Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Emília
O café foi esvaziando aos poucos. As mesas foram ficando vazias, as cadeiras empilhadas, o cheiro de café queimado substituído pelo de detergente barato. Isla cantava baixinho enquanto limpava o balcão, completamente alheia ao caos que girava dentro de mim.
Eu dobrava guardanapos com força demais. Limpava o mesmo pedaço do balcão três vezes. Estava esperando o idiota o Juan que sempre vinha me buscar no fim do turno e não quis acreditar que realmente tudo aquilo aconteceu.
— Você tá esperando alguém? — Isla perguntou, observando meu nervosismo.
— Não — menti rápido demais. — Só… distraída.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Distraída depois de salvar uma criança de ser atropelada? Normal.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Salvar Téo.
O “obrigado” sussurrado.O olhar de pai, carregado de algo que eu não soube nomear.E agora… nada.
Talvez eu tivesse imaginado tudo.
Talvez aquele olhar não significasse nada.Talvez homens como ele simplesmente seguissem em frente, acostumados a receber milagres sem agradecer.Quando o expediente terminou, tirei o avental e pendurei no gancho com cuidado excessivo, como se aquele gesto pudesse segurar minha vida no lugar.
— Emília — Isla chamou, já guardando a bolsa — ouviu falar da vaga de babá?
Meu coração deu um pulo.
— Que vaga?
— Abriu hoje à tarde. Uma família grande, muito dinheiro envolvido. Estão desesperados atrás de alguém de confiança. A namorada da minha irmã trabalha na empresa que faz a seleção. Diz que o salário é absurdo.
Eu ri sem humor.
— Isso não é pra mim.
— É pra quem precisa — Isla rebateu. — E você precisa.
Eu suspirei.
— Babá exige referências, documentos, estabilidade… eu não tenho nada disso.
— Você salvou uma criança hoje — ela deu de ombros. — Isso é mais do que muita gente pode colocar no currículo.
Algo se acendeu dentro de mim.
Não esperança.Desespero.— Você acha que… — engoli seco — acha que dá tempo?
— Claro que dá. — Isla puxou o celular. — Manda teu currículo agora. A seleção tá rápida porque eles querem alguém urgente.
Urgente.
A palavra bateu no meu peito como um aviso.
Sentei numa das mesas vazias, abri o celular com dedos trêmulos e revisei meu currículo miserável: café, entregas, trabalhos temporários, nada impressionante.
Mas, antes de enviar, acrescentei uma linha. Só uma.
Experiência informal com cuidado infantil.
Mentira.
Meia verdade.Sobrevivência.Enviei.
O telefone vibrou quase imediatamente, mas não era resposta.
Era uma mensagem automática: Currículo recebido. Retornaremos se houver interesse.
Fechei os olhos.
— Pronto — murmurei. — Agora é rezar.
— Ou xingar o universo — Isla sugeriu. — Funciona melhor.
Eu ri fraco.
Fui para casa com o céu já escurecendo, o vento cortando o rosto e a cabeça pesada de cansaço e frustração.
Quando cheguei no quarto, joguei a bolsa na cama e sentei no chão, encostando as costas na parede fria.
Foi então que o celular vibrou.
Uma vez.
Duas.Número desconhecido.
Meu coração começou a bater errado.
Atendi.
— Alô?
— Emília Sánchez? — uma voz feminina, profissional, firme.
— Sou eu.
— Aqui é da Quinn & Co. Seleção de Pessoal. Recebemos seu currículo há cerca de uma hora.
Uma hora.
— Sim — respondi, quase sem voz.
— Gostaríamos de convidá-la para uma entrevista presencial amanhã às nove da manhã. Endereço será enviado por mensagem. Confirma presença?
Meu corpo inteiro ficou quente e frio ao mesmo tempo.
— Confirmo — respondi rápido demais, com medo de que a oportunidade evaporasse. — Confirmo, sim.
— Ótimo. Seja pontual. Boa noite.
A ligação caiu.
Eu fiquei olhando para a tela apagada do celular como se fosse uma miragem.
Uma hora.
Eu ri.
Depois chorei.Depois respirei fundo.Talvez o mundo ainda não tivesse desistido de mim.
***
Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. Tomei banho frio, prendi o cabelo num coque simples, escolhi a roupa mais decente que tinha: uma calça escura, uma blusa clara, um casaco emprestado de Isla.
