Capítulo 5: O Segundo Dia

Elisa acordou às 6h15 com o alarme vibrando baixo sobre o criado-mudo, mas seu corpo já estava desperto muito antes disso. O sono fora raso, fragmentado, cheio de imagens que se repetiam como um eco insistente: a luz âmbar do restaurante, o toque casual demais de Gael sobre sua mão, a distância mínima entre os lábios que nunca chegaram a se encontrar.

Ela ficou alguns segundos olhando para o teto, respirando fundo, como se pudesse reorganizar o próprio eixo antes de se levantar. Não funcionou.

O banho frio ajudou apenas parcialmente. A água escorria pelos ombros, levando consigo o cansaço, mas não a inquietação. Quando saiu do box, enrolada na toalha, encarou o próprio reflexo no espelho do closet. O rosto firme, os olhos atentos demais para aquele horário. Elisa conhecia bem aquele olhar. Era o mesmo que surgia antes de decisões grandes, irreversíveis.

Escolheu a roupa com precisão quase cirúrgica. Saia lápis azul-marinho, blusa de seda branca, blazer cinza de corte impecável. Nada que pudesse ser interpretado como convite. Nada que denunciasse a mulher que, na noite anterior, quase esquecera todas as próprias regras. Prendeu o cabelo em um coque baixo, maquiagem leve, batom neutro. Blindagem completa.

No carro, enquanto São Paulo acordava em tons de cinza e buzinas impacientes, ela abriu o tablet e releu a agenda enviada por Clara às 5h47. A eficiência da assistente beirava o desumano.

8h30: Reunião de alinhamento com o time de produto.

10h: Call com engenheiros da equipe japonesa.

14h: Apresentação para o board da D’Avila Capital.

19h: “Jantar informal” com Gael e dois potenciais parceiros europeus.

Elisa soltou um suspiro curto ao ler a última linha. “Informal” era o tipo de palavra que Gael usava quando queria suavizar algo que definitivamente não seria simples.

Chegou ao prédio às 7h55. O hall ainda estava silencioso, cheiro de café recém-passado misturado ao perfume discreto de limpeza. O segurança da portaria levantou-se quase automaticamente.

— Bom dia, senhora Beaumont.

O tratamento formal ainda soava estranho, mas ela apenas assentiu com um sorriso educado. O novo organograma já corria pelos corredores como um sussurro constante. Subiu direto para o oitavo andar, saltos ecoando no piso polido.

Sua sala estava exatamente como deixara. O laptop novo repousava sobre a mesa, ainda intocado. A agenda aberta na página do dia. A pequena planta ao lado da janela denunciava a mão de Clara tentando tornar o espaço menos impessoal.

Antes que se sentasse, seus olhos foram puxados para a sala ao lado. A porta da suíte de Gael estava entreaberta. Luz acesa.

Ele já estava ali.

Elisa inspirou fundo, endireitou os ombros e bateu levemente na madeira.

— Bom dia. Posso entrar?

Gael ergueu os olhos do monitor. Vestia camisa preta, mangas dobradas até os cotovelos, sem gravata. O cabelo, ligeiramente desalinhado, dava a impressão de uma noite curta. Os olhos escuros percorreram-na rápido demais para serem totalmente neutros.

— Entre — disse, desligando a tela. — Café?

— Já tomei, obrigada.

Ela parou a uma distância segura da mesa, como se aquele espaço invisível fosse uma linha de proteção.

— Queria alinhar a apresentação para o board à tarde. Alguma mensagem específica que você queira passar?

Gael se recostou na cadeira, cruzando os braços.

— Quero que você lidere a parte técnica. Mostre os avanços da IA, os resultados dos pilotos, o roadmap para o Japão. Eu fico com os números e a visão estratégica.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Você quer que eu apresente para o seu board?

— Exatamente.

— E por quê?

Ele se levantou e contornou a mesa com passos tranquilos, calculados.

— Porque eles precisam ver que essa aquisição não foi apenas financeira. Foi uma decisão de talento. E o talento central é você.

Elisa cruzou os braços, defensiva.

— Isso não é um teste?

Um sorriso lento surgiu no rosto dele.

— Se fosse, eu avisaria. Não gosto de armadilhas internas.

Ela sustentou o olhar por alguns segundos antes de assentir.

— Tudo bem. Te envio os slides atualizados em uma hora.

— Perfeito.

Quando ele se aproximou um pouco mais, a voz dele baixou.

— E sobre ontem à noite…

Elisa ergueu a mão, firme.

— Ontem foi um sucesso de negócios. O resto fica em suspenso. Aqui é trabalho.

Gael inclinou levemente a cabeça, aceitando o limite, ainda que os olhos desmentissem a rendição.

— Como quiser. Por enquanto.

A reunião das 8h30 fluiu com naturalidade. Elisa reassumiu o controle da sala como se nunca tivesse saído. Distribuiu tarefas, cobrou prazos, alinhou prioridades. Pedro e os engenheiros pareciam mais relaxados com sua presença. Era familiar, era seguro.

Às 10h, a call com Tóquio consolidou o clima positivo. Os engenheiros japoneses fizeram perguntas técnicas profundas, elogiaram a arquitetura do modelo, discutiram possibilidades de adaptação ao sistema local de saúde. Elisa respondeu tudo com clareza e firmeza. Pela parede de vidro, ela percebeu Gael observando, silencioso, atento.

O almoço foi solitário. Uma salada rápida na cafeteria, os slides abertos à frente, ajustes finais sendo feitos com precisão quase obsessiva.

Às 14h, a sala do board estava cheia. Dez homens, duas mulheres. Expressões calculadas, braços cruzados, celulares silenciosos sobre a mesa. Gael abriu a reunião com segurança, apresentou os números, o acordo preliminar com Tanaka, a estratégia de expansão.

— E agora — disse ele — Elisa Beaumont, nossa Chief Product Officer interina, vai mostrar por que essa tecnologia nos coloca anos à frente da concorrência.

Ela se levantou. Conectou o laptop. Começou.

Falou sem ler. Dados, gráficos, estudos de caso. Histórias reais de diagnósticos precoces, de vidas impactadas. Quando terminou, o silêncio foi denso. Depois, aplausos contidos, respeitosos.

— Você criou isso sozinha? — perguntou Otávio, um dos diretores mais antigos.

— Com uma equipe extraordinária — respondeu ela. — E agora, com os recursos certos, vamos ampliar esse impacto exponencialmente.

Otávio assentiu, impressionado.

Quando a sala esvaziou, Gael se aproximou.

— Você os conquistou.

— Era o objetivo.

— Não — disse ele, tocando de leve o braço dela. — Você os conquistou sem tentar.

— Jantar às 19h30 — completou. — Italiano, no Jardins.

— Vou trocar de roupa em casa.

— Não precisa. Você está perfeita.

Ela saiu sentindo o peso do olhar dele. O dia terminara melhor do que imaginara. Mas a noite prometia algo bem mais complicado.

E Elisa sabia: o verdadeiro teste ainda estava por vir.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App