamei de Dênis. E ver o tique nervoso na sobrancelha dele foi a melhor parte do meu dia.

Demir respirou fundo, provavelmente contando até dez em turco para não explodir.

E aí, me respondeu, agora em inglês:

— No problem. Go change your clothes, I will test you soon. (Não tem problema. Vá se vestir, eu já vou lá te testar.)

Virei e fui em direção ao vestiário, mas, claro, ainda com a audição ligada nele. A curiosidade turca é tão barulhenta quanto o temperamento.

Ouvi Umut falando em turco, num tom mais baixo:

— Çok güzel… Gözlerini gördün mü? Çok terbiyeli. Geleneklerimizi biliyor. (Ela é linda… você viu os olhos? E é bem recatada. Conhece nossos costumes.)

Demir bufou.

— Brezilyalı… Hepsi numara. Birkaç güne kadar benim yatağıma atlar bile. (É brasileira… isso tudo é pose. Em alguns dias, vai estar se jogando na minha cama.)

Parei por meio segundo na porta do vestiário.

Segurei o riso. Segurei MUITO.

Querido… se tem uma coisa que eu não faço, é pular na cama de homem, ainda mais um arrogante que se acha um semideus por saber temperar um cordeiro.

Mas pode deixar.

Vou brincar com esse seu ego como quem brinca com massa folhada: esticando, dobrando… e só depois assando até dourar.

Minha amiga leitora, acabei de conhecer o homem que vai sacudir minha vida, que deveria ser tranquila, mas procurei o problema voltando para a Turquia. Sei como os homens tratam as mulheres aqui e não vou aceitar ser humilhada por ninguém.

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