Você fica

Fiquei na cozinha, parada no mesmo lugar onde havia terminado meu último manti, como quem espera a sentença de um juiz, de um sultão.

Porque era isso que Demir Osman parecia naquele momento: o grande lorde dos temperos, o ditador do cardamomo, o czar da culinária turca.

E eu ali… esperando ele vir dizer que passei.

Ou que estou demitida.

Sei lá… talvez que sou um perigo nacional para as panelas turcas.

Qualquer coisa.

Os minutos foram passando.

Um.

Dois.

Três.

Silêncio, parecia que até o ar da cozinha havia evaporado.

Nem um pigarro, nem um ranger de porta.

Será que ele não viria? Ele disse: se você conseguir fazer, fica. Então deve ser isso, ou não?

Eu já estava quase tirando o avental, dobrando e indo embora com dignidade (mentira, eu ia dramatizar e esbarrar em tudo no caminho), quando ouvi passos firmes se aproximando da porta.

Demir atravessou a porta da cozinha com Umut atrás dele, fiel como sombra turca… ou como fofoqueiro profissional, tanto faz.

Todos olham para ele, esperando a sentença.

Ele entrou com os braços para trás, e só sua presença domina todo o ambiente.

Tenho que admitir, ele tem presença.

Parou no meio da cozinha, me encarou… e engasgou.

ENGASGOU.

Sim, senhoras e senhores, o homem que achou que ia me humilhar, que me fez apostar cinquenta manti, que tentou me destruir psicologicamente… travou.

— Vo-cê… fez… bom trabalho. Ele disse em português, daquele jeito torto que faz meus pelos da nuca arrepiarem. Não de emoção, de irritação pura, pelo menos é o que venho me dizendo desde a primeira vez que ouvi.

Mas meu gênio, que sempre me mete em problemas, me dominou e abri a boca.

Inclinei a cabeça, sorriso doce de cobra pronta para dar o bote:

— O que foi que o senhor disse?

Fiz a voz mais inocente que já saiu da minha garganta.

— Eu não entendi… sou só uma aprendiz brasileira.

O ar mudou.

Foi tão rápido que nem percebi que repeti a aprendiz brasileira, o jeito debochado que me chamou quando entrei no restaurante, uma frase que eu, teoricamente, não deveria entender. Ainda bem que parei antes de completar.

Demir ficou imóvel, acho que mais porque o enfrentei do que pelo que disse.

Mas quem franziu a testa perigosamente foi Umut.

Ele olhou para mim.

Depois, para Demir.

E de volta para mim.

Apontou discretamente, como quem junta peças de um quebra-cabeça suspeito.

Mas ficou quieto.

E isso era pior.

Umut calado significava que ele estava pensando.

E quando Umut pensa… alguém perde a paz.

Voltei minha atenção para o sultão dos temperos.

Demir respirou fundo, engolindo o orgulho como se fosse um pedaço de pão seco sem água.

— Você pode ficar. Disse, enfim, cada palavra arrastada como se estivesse doendo.

— Cumpriu o que te solicitei… mas não fique muito feliz.

Vi um brilho de irritação nos olhos dele.

Mas vi uma coisa mais perigosa.

Curiosidade, e isso porque eu queria me manter nas sombras.

— Eu ainda não gosto de mudanças nos meus pratos. Ele continuou falando, e eu e minha boca grande.

Ah, essa foi ótima.

Um aviso.

Uma ameaça elegante.

Um “não se ache”.

Entrelacei os braços e levantei a sobrancelha.

— Então vou traduzir o que o senhor está tentando dizer: Você fica, mas não se meta em meus pratos registrados.

Ele piscou. Só uma vez.

Aquela única piscada que um predador dá quando percebe que a presa… não é tão presa assim.

E Umut, atrás dele, fez um “hmm” baixinho, como quem diz: isso vai dar novela.

Coloquei as mãos na cintura, firme, plenamente consciente de que havia acabado de pisar com os dois pés no terreno do sultão do tempero.

E eu ia ficar.

