Capítulo 7: O Jantar Italiano

O restaurante Fasano, no Jardins, era um santuário silencioso do poder discreto. Nada ali precisava gritar status. As paredes de madeira escura absorviam as conversas como segredos bem guardados, as luzes quentes desenhavam sombras suaves sobre as mesas amplamente espaçadas, e o serviço funcionava como um relógio suíço: preciso, invisível, impecável. Era o tipo de lugar onde decisões que mudavam mercados eram tomadas entre uma taça de vinho e outra.

Gael chegara primeiro, como sempre. Pontualidade não era apenas hábito, era estratégia. Já ocupava a mesa reservada no canto mais isolado do salão principal, de onde podia observar tudo sem ser observado. O relógio marcava 19h38. Os parceiros europeus estavam previstos para as 19h45.

Ele recostou-se na cadeira, os dedos tamborilando lentamente sobre a mesa de linho. Não estava pensando nos números. Nem nos contratos. Pensava em Elisa.

Quando a viu surgir acompanhada pelo maître, às 19h42, o resto do salão simplesmente deixou de existir.

O vestido verde-esmeralda abraçava o corpo dela com uma elegância perigosa, marcando curvas sem jamais parecer excessivo. O decote em V era discreto, mas suficiente para atrair o olhar. O cabelo castanho, solto em ondas suaves, emoldurava o rosto decidido. Elisa caminhava com segurança, como quem sabia exatamente o espaço que ocupava — e o valor que tinha.

Gael levantou-se imediatamente. Não por cortesia. Por instinto.

— Você chegou — disse, a voz baixa, carregada de algo que não estava nos relatórios financeiros. Puxou a cadeira para ela, num gesto quase automático. — E está… deslumbrante.

Elisa sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário antes de responder.

— Obrigada. — Sentou-se com elegância. — Os europeus já estão aqui?

— Chegam em três minutos. Trânsito na Paulista — respondeu ele.

Mas o jeito como a observava denunciava que, naquele instante, Henrik e Anna eram apenas figurantes.

Gael serviu o vinho. Um Barolo 2016, escolhido com cuidado. Não para impressionar. Para marcar território.

— Um brinde antecipado — propôs, erguendo a taça. — Ao que essa noite pode trazer.

Elisa tocou a taça na dele, o som cristalino ecoando entre eles.

— Aos negócios, Gael.

— Aos negócios — repetiu ele, sorrindo de um jeito que contradizia completamente as palavras.

Henrik Larsen e Anna Müller chegaram pontualmente às 19h45. Henrik era alto, cabelos loiro-grisalhos bem aparados, óculos de armação fina que lhe davam um ar acadêmico. Anna, mais baixa, postura firme, cabelo platinado curto, olhar direto, quase cirúrgico. Cumprimentos formais, apertos de mão, cordialidade calculada.

A conversa rapidamente deslanchou, misturando português e inglês com naturalidade.

— Como mencionei no e-mail — começou Gael —, Elisa Beaumont é a mente por trás da tecnologia que adquirimos. Ela liderará a expansão europeia se fecharmos parceria.

Henrik virou-se para Elisa com interesse genuíno.

— Li o whitepaper da sua IA oncológica. Os dados são… impressionantes. Noventa e dois por cento de acurácia em estágios iniciais?

— Noventa e três vírgula quatro nos testes mais recentes com dataset europeu — corrigiu Elisa, sem hesitar. — E com a ampliação dos servidores, projetamos atingir noventa e cinco até o fim do trimestre.

Anna inclinou-se para frente, os olhos brilhando de interesse técnico.

— E a regulação? A EMA é rigorosa com algoritmos de diagnóstico.

— Já estamos no processo de certificação como dispositivo médico Classe IIb — respondeu Elisa. — Submetemos o dossiê preliminar em setembro. Com o apoio da BioPharm, podemos acelerar via fast-track.

A conversa se aprofundou. Números, prazos, hospitais parceiros em Londres e Munique, divisão de royalties. Gael conduzia a visão estratégica com precisão cirúrgica; Elisa sustentava cada argumento com dados sólidos e segurança absoluta. Eles funcionavam como um sistema perfeitamente calibrado.

Durante o prato principal — ossobuco para Gael e Henrik, risoto de funghi para Elisa e Anna —, Henrik fez a pergunta que pairava no ar desde o início.

— Elisa, por que vender sua empresa? Você tinha uma joia nas mãos.

Elisa trocou um olhar rápido com Gael. Um segundo apenas. O suficiente para alinhar forças.

— Porque sozinha eu levaria uma década para escalar globalmente — respondeu. — Com a D’Avila Capital, faremos isso em três anos. E vidas serão salvas mais rápido.

Anna sorriu, sincera.

— Prática e idealista. Combinação rara.

Gael observava em silêncio. Um orgulho estranho se instalava em seu peito. Elisa não era um troféu corporativo. Era uma força. E isso tornava tudo mais intenso… e mais arriscado.

Quando a sobremesa chegou — um tiramisù compartilhado —, Henrik apoiou os cotovelos na mesa.

— Estamos dentro. Quarenta milhões de euros por vinte por cento da divisão europeia. Opção de compra adicional em dois anos. E queremos Elisa como ponto focal técnico no conselho consultivo.

Gael ergueu a taça.

— Fechado, em princípio. Nossos advogados cuidam dos detalhes amanhã.

Brindes. Risadas contidas. Acordos selados com a leveza de quem sabe exatamente o peso do que acabou de decidir.

Henrik e Anna se despediram pouco depois das 22h30.

Quando ficaram sozinhos, o silêncio mudou de textura.

O salão estava mais vazio. A música mais baixa. O ar mais denso.

Gael virou-se para Elisa, a mão pousando casualmente no encosto da cadeira dela.

— Você foi brilhante. Mais uma vez.

— Nós fomos — corrigiu ela. Mas a voz saiu mais suave do que pretendia.

O joelho dele roçou o dela sob a mesa. Um toque breve. Elétrico.

— Sabe o que eu mais gostei? — murmurou. — Ver você no comando. Como se a empresa ainda fosse sua.

O coração de Elisa acelerou.

— Parte dela sempre será.

Gael inclinou-se um pouco mais, a voz baixa.

— E parte de você… quer que isso seja mais do que negócios?

Ela respirou fundo. O vinho, a adrenalina, a intensidade do dia inteiro dissolvendo defesas antigas.

— Talvez — admitiu. — Mas eu ainda não confio completamente em você.

O sorriso dele foi lento. Seguro.

— Confiança se constrói. E eu tenho tempo.

No carro, um Bentley preto de interior silencioso, a cidade passava borrada pelas janelas. O silêncio entre eles não era vazio. Era carregado.

Gael tomou a mão dela. Elisa não retirou.

— Se eu te beijar agora… você me para?

Ela virou-se, os olhos brilhando na penumbra.

— Experimente e descubra.

O beijo veio sem pressa, intenso, contido apenas pelo espaço e pelo que ainda não ousavam cruzar. Quando o carro parou em frente ao prédio dela, Elisa se afastou primeiro, ofegante.

— Isso complica tudo.

— Ou simplifica — respondeu ele, o polegar traçando o lábio dela.

Ela saiu do carro com as pernas trêmulas.

O jantar fora um sucesso absoluto.

Mas o que acontecera depois… mudara o jogo.

E nenhum dos dois queria recuar.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App