Início / Romance / O chef Turco: Entre temperos e Amores / O silêncio grita mais que palavras
O silêncio grita mais que palavras

Demir passou a manhã inteira remoendo, girando a culpa dentro da cabeça como quem mexe um caldeirão pesado. Andou pelo restaurante, subiu, desceu, respirou fundo umas vinte vezes… nada resolvia. Até que, finalmente, decidiu parar de bancar o sultão orgulhoso e criar coragem para pedir desculpas.

Respirou fundo na porta da cozinha — parecia que ia entrar para uma cirurgia — e entrou.

Bell não ergueu os olhos.

Não parou o que estava fazendo.

E pior: não mudou nem o ritmo da faca.

Aquela mulher tinha um talento sobrenatural para ignorar alguém com classe.

E não era porque não tinha o visto entrar.

Ela viu.

Viu e escolheu fingir que ele era ar.

Ar quente, irritante, turbulento.

Demir sentiu o estômago contrair. Aquilo era pior do que ser xingado.

— Bell… — ele começou, a voz meio indecisa, e detestou ouvir a própria hesitação.

Silêncio.

A cozinha estava tão quieta que dava para ouvir o molho borbulhando na panela ao fundo. E Bell ali, firme, com a expressão concentrada, nervosa, irritada… e muda.

Se ele soubesse que ela entendia turco?

Ah, se soubesse.

Ali ia ser palco de terremoto, trovão, guerra otomana, tudo junto.

Mas, como ele não sabia, Bell se limitou a dar a pior punição possível: o silêncio.

Demir respirou mais uma vez, tentando arrancar palavras do peito.

— Eu… vim… — engasgou. Senhor da cozinha, mas escravo do próprio orgulho. — Vim pedir desculpas.

Nada.

A faca de Bell continuou correndo pela tábua, tec-tec-tec-tec, como palmas de julgamento.

O pior é que ele nem fazia ideia de que, enquanto se tremia de tensão para pedir desculpas, ela havia preparado um prato com as pontas de aspargo — exatamente aquelas que ele havia berrado por causa — para servir a ele no almoço. Feito com carinho, caprichado.

Mas dependendo do que saísse daquela conversa…

Meu filho…

Ele ia sair dali com aquelas pontas de aspargos cravadas na cabeça, igual enfeite de carnaval otomano.

Demir engoliu seco.

Bell finalmente fez um movimento: colocou as facas de lado, respirou fundo e virou de costas para ele, começando a montar o prato.

Para ele.

Ele sentiu o coração dar um solavanco tão forte que quase atingiu o teto.

Agora era tudo ou nada.

— Bell… — ele tentou outra vez, mais firme desta vez. — Eu realmente me excedi. Não deveria ter falado com você daquele jeito. Com ninguém. Eu estava… frustrado. E não é desculpa de ninguém. Só… é o que aconteceu. Eu… sinto muito.

Bell parou por dois segundos.

Dois.

Que pareceram dois anos.

Depois voltou a montar o prato, totalmente calada.

Demir ficou ali, sem saber se era perdão, castigo ou prévia do apocalipse.

No fim, o silêncio dela era pior que qualquer gritaria.

E exatamente por isso… estava funcionando.

Bell respirou fundo, pegou o prato que montara com tanto cuidado, e uma boa dose de veneno poético, e caminhou até Demir. A expressão dela era impecável. Quase inocente. Até suave.

Mas só quase.

Ela parou bem na frente dele, ergueu o prato e disse com a voz mais doce que conseguiu forçar:

— Aqui estão as suas pontas de aspargos.

Fez uma pausa curta.

— Bom apetite.

O sorriso que ela deu em seguida era tão educado que qualquer pessoa distraída acreditaria que ela estava desejando bom apetite.

Demir… não.

Ele sabia que era uma ameaça de assassinato culinário.

Um elegante.

Mas ainda assim, assassinato.

Bell girou sobre os calcanhares antes que ele pudesse reagir, voltou para sua bancada e retomou o corte dos legumes para o próximo prato como se nada tivesse acontecido.

