Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisa Beaumont tinha apenas 28 anos quando se tornou uma das CEOs mais jovens e brilhantes do Brasil. Sua startup de inteligência artificial médica, a Beaumont Tech, era sua criação, seu legado, seu tudo — construído do zero, com unhas e dentes, após perder os pais cedo e jurar nunca mais depender de ninguém. Mas o império desmorona quando Gael D'Avila, o investidor implacável conhecido por devorar empresas em dificuldade, faz uma oferta que ela não pode recusar. Ele compra a companhia dela, toma o controle majoritário e a rebaixa a sua assistente pessoal. De rainha a subordinada em um piscar de olhos. O que começa como ódio puro — olhares frios em reuniões de diretoria, provocações veladas, tensão que corta o ar como faca — aos poucos se transforma em algo perigoso. Desejo. Um fogo lento que nenhum dos dois consegue apagar. Gael, o homem que comprou tudo o que ela tinha, começa a querer também o que ela nunca deu a ninguém: seu coração. Mas quando segredos enterrados do passado de Elisa vêm à tona — uma herança manchada por traição, roubo e mentiras do pai que ela idolatrava —, um primo distante emerge das sombras com uma vingança cruel. Sequestro, chantagem, humilhação. Gael fará qualquer coisa para salvá-la, mesmo que isso signifique destruir tudo o que construiu.
Ler maisElisa Beaumont acordou antes mesmo do despertador tocar.
O sol de São Paulo ainda se espreguiçava entre prédios quando os primeiros feixes de luz atravessaram as persianas do apartamento no topo do arranha-céu. O vidro refletia a cidade como um tabuleiro infinito, onde cada peça se movia rápido demais para quem ousasse hesitar. Ali, no silêncio caro e minimalista do espaço, Elisa abriu os olhos sentindo um peso conhecido no peito.
Não era cansaço físico. Era antecipação.
Aos vinte e oito anos, Elisa Beaumont era tudo aquilo que revistas de negócios chamavam de “fenômeno”. CEO da Beaumont Tech, uma startup de inteligência artificial aplicada à saúde que crescera de forma vertiginosa nos últimos cinco anos, ela havia transformado um projeto acadêmico em uma empresa milionária. Jovem, brilhante, respeitada… e profundamente pressionada.
Sentou-se na cama, passando a mão pelo rosto antes de se levantar. Caminhou até o banheiro com passos firmes, quase mecânicos. O reflexo no espelho mostrava uma mulher de postura impecável, mesmo de pijama. Os cabelos castanhos ondulados estavam presos num coque despretensioso, os olhos escuros atentos demais para alguém que acabara de acordar.
Enquanto escovava os dentes, imagens dos relatórios financeiros da noite anterior voltaram como um eco incômodo. Números vermelhos. Projeções frias. O tipo de leitura que não perdoa sonhos.
Na cozinha, o aroma do café forte tomou o ambiente. Elisa apoiou as mãos na bancada de mármore, respirando fundo antes de pegar o telefone.
Discou um número decorado.
— Clara, bom dia — disse, enquanto observava a cafeteira terminar seu trabalho. A voz saiu firme, mas havia algo ali, um fio de urgência que sua assistente conhecia bem.
— Bom dia, Elisa — respondeu Clara do outro lado, já desperta, já eficiente. — A reunião com os investidores está confirmada para as 14h. Sala de conferências principal. Venture Capital Brasil e Apex Investments confirmaram presença… e o representante da D’Avila Capital também.
Elisa levou a xícara aos lábios, mas congelou antes do primeiro gole.
— Quem? — perguntou, mesmo já sabendo a resposta.
— Gael D’Avila — completou Clara, em tom cuidadoso. — Ele confirmou pessoalmente ontem à noite.
O nome caiu no ar como um aviso silencioso.
Gael D’Avila não investia. Ele dominava.
— Certo — murmurou Elisa, forçando controle. — Prepare os slides com os números atualizados. Quero foco total no crescimento da IA para saúde. Dados clínicos, impacto social, tudo. E garanta que o café da reunião esteja impecável. Nada fora do lugar.
— Entendido. Ah… — Clara hesitou por um segundo. — O relatório final do CFO chegou. As projeções não são animadoras.
— Eu vejo quando chegar ao escritório — respondeu Elisa. — Obrigada, Clara.
