Quase me entreguei

O relógio na parede da cozinha marcava impiedosamente os minutos até a abertura do.

Osman Fine Dining

A aposta de cinquenta Manti não era apenas um desafio culinário; era uma execução pública da minha confiança.

Estava na bancada, com pilhas de farinha e carne moída à minha frente. A atmosfera mudou. Não havia mais gritos. Havia apenas o som rítmico da minha faca contra a tábua, o ruído seco da farinha sendo trabalhada e, acima de tudo, o olhar de Demir me perfurando de seu aquário de vidro.

O segredo do meu Manti não estava no formato turco, que executei com a velocidade de quem fez aquilo a vida inteira. Estava no recheio. No toque sutil de coragem.

Enquanto misturava a carne de cordeiro e a cebola, adicionei a dose necessária de pimenta de Alepo e hortelã. Ingredientes turcos. Mas depois, sob o disfarce de mexer o recheio intensamente, tirei um pequeno recipiente do meu bolso. Não era o sal grosso. Era a páprica defumada que eu havia trazido do Brasil, guardada como um tesouro.

Uma pitada.

Apenas para dar uma profundidade terrosa, um toque defumado que o paladar de Demir reconheceria como “estranho” porque fugia do tradicional, mas não era ofensivo.

Era uma assinatura. Uma assinatura brasileira que só eu podia ler.

— Uau, que velocidade! Joaquim sussurrou em português, enquanto lavava as panelas que eu ia sujando. — Você parece uma máquina.

— Preciso ser. Respondi, sem tirar os olhos da massa.

— Ele quer perfeição. E eu vou dar a ele perfeição.

O trabalho era mecânico e meditativo. Minhas mãos, herdeiras das tradições de minha avó turca, esticavam a massa até a transparência ideal. Eu cortava os quadradinhos minúsculos e selava o recheio com a precisão de um cirurgião. Eu estava no meu templo.

Foi aí que ouvi um xingamento abafado vindo do aquário. Demir estava ao telefone, falando com seu gerente de suprimentos.

— Hayır, o peynir çöp. Bir daha o hırsızı içeri almayacağım! (Não, aquele queijo é lixo. Eu não vou deixar aquele ladrão entrar aqui de novo!)

A palavra hırsız (ladrão/traidor) me atingiu como um raio. Era a mesma palavra que meu pai usava para descrever qualquer um que tentasse roubar ou enganar a família. Era uma ofensa grave, não apenas um xingamento de chef.

Meu corpo reagiu antes que meu cérebro processasse a persona de “Bel Silva”.

Levantei a cabeça bruscamente, com a testa franzida em ultraje e raiva pura. Meu olhar atravessou o vidro e encontrou o de Demir. Era um olhar de confronto turco, de quem entendeu a profundidade da ofensa e está pronto para revidar.

Demir congelou.

A mão dele, que segurava o telefone, parou no ar. Seus olhos ônix, já intensos, se fixaram nos meus, azuis e cheios de fúria. Ele viu. Ele viu que aquela não era a “turista confusa” do aeroporto, ou me achou uma louca, encarando-o com ódio.

Pânico frio me atingiu. Estraguei tudo.

Com uma rapidez que só o medo de ser descoberta traz, eu transformei minha expressão de raiva em uma careta de susto exagerado. Fiz um gesto dramático com a mão sobre o coração, saltando um pouco para trás.

— Oh! Exclamei, em inglês, com a voz ligeiramente trêmula. — He's so loud! (Ele é tão barulhento!) Fiz um aceno exagerado para Joaquim.

— He should speak softer on the phone! I thought he was shouting at me! (Ele deveria falar mais baixo ao telefone! Pensei que estivesse gritando comigo!)

O susto fingido quebrou a tensão. Demir piscou, a testa ainda franzida em confusão, mas o olhar agora suavizado pela ideia de que eu era apenas uma estrangeira assustada com o volume.

Ele grunhiu, virou-se para o telefone e continuou a conversa, mas em um tom um pouco mais baixo, como quem não quer assustar a “garota frágil”.