Tec-tec-tec-tec.

O ritmo da faca estava mais rápido.

Mais irritado.

Mais...“se eu pudesse, te picava junto, meu querido”.

Demir ficou parado ali, segurando o prato, sem saber se agradecia, fugia ou se ajoelhava pedindo perdão pela segunda vez.

No fim, fez o que qualquer covarde emocional faria: saiu da cozinha com o prato na mão.

Assim que passou para o corredor, o cheiro subiu como um tapa de perfume celestial.

Demir parou, inspirou fundo, fechou os olhos.

— Como ela consegue…? Murmurou, incrédulo.

Era apenas um prato feito com restos que ele insistia em aproveitar.

Simples.

Barato.

Mas o aroma…

Meu Deus.

Ele ficou ali, sozinho no corredor, segurando o prato como se fosse um presente divino e, pela primeira vez em muito tempo, reconheceu uma coisa:

Aquela mulher estava mexendo com sua cabeça.

E com seu paladar.

Com seu juízo, com certeza.

Tudo ao mesmo tempo.

Demir entrou no seu aquário de vidro como um criminoso fugindo da cena do crime. Fechou a porta. Trancou. Baixou as cortinas como quem esconde um pecado mortal.

Depois, sentou.

Olhou para o prato.

Respirou.

— É só aspargo. Disse para si mesmo, tentando se convencer. — Aspargo. Pontas. Sobras. Não é nada demais.

Mas o perfume subia como se tivesse sido cozinhado pelo próprio anjo Gabriel.

Ele pegou o garfo com cautela, como se fosse uma arma. Ou uma armadilha. Talvez ambas as coisas.

Levou o primeiro pedaço à boca.

E… pronto.

Fechou os olhos na hora.

O sabor explodiu com uma profundidade absurda… o tipo de coisa que só alguém que entende de alma, não só técnica, tem o poder de fazer. O tipo de sabor que assusta o chef.

Aquele tipo de sabor que ameaça reputação, ego e décadas de controle obsessivo.

— Merda… Ele sussurrou, afundando na cadeira.

Com o garfo ainda na boca, ele olhou para as cortinas fechadas, paranóico.

Se alguém me ver comendo isso, vai achar que estou… gostando. Que estou… admirando.

E isso não poderia acontecer.

Nem em sonho.

Ele tomou o segundo pedaço mais rápido.

Depois, o terceiro.

E, quando percebeu, estava inclinado sobre o prato como um homem que não come há dias.

Entre uma garfada e outra, os pensamentos começaram a bater forte:

Preciso tomar cuidado.

Mais uma garfada.

A comida dela… tem um toque marcante demais.

Outro pedaço, quase gemendo baixinho.

Se eu descuidar… aquela mulher toma meu lugar de chef.

Ele parou por um instante, encarando o prato como se Bell tivesse enfeitiçado cada ingrediente só para deixá-lo vulnerável.

— Não… Murmurou. — Isso é só… talento. Sorte. Alguma coisa brasileira. Sei lá.

Mas era mentira e ele sabia.

Bell tinha mão de ouro.

Mãos de avó turca.

Mão de chef.

E agora… mão na cabeça dele.

Demir limpou a boca com o guardanapo, respirou fundo e declarou para o silêncio da sala:

— Não posso deixar essa mulher me desmontar assim. Ela é perigosa.

E então, bem baixinho, quase um sussurro:

— Perigosa demais.

Mas comeu até a última garfada.

Lambuzou os bigodes literalmente.

E só então voltou a vestir a máscara de chef impenetrável antes de abrir as cortinas.

Porque se Umut entrasse ali e sentisse o cheiro… e visse que ele comeu de se lambuzar.

Demir se jogava pela janela.

Umut sempre percebe antes dele as coisas, mas desta vez não havia o que perceber. Mentiu para si mesmo mais uma vez.

Minhas queridas leitoras, foi assim que aprendi que silêncio grita mais que palavras.

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