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Capítulo 2 — “Se quiser me beijar de novo, posso esperar até o intervalo~”

POV Emília

Eu dormi duas horas. Talvez três. Ou nenhuma, quem sabe. Meu corpo parecia uma casa invadida por ladrões, tudo remexido, tudo fora do lugar.

Quando acordei, ainda sentia o gosto dele na boca. O beijo. A raiva. A vergonha. A sensação de ter perdido algo que eu nem sabia que tinha.

Meu estômago embrulhou.

Eu enxuguei o rosto, prendi o cabelo de qualquer jeito e vesti o uniforme bege que eu odiava. O avental amarrotado parecia refletir a minha alma amassada. Saí correndo para o turno no café, atrasada, cansada e com o peito cheio daquela culpa idiota que acompanha a gente quando a vida implode rápido demais.

O sol da manhã bateu no meu rosto, mas não aqueceu nada. Nem pele, nem pensamento.

Eu entrei no café e o cheiro de pão fresco preencheu minhas narinas. Barulho de pratos, de gente conversando, de vida que segue. Só a minha que não seguia.

John, o dono do café, um homem gordinho, gentil até demais, me olhou do balcão e franziu as sobrancelhas.

— Emília… está tudo bem?

Eu queria dizer sim. Queria sorrir. Mas minha voz saiu como cascalho.

— Não dormi muito.

— Você está pálida — ele insistiu, preocupado. — Tá precisando de mais horas aqui ou menos?

— De mais — respondi rápido demais. — Muito mais. E também… — eu respirei fundo — indicações. De qualquer coisa. Faxina, cuidadora, limpeza… eu pego o que for.

Ele me encarou, sério.

— Isso é por causa do aviso do governo?

Eu engoli seco.

— É.

Ele suspirou pesado.

— Vou ver o que posso fazer. Talvez minha prima esteja precisando de alguém no restaurante dela…

Isla, minha colega de turno, se aproximou com a bandeja na mão.

— O que aconteceu? — ela perguntou, examinando meu rosto. — Você parece que foi atropelada por um ônibus.

— Não, só por toda a minha vida mesmo.

Os dois riram da minha piada amarga, mas não era brincadeira. E eu não tinha tempo pra desabar: a fila da manhã já estava formando uma serpente impaciente na porta.

Então eu respirei fundo, coloquei um sorriso torto no rosto e fui atender a primeira mesa.

O café estava lotado, típico de manhã de sexta-feira e meus pés queimavam antes mesmo de dar nove horas. Eu levava pratos, limpava mesas, anotava pedidos, tudo no automático. Minha mente vagava para os 30 dias que eu tinha para salvar minha existência inteira.

Até que ouvi a voz.

— Moça? Com licença? Alô? Você vai atender ou vamos envelhecer aqui?

Aquelas palavras cortaram meu pensamento.

Eu virei o rosto, irritada, pronta pra responder com alguma ironia racional e então meus olhos encontraram os dele.

Não.

Não, não, não.

Não podia ser ele.

Eu devo estar alucinando.

Ou o universo tinha um senso de humor extremamente cruel.

Mas era.

O homem do bar.

O beijo da noite passada ainda queimava nos cantos da minha boca, e meu corpo teve a AUDÁCIA de arrepia-se inteiro só de vê-lo sentado ali, elegante, impecável, com aquela expressão arrogante de quem acha que o mundo deveria se mover na velocidade dele.

Ele estava com as mangas dobradas do paletó, relógio caríssimo brilhando, cabelo perfeitamente bagunçado, olhar verde: brilhante, frio, intenso.

O tipo de homem que causa caos só respirando.

— Você? — escapou da minha boca antes que eu pudesse controlar.

Ele levantou uma sobrancelha, como se estivesse se divertindo.

— Então você me reconheceu. Que bom. Achei que seu teatrinho dramático de ontem tivesse embaralhado sua memória.

Insolente.

— O que você está fazendo aqui? — perguntei, ainda chocada.

— Tentando tomar um café da manhã. — Ele inclinou a cabeça. — Mas aparentemente o serviço desse estabelecimento é tão lento quanto seu… autocontrole.

Eu arfei.

— Desculpa a demora, senhor — forcei a voz formal. — O movimento está intenso.

— Não pareceu um problema quando você estava encarando o vazio por cinco minutos — ele ironizou.

Eu revirei os olhos.

— O que o senhor quer pedir?

Ele me olhou de cima a baixo, sem disfarçar nada. E aquilo me fez ter vontade de jogar o cardápio na cara dele.

— O que eu quero? — ele repetiu, quase num sussurro. — Esta pergunta exige uma resposta que você não está pronta para ouvir às nove da manhã.

Cara. Tinha. A. Cara. De. Pau.

Meu rosto queimava de raiva e, pra minha vergonha, de algo mais que eu não ousava nomear.

