Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Emília
A secretária fechou a pasta com cuidado demais, como quem sabe quando deve desaparecer.
— Senhor Quinn, se precisar de algo… — ela começou.
— Não vou — ele interrompeu, sem sequer olhar para ela. — Pode sair.
Não houve discussão. Só obediência.
A porta se fechou, e o silêncio caiu como um golpe calculado.
Declan Quinn permaneceu de pé por mais alguns segundos, olhando pela janela, como se eu não estivesse ali. Aquilo não era descaso — era domínio. Ele fazia isso de propósito. Homens como ele sabiam exatamente como deixar alguém desconfortável.
— Sente-se — ele disse, finalmente.
Não era um pedido.
— Prefiro ficar em pé — respondi.
Um canto da boca dele se curvou.
— Gosto de mulheres que fingem resistência — comentou, casual. — Mas geralmente sentam quando percebem que não estão no controle.
Meu estômago revirou.
— Isso não é uma entrevista — eu disse. — Mandar a secretária embora deixou isso claro.
— Ótimo — ele respondeu, virando-se. — Odeio fingimentos.
Ele se aproximou lentamente, como se estivesse acostumado a ser observado. Como se soubesse que mulheres o seguiam com os olhos — e gostassem disso.
— Meu filho falou — ele disse.
Aquilo me atingiu, mas ele não me deu tempo de reagir.
— Não uma frase bonita. Não um milagre cinematográfico. Uma palavra. Baixa. Contida. Mas suficiente.
Ele me analisava enquanto falava. Não havia emoção demais ali. Havia interesse.
— Isso não acontece por acaso — continuou. — E não acontece com qualquer mulher.
— Eu não fiz nada — respondi.
— Fez presença — ele corrigiu. — E eu reconheço isso. Reconheço mulheres que entram num ambiente e alteram o eixo das coisas.
Mulheres.
No plural.
— Então vamos ser diretos — falei. — O que você quer de mim?
Ele sorriu. Não como quem seduz. Como quem negocia.
— Quero você na minha casa. Cuidando dos meus filhos. Exclusivamente.
— Isso não explica o resto das cláusulas.
— Explica sim — ele respondeu, pegando a pasta. — Eu não misturo caos com rotina. E desejo gera caos quando é ignorado.
Meu corpo inteiro ficou alerta.
— Você está acostumado a tratar pessoas como contratos? — perguntei.
— Não — ele disse. — Só mulheres que me desejam.
Aquilo foi um tapa elegante.
— E mulheres que você deseja? — rebati.
Ele deu um passo à frente. Apenas um.
— Essas eu costumo manter por perto — respondeu. — Enquanto duram.
— Você fala de mim como se eu já tivesse aceitado.
— Ainda não — ele concordou. — Mas você vai.
— Você fala isso com muita certeza.
— Experiência — respondeu, simples. — Mulheres sempre dizem não quando estão com medo de dizer sim.
Raiva subiu quente.
— Você acha que eu sou como as garçonetes com quem flertou ontem? — disparei. — Uma distração conveniente?
O olhar dele escureceu. Não ofendido. Divertido.
— Não — ele respondeu. — Se fosse, já teria ido embora comigo. Você é diferente. Por isso exige mais… termos.
Ele abriu a pasta novamente.
— A cláusula de intimidade não é romance — explicou. — É logística. Evita tensão. Evita jogos emocionais. Evita surpresas.
— Evita humanidade — murmurei.
— Evita fraqueza — ele corrigiu.
Eu o encarei, tentando não demonstrar o quanto aquilo me abalava.
— Você não quer uma babá — falei. — Quer controle.
— Quero eficiência — respondeu. — E prazer sem complicações.
Devasso. Cru. Honesto demais.
— E se eu disser não?
Ele se aproximou o suficiente para que eu sentisse o perfume caro, o calor, a certeza.
— Então você volta para seu quarto apertado — disse, baixo. — Espera o aviso oficial. Arruma as malas. E some da vida deles… e da minha.
Ele inclinou a cabeça.
— Mas se disser sim… você fica. Ganha estabilidade. Proteção. E aprende exatamente até onde vai o meu interesse.
— E quando ele acabar? — perguntei.
— Ainda não acabou com nenhuma mulher por tédio — respondeu. — Só quando elas quiseram mais do que eu oferecia.
Aquilo doeu por razões que eu não queria admitir.
— Eu preciso pensar — disse.
— Claro — ele respondeu, tranquilo. — Pense. Mas não muito. Mulheres indecisas perdem oportunidades.
Passei por ele, com o coração acelerado demais para alguém que odiava aquele homem.
— Emília — ele chamou.
Eu parei.
— Não confunda minha franqueza com gentileza — disse. — Eu sei exatamente o que quero. A pergunta é se você aguenta lidar com isso.
Saí da sala com as pernas bambas.
Sabendo, no fundo, que ele não estava acostumado a perder.
E que eu já tinha entrado no jogo no momento em que permaneci ali tempo demais.







