Mundo de ficçãoIniciar sessãoElisa chegou ao apartamento pouco depois das 18h30. O trânsito da Faria Lima estava caótico, um emaranhado de faróis vermelhos e buzinas impacientes, típico das sextas-feiras em São Paulo. Ainda assim, ela mal registrara o caminho. Sua mente permanecera presa ao dia que se estendera como um fio tenso demais para ser ignorado.
A apresentação impecável diante do board.
Fechou a porta com um suspiro longo, quase um desabafo. Jogou as chaves na mesinha de entrada sem cuidado, como se qualquer gesto mínimo exigisse energia demais. O apartamento a recebeu com silêncio. Apenas o zumbido discreto da geladeira e o som distante da cidade filtrado pelas janelas altas.
Tirou os sapatos ainda no hall, sentindo o alívio imediato nos pés. Deixou o blazer dobrado sobre o sofá e foi direto para a cozinha. Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de vinho branco já gelada e serviu-se sem cerimônia.
Só um gole, pensou. Para acalmar.
Sentou-se no banco alto do balcão, apoiando os cotovelos no mármore frio, a taça girando lentamente entre os dedos. Lá fora, o céu começava a escurecer, os prédios acendendo suas luzes em sequência, como se a cidade respirasse ao mesmo tempo.
A apreensão crescia em seu peito de forma lenta e persistente, como uma maré que não dava sinais de recuo.
Por que aceitara o jantar tão rapidamente?
“Informal”, ele dissera.
Mas Elisa não era ingênua. Depois da noite anterior, depois do quase-beijo interrompido, depois daquele toque leve e carregado de intenção, nada entre ela e Gael podia mais ser considerado inocente.
— Eu consigo manter o profissionalismo — murmurou para si mesma, girando a taça. — É só trabalho.
A frase soou fraca até para ela.
O corpo não obedecia à lógica. O coração acelerava sem motivo concreto, as mãos estavam levemente quentes. Bastava lembrar o perfume dele, amadeirado, discreto, ou a maneira como Gael a observava, como se estivesse sempre um passo à frente, lendo pensamentos que ela se esforçava para esconder.
Tomou um gole maior de vinho. Sentiu o líquido frio descer, tentando apagar o calor incômodo que se espalhava por dentro.
Não era medo de Gael.
Era medo de si mesma quando estava perto dele.
A atração era direta, crua, sem rodeios. Misturava-se a uma raiva mal resolvida pela venda da empresa, pela perda de algo que fora sua vida por anos. Um sentimento contraditório, perigoso, que a fazia querer resistir e ceder ao mesmo tempo.
Ela odiava perder o controle. E Gael despertava exatamente isso.
Olhou para o relógio na parede da cozinha.
18h52.
Suspendeu a taça no ar por um segundo antes de colocá-la de lado. Precisava se arrumar.
Foi até o quarto com passos decididos, como se cada segundo de hesitação pudesse fazê-la desistir. Abriu o closet e analisou as opções com olhar crítico. Nada exagerado. Nada defensivo demais.
Escolheu o vestido verde-esmeralda. Justo o suficiente para marcar o corpo, elegante o bastante para impor respeito. Decote em V discreto, mangas três quartos. Um vestido que não pedia permissão para ocupar espaço.
Soltou o cabelo, deixando-o cair sobre os ombros. A maquiagem foi precisa: pele bem feita, olhos marcados na medida, batom vermelho escuro. Quando se olhou no espelho do hall, reconheceu a imagem refletida.
Uma mulher poderosa. Segura. No controle.
Mesmo que por dentro estivesse em completo desalinho.
Pegou o celular sobre a mesa de entrada. Uma mensagem de Gael piscava na tela, enviada às 18h15.
Gael: Carro te pega às 19h15. Mal posso esperar.
Nenhuma menção aos europeus. Nenhum detalhe profissional. Apenas aquilo.
Elisa franziu os lábios. Digitou uma resposta curta, apagou. Tentou algo mais formal, apagou novamente. Por fim, enviou apenas um emoji de positivo.
Não daria mais do que isso. Ainda não.
Do outro lado da cidade, no apartamento de cobertura em Moema, Gael encarava o próprio reflexo no espelho do closet como se estivesse em confronto silencioso consigo mesmo.
Dormira pouco. Talvez três horas, no máximo. O restante da noite fora passada olhando para o teto, o corpo inquieto, a mente girando em torno de uma única imagem: Elisa.
A forma como ela dominara a sala do board naquela tarde. Confiante, articulada, absolutamente dona do espaço. O jeito como sustentara o olhar dele depois, sem submissão, sem hesitação. Como se dissesse, em silêncio, que não fora comprada junto com a empresa.
Ele não estava acostumado àquilo.
Desejo sempre fora simples para ele. Direto. Satisfatório. Mas Elisa não se encaixava em nenhuma categoria conhecida. Ela era resistência, inteligência, força. Um desafio vivo.
E, para sua própria surpresa, ele queria mais do que o corpo dela.
Queria atravessar aquela armadura cuidadosamente construída. Ver o que havia por baixo. Queria que ela o quisesse com a mesma intensidade que ele sentia agora, quase desconfortável.
Às cinco da manhã, incapaz de permanecer na cama, levantara e mergulhara no trabalho. E-mails, contratos, calls internacionais. O Japão, a Europa, números e estratégias. Qualquer coisa que ocupasse espaço suficiente para afastar o pensamento dela.
Não funcionara.
O dia inteiro fora uma espera disfarçada de produtividade. Cada vez que passava pela parede de vidro da sala de Elisa, sentia o peito apertar. Cada troca mínima — o bom-dia contido, a apresentação impecável, o toque rápido no braço — alimentava um fogo que ele não se dava ao trabalho de apagar.
Agora, às 19h05, vestia-se com cuidado incomum. Camisa social preta, sem gravata. Paletó cinza-escuro. Ajustou os punhos, passou a mão pelo cabelo, conferiu o relógio.
O carro já devia estar a caminho do prédio dela.
Pegou o celular, hesitou por alguns segundos, os dedos pairando sobre a tela. Pensou em mandar outra mensagem. Algo casual. Algo que a deixasse saber que ele estava pensando nela.
Desistiu.
Preferia o impacto do encontro.
Os parceiros europeus existiam, claro. Um fundo de saúde de Londres, uma big pharma alemã. Conversas importantes, investimentos possíveis. Mas o verdadeiro foco da noite era outro.
Queria vê-la fora do ambiente corporativo. Sem o escudo do escritório, sem a formalidade das reuniões. Queria testar até onde aquela tensão os levaria antes que alguém recuasse.
Sorriu para o próprio reflexo. Um sorriso lento, calculado, carregado de expectativa.
— Hoje à noite — murmurou — você vai ter que decidir, Elisa.
Pegou o paletó, saiu do apartamento e entrou no carro. O coração batia mais rápido do que ele estaria disposto a admitir em voz alta.
O jantar estava marcado para as 19h45.
E, embora ambos fingissem controle, nenhum deles estava preparado para o quanto aquela noite mudaria tudo.