Mas Umut, que me observava ao lado, continuou olhando para mim e sei que desconfiou, com uma sobrancelha erguida e o olhar pensativo.

Eu respirei, voltando ao meu trabalho com o coração a mil. Quase entreguei meu maior segredo por causa de um pingo de honra.

— Você quase derrubou a farinha! Joaquim murmurou, rindo baixinho.

— O seu chef é muito dramático. Sussurrei de volta, concentrada em fechar a borda de mais um manti.

Mas eu sabia que não era drama. E sabia que, por um segundo fugaz, Demir Osman tinha visto algo real por trás da minha máscara turística. Algo que ele não conseguia identificar, mas que o havia intrigado.

Trinta minutos depois, os cinquenta manti estavam prontos. Todos perfeitamente iguais, alinhados como soldados em uma bandeja de prata. Eu os levei para cozinhar no vapor, sob o olhar atento de todos os cozinheiros.

Demir saiu do seu reduto de vidro e foi em direção ao salão, na certa para ver minha derrota mais de perto, mas terá uma grande surpresa.

Quando o tempo acabou, retirei a bandeja, e o perfume defumado e picante da páprica subiu no ar, misturando-se ao tradicional molho de iogurte e alho que já estava pronto na bancada.

Enquanto eu finalizava os pratos, Umut apareceu na porta igual a uma tia fofoqueira no casamento da prima, observou e voltou para o salão, ele é o leva e traz do chef.

Senti um arrepio, vou ter que tomar cuidado com ele, parece bem observador.

No salão

— Mutfakta koşuyor ve herkes onu izliyor. (Ela está correndo na cozinha e todos estão olhando admirados.)

Demir, sentado no salão com uma xícara de café, nem ergueu a cabeça:

— Güzel. Herkesin önünde küçük düşecek. (Ótimo. Vai ser humilhada na frente de todos.)

Faltavam cinco minutos para o fim do prazo.

Umut voltou, quase quicando de ansiedade.

— Tezgâha şimdiden elli tabak koydu. (Ela já colocou cinquenta pratos na bancada.)

Demir sequer piscou.

— Tabak koymak kolay. Teslim ederken görmek istiyorum. (Colocar pratos é fácil. Quero ver entregar.)

Mas o cheiro… ah, o cheiro.

O aroma de manti fresco, especiarias quentes e aquele toque brasileiríssimo tomou o restaurante inteiro. Até o barman apareceu na porta da cozinha, fungando o ar igual a um cachorro farejando churrasco. Eu sorri, porque sei que minha comida cheira bem, ouvi quando ele disse a Demir.

— Şef… bu tabakların hepsi satılmazsa bir tane tatmak istiyorum. Bu koku beni öldürüyor. (Chef… se esses pratos não forem todos vendidos, eu quero provar um. Esse cheiro está me matando.)

Demir tentou manter a expressão neutra. Tentou mesmo. Mas seu nariz o traiu.

A respiração ficou mais profunda. O olhar inquieto. Era impossível fingir que não estava fascinado.

Ele estalou a língua.

— Umut… vai lá ver se ela terminou, falta só um minuto.

Umut suspirou, fazendo drama, e foi.

Dois minutos depois, voltou com molho na barba e um sorriso que dava a volta na cara.

— Ah, evet, o bitirdi. (Ah sim, ela terminou.)

E ergueu o dedo.

— Ve mutfakta çalışan herkes için bir tabak fazladan yaptı… bir de benim için. (E ainda fez um prato a mais para cada pessoa da cozinha… e um para mim.)

Demir engoliu seco.

E então saí da cozinha, impecável, com meu véu alinhado e um prato fumegante nas mãos.

Caminhei até o barman e entreguei:

— For you. You smelled it first. (Para você. Você sentiu o cheiro primeiro.)

A cozinha inteira aplaudiu baixinho, aquele aplauso cúmplice de quem já escolheu um lado. E não era o de Demir.

Fiz os pratos e o senhor Demir terá que me engolir em seu território. E nota mental: tomar cuidado com o Umut, o que tem de bonitinho tem de esperto.

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