Mundo de ficçãoIniciar sessãoO restaurante escolhido por Gael não era apenas um lugar para jantar. Era uma afirmação de poder.
Localizado no topo de um hotel boutique na Rua Oscar Freire, o espaço parecia suspenso acima da cidade. As paredes de vidro revelavam São Paulo cintilando lá embaixo, enquanto jardins verticais iluminados por luz âmbar criavam a sensação de um refúgio secreto. Ali não havia mesas apertadas nem conversas altas. Tudo era pensado para privacidade, discrição e exclusividade.
Executivos importantes, artistas discretos, pessoas acostumadas a decisões que mudavam destinos. O tipo de ambiente onde acordos eram fechados sem papel e promessas valiam mais do que assinaturas.
Elisa chegou às dezenove e cinquenta e cinco, como sempre. Pontual demais para quem não queria demonstrar nervosismo.
Vestia um vestido preto justo, elegante, de linhas simples, com um decote discreto nas costas que revelava mais do que mostrava. O tecido abraçava seu corpo com sobriedade e intenção. Ela odiava admitir, até para si mesma, mas escolhera aquela roupa pensando também em Gael. Não para seduzi-lo. Para não se sentir em desvantagem.
O maître a reconheceu imediatamente e a conduziu até a mesa reservada no canto mais isolado do salão.
Gael já estava lá.
De pé, próximo à mesa, falava ao telefone em japonês fluente, a voz baixa e firme. A postura era relaxada, segura. O tipo de homem que não precisava elevar o tom para ser obedecido.
Quando a viu, encerrou a ligação com naturalidade.
— You have my word — disse, antes de desligar.
Virou-se para ela com um sorriso lento, calculado.
— Você está deslumbrante — murmurou, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
Ele se aproximou e beijou sua bochecha. Não foi um beijo social comum. Houve proximidade demais. Um segundo a mais do que o aceitável. O perfume amadeirado dele a envolveu como uma lembrança que ela ainda não tinha, mas já reconhecia.
— Obrigada — respondeu Elisa, controlando a respiração. — É só trabalho, lembra?
Gael sorriu, divertido.
— Claro. Mas trabalho não precisa ser… entediante.
Ele puxou a cadeira para ela e, ao sentar-se, escolheu a lateral da mesa, não a frente. Um detalhe pequeno, mas estratégico. Reduzia a distância. Criava intimidade.
— Tanaka-san atrasou um pouco — explicou, chamando o garçom com um gesto sutil. — Trânsito na Marginal. Vamos pedir algo enquanto esperamos.
Pediu uma garrafa de sake premium para a mesa e água com gás para ela, sem perguntar. Elisa percebeu. Ele observava. Lembrava.
— Posso perguntar uma coisa? — disse ela, aceitando o copo.
— Você pode perguntar o que quiser.
— Por que eu? — Ela o encarou diretamente. — Você tem executivos experientes, diretores internacionais. Pessoas que poderiam impressionar um investidor japonês muito melhor do que eu.
Gael inclinou-se levemente, apoiando o antebraço na mesa. A voz ficou mais baixa.
— Porque Tanaka não investe apenas em números. Ele investe em pessoas. — Fez uma pausa. — E você é a alma do produto. Ele quer ouvir da criadora por que essa IA importa. Além disso… — os olhos dele escureceram um pouco — eu queria você aqui.
O silêncio entre eles ficou carregado.
— Misturar negócios com… isso — disse Elisa, indicando o espaço invisível entre eles — costuma dar errado.
— Ou muito certo — respondeu ele, sem desviar o olhar.
A chegada do senhor Tanaka interrompeu o momento como uma lâmina precisa.
Baixo, elegante, cabelo grisalho impecável, o investidor japonês cumprimentou-os com reverência e sentou-se. A conversa iniciou em inglês, com Gael traduzindo nuances culturais e termos técnicos para o japonês quando necessário.
Elisa apresentou os dados clínicos com clareza. Falou sobre diagnósticos oncológicos, redução de erros médicos, impacto em regiões com poucos especialistas. Tanaka ouvia atento, anotando em um pequeno caderno de couro.
No segundo prato, ele a observou com mais atenção.
— Senhorita Beaumont — disse, direto — por que vendeu sua empresa?
A pergunta caiu como um peso inesperado. Gael não interveio. Apenas observou.
Elisa respirou fundo.
— Porque eu precisava salvar a tecnologia… e as pessoas que acreditaram nela. — A voz saiu firme, mas honesta. — Sozinha, eu não conseguiria escalar rápido o suficiente. Com os recursos da D’Avila Capital, conseguimos salvar vidas em escala real.
Tanaka sorriu.
— Honestidade. — Ele assentiu. — Muitos fingem que vender foi escolha estratégica. Você admite que foi necessidade. Isso mostra caráter.
Gael levantou o copo discretamente, em aprovação silenciosa.
Quando a sobremesa chegou, Tanaka fez um brinde.
— Proponho um acordo preliminar. Trinta milhões de dólares por quinze por cento da divisão asiática. Exclusividade no Japão por três anos.
Gael não hesitou.
— Aceitamos os termos gerais.
Tanaka despediu-se satisfeito pouco depois.
Quando ficaram sozinhos, o ambiente mudou. O salão estava mais vazio. A música, mais baixa. A cidade, distante.
— Você foi perfeita — disse Gael, virando-se para Elisa. — Ele não costuma decidir tão rápido.
— Eu só falei a verdade.
Ele apoiou o braço no encosto da cadeira dela. Não tocava, mas estava perto demais para ser neutro.
— Sabe o que mais me impressionou? — perguntou. — Você salvou todo mundo… menos você mesma.
O sorriso dela foi breve, amargo.
— Nem sempre dá para salvar tudo.
— Dá — respondeu ele. — Às vezes, só precisa das pessoas certas ao lado.
O convite veio em seguida, inevitável.
— Fique mais um pouco. Um drink. Sem números. Sem investidores.
Elisa hesitou. Sabia que deveria ir embora.
Mas ficou.
O negroni chegou. O whisky também.
Os copos se tocaram.
— Às parcerias inesperadas — disse ele.
— Às que ainda estamos descobrindo — respondeu ela.
Quando Gael tocou sua mão, o gesto foi leve. Intencional. Elisa não se afastou.
— Eu não planejei isso — murmurou ele. — Comprar sua empresa, sim. Mas você…
— E agora? — perguntou ela, quase sem voz.
— Agora decidimos se continuamos fingindo.
O beijo quase aconteceu.
Quase.
Interrompido.
No hall do hotel, antes da despedida, Gael segurou seu braço com delicadeza.
— Amanhã, voltamos ao profissional — disse ele. — Mas isso aqui… não acabou.
— Não — respondeu Elisa. — Não acabou.
No carro, enquanto se afastava, ela percebeu a verdade com um arrepio.
O jantar fora um sucesso.
Mas o verdadeiro risco não estava nos contratos.
Estava neles dois.







