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Capitulo 4 -  Ser deportada… ou aceitar os termos completos?

POV Emília

O café foi esvaziando aos poucos. As mesas foram ficando vazias, as cadeiras empilhadas, o cheiro de café queimado substituído pelo de detergente barato. Isla cantava baixinho enquanto limpava o balcão, completamente alheia ao caos que girava dentro de mim.

Eu dobrava guardanapos com força demais. Limpava o mesmo pedaço do balcão três vezes. Estava esperando o idiota o Juan que sempre vinha me buscar no fim do turno e não quis acreditar que realmente tudo aquilo aconteceu.                                  

— Você tá esperando alguém? — Isla perguntou, observando meu nervosismo.

— Não — menti rápido demais. — Só… distraída.

Ela arqueou a sobrancelha.

— Distraída depois de salvar uma criança de ser atropelada? Normal.

Eu fechei os olhos por um segundo.

Salvar Téo.

O “obrigado” sussurrado.

O olhar de pai, carregado de algo que eu não soube nomear.

E agora… nada.

Talvez eu tivesse imaginado tudo.

Talvez aquele olhar não significasse nada.

Talvez homens como ele simplesmente seguissem em frente, acostumados a receber milagres sem agradecer.

Quando o expediente terminou, tirei o avental e pendurei no gancho com cuidado excessivo, como se aquele gesto pudesse segurar minha vida no lugar.

— Emília — Isla chamou, já guardando a bolsa — ouviu falar da vaga de babá?

Meu coração deu um pulo.

— Que vaga?

— Abriu hoje à tarde. Uma família grande, muito dinheiro envolvido. Estão desesperados atrás de alguém de confiança. A namorada da minha irmã trabalha na empresa que faz a seleção. Diz que o salário é absurdo.

Eu ri sem humor.

— Isso não é pra mim.

— É pra quem precisa — Isla rebateu. — E você precisa.

Eu suspirei.

— Babá exige referências, documentos, estabilidade… eu não tenho nada disso.

— Você salvou uma criança hoje — ela deu de ombros. — Isso é mais do que muita gente pode colocar no currículo.

Algo se acendeu dentro de mim.

Não esperança.

Desespero.

— Você acha que… — engoli seco — acha que dá tempo?

— Claro que dá. — Isla puxou o celular. — Manda teu currículo agora. A seleção tá rápida porque eles querem alguém urgente.

Urgente.

A palavra bateu no meu peito como um aviso.

Sentei numa das mesas vazias, abri o celular com dedos trêmulos e revisei meu currículo miserável: café, entregas, trabalhos temporários, nada impressionante.

Mas, antes de enviar, acrescentei uma linha. Só uma.

Experiência informal com cuidado infantil.

Mentira.

Meia verdade.

Sobrevivência.

Enviei.

O telefone vibrou quase imediatamente, mas não era resposta.

Era uma mensagem automática: Currículo recebido. Retornaremos se houver interesse.

Fechei os olhos.

— Pronto — murmurei. — Agora é rezar.

— Ou xingar o universo — Isla sugeriu. — Funciona melhor.

Eu ri fraco.

Fui para casa com o céu já escurecendo, o vento cortando o rosto e a cabeça pesada de cansaço e frustração.

Quando cheguei no quarto, joguei a bolsa na cama e sentei no chão, encostando as costas na parede fria.

Foi então que o celular vibrou.

Uma vez.

Duas.

Número desconhecido.

Meu coração começou a bater errado.

Atendi.

— Alô?

— Emília Sánchez? — uma voz feminina, profissional, firme.

— Sou eu.

— Aqui é da Quinn & Co. Seleção de Pessoal. Recebemos seu currículo há cerca de uma hora.

Uma hora.

— Sim — respondi, quase sem voz.

— Gostaríamos de convidá-la para uma entrevista presencial amanhã às nove da manhã. Endereço será enviado por mensagem. Confirma presença?

Meu corpo inteiro ficou quente e frio ao mesmo tempo.

— Confirmo — respondi rápido demais, com medo de que a oportunidade evaporasse. — Confirmo, sim.

— Ótimo. Seja pontual. Boa noite.

A ligação caiu.

Eu fiquei olhando para a tela apagada do celular como se fosse uma miragem.

Uma hora.

Eu ri.

Depois chorei.

Depois respirei fundo.

Talvez o mundo ainda não tivesse desistido de mim.

