Mundo de ficçãoIniciar sessãoDuas semanas haviam passado desde a reunião com os investidores, mas para Elisa Beaumont parecia que meses tinham se arrastado sobre seus ombros.
O escritório da Beaumont Tech já não vibrava como antes. O que antes era energia criativa agora parecia um navio ferido, avançando lentamente enquanto a água entrava pelos compartimentos invisíveis. Cada dia trazia menos esperança e mais silêncio.
Os e-mails começaram educados, quase gentis demais para o golpe que carregavam.
“Após análise mais aprofundada, decidimos não prosseguir com o investimento.”
Um por um, os fundos recuavam. Nenhum deles dizia o nome em voz alta, mas Elisa sabia exatamente o que os afastava. Gael D’Avila. Sua presença na reunião havia sido suficiente para contaminar a rodada inteira. Onde ele tocava, os outros se afastavam.
O mercado não queria briga. E Gael era sinônimo de guerra.
Elisa passava as noites em claro. Dormia pouco, sonhava menos ainda. Ligava para antigos contatos, atualizava pitch decks às três da manhã, ensaiava discursos que nunca teria chance de apresentar. Implorava, ainda que em silêncio. Nada funcionava.
Aquela sexta-feira amanheceu chuvosa, o céu pesado refletindo exatamente o que ela sentia. Elisa chegou ao prédio cedo demais, quando o mundo corporativo ainda dormia. O estacionamento estava quase vazio, o elevador subiu em silêncio absoluto.
Ao entrar em sua sala, acendeu as luzes e ficou alguns segundos parada, observando São Paulo mergulhada em tons de cinza. Pela primeira vez desde que fundara a empresa, ela se perguntou se havia chegado ao limite.
A batida na porta foi hesitante.
— Elisa… posso entrar?
Clara apareceu segurando uma xícara de café e uma pasta fina. Os olhos denunciavam preocupação.
— Claro — respondeu Elisa, sentando-se. — O que houve?
Clara colocou o café com cuidado sobre a mesa, como se aquele gesto fosse uma tentativa de conforto, e estendeu a pasta.
— Chegou por motoboy há uma hora. Não tem remetente visível, mas… — ela respirou fundo — o selo é da D’Avila Capital.
O coração de Elisa acelerou, mas suas mãos permaneceram firmes. Abriu a pasta com cuidado quase cerimonial.
A proposta era clara, fria, definitiva.
Vinte e cinco milhões de reais pela totalidade das ações. Retenção de apenas quinze por cento dos funcionários, escolhidos a critério exclusivo do comprador. Um pacote de saída “generoso” para os demais. Nada de negociação futura. Nada de segundas chances.
No rodapé, a caligrafia inconfundível de Gael D’Avila:
“Última oferta. Validade até segunda-feira, 18h.”
Elisa fechou a pasta lentamente, como se o gesto pudesse conter o impacto.
— Ele está nos encurralando — murmurou.
— O banco ligou ontem — disse Clara, em voz baixa. — Se a folha não for paga até terça, eles bloqueiam as contas.
Elisa fechou os olhos por um instante. Quando abriu, a decisão ainda não estava tomada, mas o caminho começava a se estreitar.
— Reúna o conselho executivo às dez — disse ela. — Vamos votar.
Às dez horas, a sala de reuniões estava cheia, mas sem energia. Pedro, Sofia, Lucas e os heads de departamento carregavam olheiras profundas e expressões cansadas. Todos sabiam por que estavam ali.
Elisa colocou a pasta no centro da mesa.
— Não temos mais investidores — disse, sem rodeios. — Não temos linha de crédito. Não temos tempo. Essa é a única proposta concreta.
Pedro foi o primeiro a quebrar o silêncio.
— Elisa… — a voz saiu rouca. — Se recusarmos, fechamos as portas em semanas. Perderemos tudo. Pelo menos assim a tecnologia sobrevive. E alguns empregos também.
Sofia assentiu, ajustando os óculos.
— Do ponto de vista financeiro, é a melhor saída possível. Evita recuperação judicial, cobre as dívidas e protege os acionistas minoritários. Se esperarmos mais, não sobrará nada.
Lucas tentou resistir, mesmo sabendo que lutava contra o inevitável.
— E se tentarmos vender uma patente? Ou lançar um crowdfunding emergencial?
Elisa o encarou, exausta.
— Já tentamos. Ninguém quer partes. Querem o controle. Ou nada.
O silêncio que se seguiu foi denso, quase físico.
— Vamos votar — disse Elisa, por fim. — Quem aceita a oferta, levante a mão.
Uma a uma, as mãos se ergueram. Hesitantes. Pesadas. Quando chegou a vez dela, Elisa demorou alguns segundos, mas levantou a mão também.
A decisão estava tomada.
— Clara — disse ela depois — marque uma reunião com Gael D’Avila para segunda-feira, às dezesseis. Aqui.
O fim de semana foi um borrão. Assinaturas preliminares, conferências jurídicas, lágrimas silenciosas em corredores vazios. Funcionários percebiam que algo estava errado, mesmo sem confirmação oficial. O clima era de despedida antes mesmo do anúncio.
Na segunda-feira, o céu estava limpo demais. Azul. Cruel.
Às dezesseis horas em ponto, Gael D’Avila chegou sozinho. Nenhum advogado, nenhum assessor. Apenas ele, com um terno azul-marinho impecável e o mesmo olhar de quem já venceu.
Elisa o recebeu na sala principal, acompanhada apenas por Sofia.
— Senhor D’Avila — disse, indicando a cadeira. — Aceitamos os termos. Com uma condição.
Gael arqueou levemente a sobrancelha, interessado.
— Fale.
— Fico na empresa por seis meses como consultora técnica. Para garantir a transição da tecnologia.
Ele sorriu de canto.
— Não era necessário pedir — respondeu. — Eu já planejava mantê-la por perto. Sua mente vale mais do que muitos ativos que comprei por aí.
Abriu a maleta e colocou os contratos sobre a mesa, todos já assinados.
— Só falta a sua assinatura.
Elisa pegou a caneta. Por um segundo, o peso de tudo que construíra caiu sobre seus ombros. Cinco anos resumidos a um gesto.
Ela assinou.
Gael recolheu os documentos com calma.
— A partir de amanhã, a Beaumont Tech pertence à D’Avila Capital — disse. — E você reportará diretamente a mim.
— Como consultora — corrigiu ela.
— Por enquanto — respondeu ele, levantando-se. — O organograma pode mudar. Depende de você.
Ele estendeu a mão. Não era apenas um cumprimento. Era um aviso.
— Não confunda minha decisão com submissão — disse Elisa, apertando a mão dele. — Eu fiz isso para salvar o que pude.
Gael sorriu, agora sem disfarces.
— Eu sei. E é exatamente por isso que essa história está só começando.
Quando ele saiu, Elisa ficou sozinha na sala silenciosa.
Naquela noite, em seu apartamento vazio, ela observou as luzes da cidade com uma taça de vinho na mão. Perdera o controle da empresa. Perdera o trono.
Mas ganhara algo ainda mais perigoso.
A atenção total de Gael D’Avila.
E a sensação inquietante de que aquela assinatura não havia encerrado nada… apenas aberto um jogo onde as regras seriam ditadas por ele.







