Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV EMÍLIA
Eu sempre achei que o amor fosse uma coisa simples. Daquelas que a gente alimenta com paciência, rotina, cuidado. Nada demais, nada espetacular. Só presença.
Talvez por isso eu nunca tenha percebido o momento exato em que Juan deixou de estar comigo, mesmo dormindo na mesma cama todas as noites.
Ou talvez eu soubesse. E só não queria aceitar.
Eu cheguei no apartamento com um bolo ridículo nas mãos, um bolo barato, comprado no mercado, com aquelas velas que soltam faíscas, porque eu não tinha dinheiro pra mais nada. Era nosso “aniversário de namoro”, quatro anos. Quatro anos que eu acreditava que significavam alguma coisa.
Eu estava sorrindo. Sorriso bobo, de quem ainda acha que o mundo tem espaço pra coisas pequenas.
Eu abri a porta.
E tudo que eu sabia sobre estabilidade, sobre confiança, sobre segurança… fez um barulho seco dentro de mim, tipo vidro quebrando.
Juan estava com outra mulher.
Não apenas beijando ou flertando.Transando.A calcinha dela pendurada na maçaneta, a blusa no chão, os gemidos ainda ecoando pela sala.
Eu fiquei parada na porta como uma completa idiota, com o bolo idiota e a vela idiota, enquanto eles continuavam, como se eu fosse invisível.
Foi ela quem me viu primeiro. Uma garota bonita, magra, um sorriso envenenado.
— Ai — ela riu, puxando o lençol pra cima — é ela?
É ela.
A namorada.
A trouxa.A coadjuvante da própria vida.Juan não parou imediatamente.
Ele desacelerou.Virou a cabeça.Fez uma expressão de incômodo.— Emília… — ele disse como se eu tivesse chegado cedo demais a alguma coisa — você podia ter avisado que viria.
— Avisado? — minha voz saiu fina, trêmula. — Hoje é nosso aniversário de namoro.
Ele riu.
— É sério isso? Emília… você é tão… tão… — ele gesticulou vagamente, como se buscasse a palavra mais cruel — conservadora. Ingênua. Você ainda acha que datas importam?
A outra riu também.
Eu queria morrer.
— Você não serve pra isso — Juan continuou, dando de ombros. — Você é limitada. Fraca. Não sabe satisfazer um homem. Nem tenta. E, honestamente… — ele me olhou de cima a baixo — pobre, sem graça, básica. A gente cresce, Emília. Você não acompanhou.
Eu ouvi.
Eu fiquei ouvindo.Cada sílaba entrando na minha pele como faca quente.Ele vestiu a camisa enquanto continuava:
— Olha, a gente estava indo pra esse fim mesmo. Eu só não queria estragar as coisas pra você, já é difícil o suficiente alguém como você manter um relacionamento aqui. Você devia agradecer.
— Agradecer? — engasguei.
— É. Antes que vire um escândalo… e chamem a polícia.
— Polícia? — eu repeti, sem entender.
E ele sorriu. Um sorriso lento, venenoso, satisfeito.
— Seu visto está atrasado, Emília. Você sabe disso. E se você surtasse, sei lá, fizesse alguma coisa irracional… — ele ergueu os ombros — eu teria que me proteger, né?
Eu juro por tudo que existe que naquele momento o chão sumiu.
— Você denunciou o meu visto? — minha voz se fragmentou.
— Ah, Emília. Não dramatiza. Só disse o que era verdade. Eles devem bater na sua porta amanhã ou depois.
Você que lute.A mulher ao lado dele riu de novo.
Algo quebrou dentro de mim. Algo profundo, talvez irrecuperável. Eu deixei o bolo cair no chão. A vela acesa apagou. Eu virei as costas e saí. Eu não chorei. Ainda não.
A dor veio depois, como um tsunami silencioso que atravessa a cidade inteira sem fazer barulho, mas arranca tudo do caminho.
***
No meu quartinho, se é que três paredes mofadas e um colchão fino podem ser chamados de “quarto”, eu finalmente desmoronei.
A notificação do governo tinha chegado antes de mim.
Um e-mail. Direto, impessoal, devastador: Vocês tem 30 dias para regularizar o status. Caso contrário, deportação.
Era real.
Juan realmente tinha me denunciado.
Eu não tinha dinheiro para renovar o visto.
Eu não tinha nenhum diploma válido ali.Eu não tinha família na Irlanda.Eu não tinha ninguém.Eu não tinha nem casa, tecnicamente, porque o aluguel venceria em poucos dias e o café onde eu trabalhava pagava quase nada.