Desligou e ficou alguns segundos encarando a cidade lá embaixo. A Beaumont Tech nascera de um propósito real. Não era apenas tecnologia. Era gente. Hospitais, médicos, pacientes. Vidas que dependiam de decisões rápidas e precisas.
Ela havia apostado tudo ali. Absolutamente tudo.
No caminho até o Itaim Bibi, Elisa manteve o olhar fixo pela janela do carro, enquanto o trânsito fluía em sua dança caótica. O prédio da Beaumont Tech surgiu imponente, moderno, com fachadas de vidro espelhado que refletiam ambição.
Assim que entrou, foi recebida por olhares atentos. Sorrisos tensos. Esperança misturada com medo.
— Bom dia, pessoal — disse ela, com energia ensaiada. — Hoje pode ser o dia que muda tudo.
Na sala de reuniões aberta, os gerentes já aguardavam. Elisa ocupou a cabeceira da mesa com naturalidade. Liderar nunca fora um esforço para ela. Era instinto.
— Precisamos estar alinhados — continuou. — Essa reunião não é só sobre dinheiro. É sobre sobrevivência.
Pedro, o CTO, pigarreou.
— Os protótipos estão prontos para demonstração — disse, ajeitando os óculos. — A nova versão do algoritmo superou as expectativas. Mas sem mais servidores, não conseguimos escalar. Se o funding não sair…
— Vai sair — cortou Elisa, firme. — Mostrem os dados. Nosso sistema reduziu erros de diagnóstico em quarenta por cento. Isso muda o jogo.
Sofia, a CFO, respirou fundo antes de falar.
— Elisa, preciso ser honesta. Estamos queimando dois milhões por mês. Se não fecharmos ao menos dez milhões hoje, teremos que cortar custos drasticamente. Vinte por cento da equipe.
A palavra “demissões” ficou implícita. E pesada.
Por um instante, o silêncio dominou a sala. Elisa sentiu o nó na garganta, mas não permitiu que chegasse aos olhos.
— Não vamos chegar a isso — disse, com convicção. — Eu prometi que essa empresa faria a diferença. E vai fazer.
Dispensou a equipe pouco depois e seguiu para sua sala envidraçada. A vista da Faria Lima era grandiosa, quase desafiadora.
Ela discou outro número.
— Roberto, é a Elisa.
— Minha menina — respondeu o mentor, com a voz rouca de quem já vira muitos impérios caírem e outros nascerem. — Ouvi rumores. Fluxo de caixa apertado?
— Bastante — admitiu. — E Gael D’Avila estará na reunião.
Houve um breve silêncio.
— Cuidado — disse Roberto. — Esse homem não faz favores. Ele compra. Controla. Desmonta se precisar. Se farejar fraqueza, vai atacar.
Elisa fechou os olhos.
— Eu sei. Mas precisamos do dinheiro.
— Então negocie com a cabeça, não com o orgulho — aconselhou ele. — Às vezes, salvar parte do sonho é melhor do que perdê-lo inteiro.
Às quatorze horas em ponto, os investidores chegaram. A reunião começou cordial. Perguntas técnicas. Números. Promessas.
Até Gael D’Avila entrar.
Alto, elegante, terno cinza perfeitamente ajustado ao corpo, gravata vermelha como um aviso silencioso. O sorriso era calculado. Os olhos, perigosamente atentos.
— Senhora Beaumont — disse ele, apertando sua mão. — Vejo que continua desafiadora desde Miami.
— E você continua arrogante — respondeu Elisa, sem recuar.
Gael sorriu mais.
— Gosto disso em você.
Durante a apresentação, ele ouviu em silêncio. Quando falou, foi direto.
— Vocês precisam de vinte milhões. E rápido. Eu posso oferecer isso… em troca de cinquenta e um por cento da empresa.
O ar desapareceu da sala.
— Isso é uma aquisição hostil — rebateu Elisa, a voz firme apesar do coração acelerado.
— Isso é sobrevivência — corrigiu Gael, inclinando-se para frente. — Sem mim, você perde tudo. Comigo, salva sua tecnologia. Pense bem.
Elisa sustentou o olhar dele por longos segundos.
— A Beaumont Tech não está à venda — disse, enfim. — Não hoje.
Gael levantou-se, tranquilo demais para alguém que acabara de ser recusado.
— Meu número está aí — disse, deixando o cartão sobre a mesa. — Quando a realidade bater à porta, você vai ligar.
Quando ele saiu, Elisa sentiu o peso do tempo cair sobre seus ombros.
A guerra estava declarada.