***

Na manhã seguinte, acordei antes do despertador. Tomei banho frio, prendi o cabelo num coque simples, escolhi a roupa mais decente que tinha: uma calça escura, uma blusa clara, um casaco emprestado de Isla.

Nada chamativo.

Nada provocante.

Nada que gritasse imigrante desesperada.

Peguei o ônibus com as mãos suando, repetindo mentalmente respostas possíveis para perguntas prováveis. “Por que quer trabalhar conosco?” “Você gosta de crianças?” “Quais são seus planos futuros?”

Mentiras aceitáveis.

Verdades diluídas.

O endereço ficava afastado do centro. Quanto mais o ônibus avançava, mais as ruas se tornavam silenciosas, verdes, amplas. Casas grandes. Jardins impecáveis. Um tipo de riqueza que não grita, apenas existe.

Desci no ponto indicado e senti o estômago revirar.

À minha frente, um portão de ferro alto, discreto, elegante. Um muro coberto por heras. 

Meu coração quase saiu pela boca.

O interfone tocou quando apertei o botão.

Uma voz feminina respondeu.

— Em que posso ajudar?

— Entrevista para vaga de babá — respondi, a garganta seca. — Emília Sánchez.

Houve uma pausa.

— Um momento.

O portão se abriu lentamente, como se estivesse me engolindo.

Cada passo que dei foi pesado. O caminho de pedras levava até uma mansão imensa, moderna, sóbria, linda de um jeito quase frio. Janelas enormes. Linhas retas. Nada acolhedor.

Nada casual.

A porta se abriu antes que eu tocasse a campainha.

E lá estava ele.

De terno escuro.

Impecável.

O rosto sério.

Os olhos verdes fixos em mim.

O mundo parou.

— Você? — escapou da minha boca, num sussurro chocado.

Ele demorou um segundo a responder.

— Então era você — disse, baixo, controlado. — A candidata.

Meu sangue gelou.

— Você… — engoli seco — você é o empregador?

— Sou. Declan Quinn.

Silêncio.

O tipo de silêncio que pesa, que pressiona, que ameaça.

— Eu não sabia — falei rápido. — Se soubesse, não teria vindo.

— Mas veio — ele rebateu, dando um passo para o lado. — Entre.

— Não — respondi, firme, apesar do medo. — Isso não é apropriado. Aquela à noite…

— Aquela noite não existe aqui dentro — ele cortou, seco. — Aqui é um processo seletivo. Profissional. Se você não consegue separar as coisas, a porta está atrás de você.

Eu hesitei.

Trinta dias.

Deportação.

Nada a perder.

Entrei.

A sala era enorme, clara, silenciosa demais. Uma mulher elegante, provavelmente a secretária, estava sentada com uma pasta na mão.

— Pode sentar, senhorita Sánchez — ela disse, educada.

Sentei, com as pernas tremendo.

Declan ficou em pé, encostado perto da janela, braços cruzados. Observando. Avaliando.

— Você salvou meu filho ontem — ele disse, de repente. — Isso não estava no currículo.

A secretária levantou o olhar, surpresa.

— Salvou?

— Sim — ele confirmou, sem tirar os olhos de mim.

— Foi um reflexo — murmurei. — Qualquer pessoa faria.

— Não faria — ele respondeu, firme.

A secretária anotou algo.

— A vaga exige residência no local — ela continuou. — Sigilo absoluto. Disponibilidade integral. Nenhum vínculo externo. E… — ela hesitou — algumas cláusulas adicionais.

Meu estômago se contraiu.

— Que tipo de cláusulas? — perguntei.

Declan se aproximou lentamente. Parou à minha frente.

— Cláusulas que você só aceita se estiver desesperada — ele disse, baixo. — E você está.

Raiva subiu pela minha garganta.

— Isso é chantagem.

— Isso é realidade — ele corrigiu. — Eu sei sobre seu visto.

Meu coração afundou.

— Como…?

— Eu mando investigar quem entra na minha casa.

A secretária pigarreou, desconfortável.

— Senhor Quinn…

— Pode deixar — ele disse, sem desviar o olhar de mim. — Emília, você tem duas opções: recusar agora e esperar a deportação… ou aceitar ouvir os termos completos.

Eu fechei os olhos.

Respirei fundo.

— Quais são os termos?

Um canto da boca dele se ergueu.

Não era um sorriso.

Era um aviso.

— Vamos conversar com calma — ele disse. — Isso é só o começo.

E naquele instante eu soube: não era uma entrevista. Era uma armadilha. E eu tinha acabado de entrar nela voluntariamente

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