Eu sentei no chão e chorei até a garganta arder.
E quando acabou, quando não tinha mais lágrima nenhuma, só aquele cansaço de quem perdeu algo irreversível… minha amiga Camila apareceu batendo na porta.
“Vamo beber.”
E eu, pela primeira vez em meses, não tive forças pra recusar.
***
O pub estava quente, cheio, barulhento, aquela confusão típica irlandesa de voz alta, música triste, cerveja forte e gente que esquece rápido da própria dor.
A luz âmbar das lâmpadas refletia no metal da guinness. O chão cheirava a madeira molhada. O mundo parecia meio torto, meio girando devagar. Talvez eu estivesse girando por dentro também.
— Ele te denunciou, Emília! — Camila repetia pela décima vez. — Que tipo de filho da puta faz isso?!
— Um que eu namorei quatro anos — eu murmurei, bebendo um gole grande.
— É por isso que eu sou solteira — ela respondeu. — Homem só presta pra duas coisas: te ferrar ou ferrar você.
— Não ajuda — suspirei.
— Óbvio que ajuda. — Ela ergueu o queixo na direção da pista de dança. — Olha ali. A gente vai te dar um motivo pra esquecer aquele imbecil.
E então eu vi.
Ele.
O homem mais inacreditavelmente bonito que eu já tinha visto na vida. Não de um jeito plástico.De um jeito… perigoso.
Cabelos escuros, bagunçados com perfeição. Um casaco preto pesado. O copo de whisky entre os dedos longos. O olhar de quem enxerga tudo. E naquele instante, ele me viu.
Meu coração perdeu o ritmo. Uma batida errada. Uma batida a mais. Um calor idiota na barriga.
Camila assoviou.
— Puta merda.
— Vamos embora — murmurei, já arrepiada com a própria reação.
— Vamos nada, mulher! Você viu como esse homem te olhou?
Vi. E esse foi o problema.
Ele atravessou o bar sem desviar o olhar. Com uma calma que deixava todo mundo no caminho invisível. Ele parou na minha frente. Alto. Sério. Assombrosamente seguro de si.
— Você está tentando esquecer alguém — ele disse, em inglês, mas com aquela voz grave que vibrava no osso — ou tentando ser lembrada?
Minha espinha derreteu.
— Tô tentando beber — respondi, irritada comigo mesma por tremer.
Ele sorriu, um sorriso lento, perigoso, quase cruel.
— Então deixa eu ajudar.
Ele pegou minha mão. Não pediu. Só pegou. E eu deixei. Eu… deixei. Me odiei um pouco por isso. Mas deixei.
Ele me puxou pra pista de dança. O pub inteiro pareceu recuar. As luzes ficaram mais quentes. A música virou um grave que vibrava no ar.
O homem encostou uma mão na minha cintura, firme, quente. E puxou. O corpo dele se alinhou no meu como se já nos conhecêssemos.Os dedos dele subiram pelas minhas costas, devagar. Eu senti tudo... a presença dele, a força, o perfume caro, a respiração perto demais.
Era íntimo demais pra dois desconhecidos. E era exatamente por isso que eu não conseguia me soltar. Ele se inclinou levemente, roçando os lábios perto da minha orelha.
— Me diga pra parar, se você quiser.
Eu não disse. Eu não consegui dizer.
E então ele me beijou.
Um beijo quente, urgente, profundo, nada parecido com o que eu tinha vivido antes. Era o tipo de beijo que faz a gente esquecer o nome, o endereço, o mês, a vida inteira.
Me perdi.
Um pouco.Talvez muito.As mãos dele apertaram minha cintura, me guiando, me segurando, me consumindo.
E quando ele afastou o rosto, ainda com a boca perto demais da minha, disse baixinho:
— Se você vier comigo agora… eu prometo que faz o seu ex virar pó.
Eu recobrei a consciência como um tapa.
Juan.
Humilhação.Dor.Trauma.Eu empurrei ele com força.
— Eu não preciso de outro lixo igual ao que eu já tive.
— Lixo? — ele arqueou a sobrancelha, intrigado. — É isso que você acha que eu sou?
— Um homem que beija desconhecidas e as chama pro hotel como se fossem fast-food?
— Eu não vejo problema — ele respondeu. — Desde que as duas partes queiram.
— Pois eu não quero.
— Sua boca disse outra coisa — ele rebateu, calmo, provocador.
Meu rosto queimou de raiva e vergonha, porque ele não estava totalmente errado.
Eu dei um passo pra trás.
— Fique longe de mim.
E saí do pub antes que o coração escapasse pela boca.