— O cardápio está na mesa — murmurei, tentando recuperar a dignidade.

— Eu não preciso do cardápio — ele murmurou, com um meio sorriso que me dava vontade de cometer crimes. — Eu vim apenas por um cappuccino. E, aparentemente, pela sua companhia.

Eu me recusei a reagir.

— Já volto — respondi seca, virando as costas.

Mas antes de eu dar dois passos, ouvi:

— Se quiser me beijar de novo, posso esperar até o intervalo.

Eu quase tropecei.

Meu corpo inteiro tremeu, de ódio, de lembrança, de raiva de mim por ter gostado daquele beijo. Eu me virei, pronta pra mandá-lo ir ao inferno.

Mas então, uma voz infantil ao lado dele cortou tudo:

— Posso levar esse? Por favor? Esse tem cobertura verde!

Eu pisquei, perdida, e olhei para o lado.

Dois meninos.

Pequenos.

Cinco anos, talvez seis.

Gêmeos.

Um deles, o que falava, tinha cabelo castanho claro, olhos verdes bem parecidos com os do homem do bar. Ele segurava um prato com um bolo confeitado. O outro… O outro ficou parado perto da mesa, escondido atrás da perna do irmão, mexendo na manga do casaco, olhando pra mim como se eu fosse um animal exótico.

A expressão dele era tão vulnerável, tão fechadinha, tão… machucada, que meu peito apertou.

— Thomas — o homem disse, com um tom de voz diferente, muito mais gentil do que qualquer coisa que ele dirigiu a mim — devagar. Você sabe que o Téo não gosta de barulho.

Téo.

O irmão silencioso.

Os olhos dele eram enormes, verdes, idênticos aos do homem, mas cheios de um tipo estranho de medo ou retração, ou coisa que eu não conseguia decifrar.

Um nó subiu na minha garganta.

Eles eram perfeitos. Eram lindos. E eram dele.

— Esse é pro Téo — Thomas explicou pra mim, sorrindo orgulhoso, como se estivesse me confiando um segredo enorme. — Ele não fala, mas ele gosta de bolo rosa.

Eu senti um impacto interno.

Aquele homem que ontem quase me arrastou pro hotel… Pai. De dois meninos.

Meu estômago virou.

O nojo veio rápido, queimando sob a pele.

— Você… — minha voz falhou — você é casado?

Ele ergueu o olhar pra mim, e algo passou pelos olhos dele... surpresa, talvez, ou irritação.

— Não — respondeu, seco. — Mas obrigado por assumir tão rápido que eu seria o tipo de canalha que trairia minha esposa com uma desconhecida em um bar.

Eu abri a boca. Fechei. Quis me enfiar dentro de uma máquina de lavar.

Ele continuou:

— Os meninos são meus filhos. Apenas meus. E isso é tudo que você precisa saber.

O silêncio entre nós ficou pesado.

Eu ainda estava tentando processar quando Thomas puxou meu avental.

— Moça, você pode embrulhar dois bolos? Um rosa e um de chocolate. É que o Téo só come se eu comer igual. Daí não dá briga, entendeu?

Eu sorri, um sorriso verdadeiro dessa vez.

— Claro que sim.

Ele sorriu de volta, e o sorriso era tão sincero que derreteu algo dentro de mim.

Enquanto eu embalava os bolos, ouvi o pai dizer baixo:

— Não encare ela assim, Thomas.

— Por quê? — o menino perguntou.

— Porque ela já está suficientemente desconfortável.

Eu quase derrubei o prato.

E então, quando eu coloquei os bolos na mesa, Téo, o menino silencioso, esticou a mão. Não para pegar o doce. Para tocar a minha. Devagar, como quem testa algo proibido. Com uma delicadeza que fez meu coração parar.

Eu congelei.

O pai deles também.

— Téo — ele murmurou, baixinho — tudo bem.

O menino apertou meus dedos. Só isso. Mas aquilo… Aquilo foi como um tic-tac quebrando dentro do pai.

Os olhos dele saíram do controle por um segundo... surpresa, choque, um brilho que parecia esperança e dor misturadas.

Eu engoli seco.

— Ele… — murmurei — ele não costuma…

— Não — elerespondeu rouco. — Ele nunca faz isso.

O mundo pareceu ficar em câmera lenta.

O homem respirou fundo, voltou para a postura arrogante habitual, como se estivesse recolocando uma máscara.

— Traga minha bebida, Emília — ele disse, formal, duro, como se eu fosse só uma funcionária.

Mas a forma como ele disse meu nome… Como se já tivesse cometido um pecado com ele. Como se quisesse cometer de novo. Meu corpo queimou.

Eu respirei fundo, tentando recuperar o controle.

E me afastei rapidamente, antes que o mundo desmoronasse de novo ou antes que eu fizesse algo estúpido, como… querer ficar perto daquele homem que só precisava existir para virar meu mundo de cabeça pra baixo.

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