Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisa acordou às 6h15 com o alarme vibrando baixo sobre o criado-mudo, mas seu corpo já estava desperto muito antes disso. O sono fora raso, fragmentado, cheio de imagens que se repetiam como um eco insistente: a luz âmbar do restaurante, o toque casual demais de Gael sobre sua mão, a distância mínima entre os lábios que nunca chegaram a se encontrar.
Ela ficou alguns segundos olhando para o teto, respirando fundo, como se pudesse reorganizar o próprio eixo antes de se levantar. Não funcionou.
O banho frio ajudou apenas parcialmente. A água escorria pelos ombros, levando consigo o cansaço, mas não a inquietação. Quando saiu do box, enrolada na toalha, encarou o próprio reflexo no espelho do closet. O rosto firme, os olhos atentos demais para aquele horário. Elisa conhecia bem aquele olhar. Era o mesmo que surgia antes de decisões grandes, irreversíveis.
Escolheu a roupa com precisão quase cirúrgica. Saia lápis azul-marinho, blusa de seda branca, blazer cinza de corte impecável. Nada que pudesse ser interpretado como convite. Nada que denunciasse a mulher que, na noite anterior, quase esquecera todas as próprias regras. Prendeu o cabelo em um coque baixo, maquiagem leve, batom neutro. Blindagem completa.
No carro, enquanto São Paulo acordava em tons de cinza e buzinas impacientes, ela abriu o tablet e releu a agenda enviada por Clara às 5h47. A eficiência da assistente beirava o desumano.
8h30: Reunião de alinhamento com o time de produto.
Elisa soltou um suspiro curto ao ler a última linha. “Informal” era o tipo de palavra que Gael usava quando queria suavizar algo que definitivamente não seria simples.
Chegou ao prédio às 7h55. O hall ainda estava silencioso, cheiro de café recém-passado misturado ao perfume discreto de limpeza. O segurança da portaria levantou-se quase automaticamente.
— Bom dia, senhora Beaumont.
O tratamento formal ainda soava estranho, mas ela apenas assentiu com um sorriso educado. O novo organograma já corria pelos corredores como um sussurro constante. Subiu direto para o oitavo andar, saltos ecoando no piso polido.
Sua sala estava exatamente como deixara. O laptop novo repousava sobre a mesa, ainda intocado. A agenda aberta na página do dia. A pequena planta ao lado da janela denunciava a mão de Clara tentando tornar o espaço menos impessoal.
Antes que se sentasse, seus olhos foram puxados para a sala ao lado. A porta da suíte de Gael estava entreaberta. Luz acesa.
Ele já estava ali.
Elisa inspirou fundo, endireitou os ombros e bateu levemente na madeira.
— Bom dia. Posso entrar?
Gael ergueu os olhos do monitor. Vestia camisa preta, mangas dobradas até os cotovelos, sem gravata. O cabelo, ligeiramente desalinhado, dava a impressão de uma noite curta. Os olhos escuros percorreram-na rápido demais para serem totalmente neutros.
— Entre — disse, desligando a tela. — Café?
— Já tomei, obrigada.
Ela parou a uma distância segura da mesa, como se aquele espaço invisível fosse uma linha de proteção.
— Queria alinhar a apresentação para o board à tarde. Alguma mensagem específica que você queira passar?
Gael se recostou na cadeira, cruzando os braços.
— Quero que você lidere a parte técnica. Mostre os avanços da IA, os resultados dos pilotos, o roadmap para o Japão. Eu fico com os números e a visão estratégica.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Você quer que eu apresente para o seu board?
— Exatamente.
— E por quê?
Ele se levantou e contornou a mesa com passos tranquilos, calculados.
— Porque eles precisam ver que essa aquisição não foi apenas financeira. Foi uma decisão de talento. E o talento central é você.
Elisa cruzou os braços, defensiva.
— Isso não é um teste?
Um sorriso lento surgiu no rosto dele.
— Se fosse, eu avisaria. Não gosto de armadilhas internas.
Ela sustentou o olhar por alguns segundos antes de assentir.
— Tudo bem. Te envio os slides atualizados em uma hora.
— Perfeito.
Quando ele se aproximou um pouco mais, a voz dele baixou.
— E sobre ontem à noite…
Elisa ergueu a mão, firme.
— Ontem foi um sucesso de negócios. O resto fica em suspenso. Aqui é trabalho.
Gael inclinou levemente a cabeça, aceitando o limite, ainda que os olhos desmentissem a rendição.
— Como quiser. Por enquanto.
A reunião das 8h30 fluiu com naturalidade. Elisa reassumiu o controle da sala como se nunca tivesse saído. Distribuiu tarefas, cobrou prazos, alinhou prioridades. Pedro e os engenheiros pareciam mais relaxados com sua presença. Era familiar, era seguro.
Às 10h, a call com Tóquio consolidou o clima positivo. Os engenheiros japoneses fizeram perguntas técnicas profundas, elogiaram a arquitetura do modelo, discutiram possibilidades de adaptação ao sistema local de saúde. Elisa respondeu tudo com clareza e firmeza. Pela parede de vidro, ela percebeu Gael observando, silencioso, atento.
O almoço foi solitário. Uma salada rápida na cafeteria, os slides abertos à frente, ajustes finais sendo feitos com precisão quase obsessiva.
Às 14h, a sala do board estava cheia. Dez homens, duas mulheres. Expressões calculadas, braços cruzados, celulares silenciosos sobre a mesa. Gael abriu a reunião com segurança, apresentou os números, o acordo preliminar com Tanaka, a estratégia de expansão.
— E agora — disse ele — Elisa Beaumont, nossa Chief Product Officer interina, vai mostrar por que essa tecnologia nos coloca anos à frente da concorrência.
Ela se levantou. Conectou o laptop. Começou.
Falou sem ler. Dados, gráficos, estudos de caso. Histórias reais de diagnósticos precoces, de vidas impactadas. Quando terminou, o silêncio foi denso. Depois, aplausos contidos, respeitosos.
— Você criou isso sozinha? — perguntou Otávio, um dos diretores mais antigos.
— Com uma equipe extraordinária — respondeu ela. — E agora, com os recursos certos, vamos ampliar esse impacto exponencialmente.
Otávio assentiu, impressionado.
Quando a sala esvaziou, Gael se aproximou.
— Você os conquistou.
— Era o objetivo.
— Não — disse ele, tocando de leve o braço dela. — Você os conquistou sem tentar.
— Jantar às 19h30 — completou. — Italiano, no Jardins.
— Vou trocar de roupa em casa.
— Não precisa. Você está perfeita.
Ela saiu sentindo o peso do olhar dele. O dia terminara melhor do que imaginara. Mas a noite prometia algo bem mais complicado.
E Elisa sabia: o verdadeiro teste ainda estava por vir.