E ela sabia, no fundo da alma: Gael D’Avila não aceitava perder.
Dez anos se passaram desde o nascimento de Alice, e a vida de Elisa e Gael D'Avila se transformara em algo que nenhum dos dois poderia ter imaginado quando se conheceram — uma mistura perfeita de amor profundo, família barulhenta e propósito que transcendia o sucesso material.A D'Avila Health AI era agora uma das maiores empresas de tecnologia médica do mundo. A IA oncológica, que começara como um sonho de Elisa em uma sala pequena de coworking, salvava milhões de vidas anualmente em mais de 50 países. Patentes protegidas, parcerias com governos e ONGs, e um fundo filantrópico que levava a tecnologia gratuitamente para comunidades carentes. Elisa e Gael dividiam a liderança, mas já falavam em transição: Alice, aos 15 anos, cursava ensino médio com foco em ciência da computação e design, sonhando em assumir a empresa no futuro. “Quero fazer a IA salvar mais vidas que a mamãe salvou”, dizia ela, orgulhosa.A família crescera. Após Alice, vieram os gêmeos: Theo e Luna, nascidos dois anos
Sofia ficou mais três semanas em São Paulo após a conversa na varanda. Durante esse tempo, ela se integrou devagar à rotina da família. Ajudava Elisa com Alice quando Gael estava em reuniões, levava a menina ao parquinho do prédio (sempre com supervisão), e até cozinhava pratos gaúchos que Alice adorava — feijoada light, arroz carreteiro sem gordura, tudo adaptado para a gravidez. Aos poucos, o ciúme inicial de Alice diminuiu: ela começou a chamar Sofia de “tia Sofia” sem torcer o nariz, pedia para a tia trançar seu cabelo e até dormia no colo dela durante as sonecas da tarde.Elisa observava tudo com o coração dividido. Sofia era gentil, quieta, nunca pedia nada além de companhia. Mas as dívidas da mãe dela — tratamentos de câncer, contas atrasadas, aluguel — pairavam como uma nuvem. Sofia mencionara o valor uma vez, em conversa casual: cerca de 80 mil reais. Elisa e Gael conversaram à noite, na cama, com Alice dormindo no berço ao lado.— Ela não pede diretamente — disse Elisa, voz
Marina sempre fora a tia divertida, a que chegava com desenhos, histórias e energia para entreter Alice. Mas nos últimos meses, algo mudara. Ela passava mais tempo no apartamento de Elisa e Gael — oficialmente para ajudar com Alice e o planejamento do quarto da bebê, mas também porque o escritório da D'Avila Health AI ficava a poucos quarteirões dali, e Pedro, o CTO, começara a dar carona para ela nos dias de reunião.Pedro Oliveira era o oposto de Marina em muitos sentidos: sério, metódico, falava pouco fora do trabalho, mas tinha um sorriso tímido que aparecia só quando ele relaxava. Aos 32 anos, ele era o braço direito de Elisa desde os tempos da Beaumont Tech, o gênio por trás da infraestrutura técnica que permitia a IA escalar sem cair. Marina o conhecera no primeiro dia de estágio — ele a recebera com um aperto de mão formal e um “bem-vinda ao time” que soara seco, mas genuíno.No começo, era só profissionalismo. Marina entregava layouts, Pedro aprovava ou pedia ajustes. Mas aos
A chegada de Sofia Oliveira a São Paulo trouxe uma mistura de curiosidade e tensão ao apartamento dos D'Avila. A meia-irmã de Elisa, com seus 25 anos e sotaque gaúcho suave, instalou-se no quarto de hóspedes por tempo indeterminado. Ela era educada, ajudava na cozinha lavando pratos após as refeições e contava histórias de Porto Alegre para Alice, que a ouvia fascinada, mas com uma ponta de desconfiança nos olhos infantis. Na primeira semana, tudo pareceu fluir bem. Sofia trabalhava remotamente como atendente de cafeteria (uma adaptação que o chefe dela permitira), estudava administração online e se oferecia para brincar com Alice enquanto Elisa e Gael cuidavam de reuniões virtuais da empresa. Alice, aos 5 anos, aceitava os desenhos que Sofia fazia para ela — princesas e castelos com toques gaúchos, como chimarrão nas mãos das fadas — mas sempre corria para o colo da mãe ou do pai logo depois. — Tia Sofia desenhou uma princesa com bombacha! — dizia Alice, mostrando o papel para Eli





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