Mesmo que isso irritasse Demir Osman, mais do que páprica defumada no manti tradicional.

Ele resmungou algo que acho que traduzi como “insuportável”, se virou e saiu da cozinha.

A alegria foi geral, todos vieram me cumprimentar e perguntar sobre meu segredo, mas claro que não contei.

O resto do dia foi surpreendentemente tranquilo… ou talvez eu só estivesse anestesiada pela vitória silenciosa sobre o sultão do cardamomo.

Quando o restaurante fechou finalmente, a cozinha parecia um campo de batalha pós-morte: frigideiras tombadas, panelas sangrando molho, utensílios jogados como soldados caídos.

Todos foram para casa descansar.

Joaquim ainda tinha uma montanha de panelas para lavar.

Ele parecia um herói trágico encarando seu destino, ele tinha que largar tudo limpo e arrumado para o próximo dia.

Peguei uma bucha, dei dois passos e ele quase pulou para trás.

— Não precisa, Bell. Murmurou, olhando por cima do ombro como se esperasse que Demir surgisse da sombra igual a um demônio de novela turca. — Eu já estou acostumado, você não deve ficar aqui sozinha comigo.

— Eu te ajudo a acabar seu serviço e, em troca, você me acompanha até a porta do meu prédio.

Inclinei a cabeça com um sorriso inocente. — É uma ótima troca, não acha?

Joaquim piscou rápido.

— O senhor Demir não vai gostar… Disse, apertando a esponja como se fosse um amuleto contra chefes temperamentais — mas eu não posso recusar companhia para uma dama.

Sei o que Joaquim está pensando. Uma mulher sozinha com um homem em um ambiente fechado é quase um crime.

Mas uma mulher sozinha pelas ruas de Istambul à noite… ruim. Muito ruim.

Se eu fosse só uma brasileira desavisada, até arriscava… mas eu não era. Nasci e cresci na Turquia. Eu sabia onde pisar, onde não pisar e, principalmente, que tipo de situação evitar.

E Demir Osman entrava nessa lista com tranquilidade, e não só ele, todos os turcos.

Foi então que ele mesmo entrou na cozinha.

Alto, sombra longa, expressão sombria, parecia que a novela ia ficar boa.

Demir mirou primeiro a mim, depois as panelas. E então abriu a boca, com aquele português torto que me dava vontade de pedir um dicionário para ele.

— Por que você está auxiliando o lavador de panelas?

Depois, ergueu uma sobrancelha.

— Ou será que tem outros interesses?

A audácia dele me deu vontade de jogar água quente na cara.

Mas respirei.

Eu conhecia a mente depravada dos turcos. Cresci entre eles. E esse não era diferente, só era mais bonito e mais mal-humorado.

— Estou ajudando um amigo. Respondi friamente. — E se o senhor não sabe o que é isso… paciência.

A expressão dele mudou sutilmente, o que na linguagem de Demir significava: fui atingido, mas não vou admitir.

— Vocês, brasileiros, pensam que enganam alguém com essa conversa. Rebateu, cruzando os braços. — Não existe amizade entre homem e mulher.

Ah, pronto.

A cartilha do machismo ambulante.

Sem nem olhar para ele, continuei esfregando uma panela como se ela fosse a cara da pessoa errada.

— Se o senhor acha isso, sugiro que amplie sua bolha. Murmurei. — O mundo é maior que a sua cozinha, sabia?

Ele deu um passo.

Senti antes de ver.

O ar apertou.

Joaquim olhou entre nós como quem assiste a um incêndio começando.

Mas eu… não olhei.

Não ia dar esse gostinho ao sultão dos temperos.

Continuei lavando as panelas, com toda a calma que eu não tinha, e deixei o silêncio cortar o ar entre nós como uma faca recém-afiada.

Minha cara leitora, na Turquia, se você simplesmente sorrir para um homem na rua, ele interpretará isso como um convite.

Ele te pega e arrasta para a casa dele ou te estupra ali mesmo, e isso só você quem vai sair perdendo porque essa é a cultura deles.

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