Nada chamativo.
Nada provocante.Nada que gritasse imigrante desesperada.Peguei o ônibus com as mãos suando, repetindo mentalmente respostas possíveis para perguntas prováveis. “Por que quer trabalhar conosco?” “Você gosta de crianças?” “Quais são seus planos futuros?”
Mentiras aceitáveis.
Verdades diluídas.O endereço ficava afastado do centro. Quanto mais o ônibus avançava, mais as ruas se tornavam silenciosas, verdes, amplas. Casas grandes. Jardins impecáveis. Um tipo de riqueza que não grita, apenas existe.
Desci no ponto indicado e senti o estômago revirar.
À minha frente, um portão de ferro alto, discreto, elegante. Um muro coberto por heras.
Meu coração quase saiu pela boca.
O interfone tocou quando apertei o botão.
Uma voz feminina respondeu.— Em que posso ajudar?
— Entrevista para vaga de babá — respondi, a garganta seca. — Emília Sánchez.
Houve uma pausa.
— Um momento.
O portão se abriu lentamente, como se estivesse me engolindo.
Cada passo que dei foi pesado. O caminho de pedras levava até uma mansão imensa, moderna, sóbria, linda de um jeito quase frio. Janelas enormes. Linhas retas. Nada acolhedor.
Nada casual.
A porta se abriu antes que eu tocasse a campainha.
E lá estava ele.
De terno escuro.
Impecável.O rosto sério.Os olhos verdes fixos em mim.O mundo parou.
— Você? — escapou da minha boca, num sussurro chocado.
Ele demorou um segundo a responder.
— Então era você — disse, baixo, controlado. — A candidata.
Meu sangue gelou.
— Você… — engoli seco — você é o empregador?
— Sou. Declan Quinn.
Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa, que pressiona, que ameaça.
— Eu não sabia — falei rápido. — Se soubesse, não teria vindo.
— Mas veio — ele rebateu, dando um passo para o lado. — Entre.
— Não — respondi, firme, apesar do medo. — Isso não é apropriado. Aquela à noite…
— Aquela noite não existe aqui dentro — ele cortou, seco. — Aqui é um processo seletivo. Profissional. Se você não consegue separar as coisas, a porta está atrás de você.
Eu hesitei.
Trinta dias.
Deportação.Nada a perder.Entrei.
A sala era enorme, clara, silenciosa demais. Uma mulher elegante, provavelmente a secretária, estava sentada com uma pasta na mão.
— Pode sentar, senhorita Sánchez — ela disse, educada.
Sentei, com as pernas tremendo.
Declan ficou em pé, encostado perto da janela, braços cruzados. Observando. Avaliando.
— Você salvou meu filho ontem — ele disse, de repente. — Isso não estava no currículo.
A secretária levantou o olhar, surpresa.
— Salvou?
— Sim — ele confirmou, sem tirar os olhos de mim.
— Foi um reflexo — murmurei. — Qualquer pessoa faria.
— Não faria — ele respondeu, firme.
A secretária anotou algo.
— A vaga exige residência no local — ela continuou. — Sigilo absoluto. Disponibilidade integral. Nenhum vínculo externo. E… — ela hesitou — algumas cláusulas adicionais.
Meu estômago se contraiu.
— Que tipo de cláusulas? — perguntei.
Declan se aproximou lentamente. Parou à minha frente.
— Cláusulas que você só aceita se estiver desesperada — ele disse, baixo. — E você está.
Raiva subiu pela minha garganta.
— Isso é chantagem.
— Isso é realidade — ele corrigiu. — Eu sei sobre seu visto.
Meu coração afundou.
— Como…?
— Eu mando investigar quem entra na minha casa.
A secretária pigarreou, desconfortável.
— Senhor Quinn…
— Pode deixar — ele disse, sem desviar o olhar de mim. — Emília, você tem duas opções: recusar agora e esperar a deportação… ou aceitar ouvir os termos completos.
Eu fechei os olhos.
Respirei fundo.
— Quais são os termos?
Um canto da boca dele se ergueu.
Não era um sorriso.Era um aviso.— Vamos conversar com calma — ele disse. — Isso é só o começo.
E naquele instante eu soube: não era uma entrevista. Era uma armadilha. E eu tinha acabado de entrar nela voluntariamente







