Mundo ficciónIniciar sesiónEla domina todos os corpos, mas nunca o próprio coração. Ele esconde segredos que nem a eternidade pode apagar. Quando Aurora salva um estranho em uma noite chuvosa, não imagina que acabou de abrir a porta para um passado esquecido... e para um desejo que pode custar sua alma. Ele não é apenas um submisso. É um vampiro que a esperou por mais de dois séculos.
Leer másAleksei Vasiliev
Eu já vivi séculos, mas em certas noites parece que todos eles repousam sobre os meus ombros como correntes invisíveis. A eternidade não é feita de luxo, poder ou prazer. É feita de ausências. De silêncios tão profundos que ecoam mais alto do que mil vozes. Nasci sob o teto dourado da Rússia imperial, quando ainda havia neve limpa cobrindo São Petersburgo e carruagens cruzavam avenidas largas. Eu era filho de uma família nobre, herdeiro de terras e títulos que não significavam nada para mim. Tinha o coração rebelde demais para aceitar tradições e a ambição juvenil de querer o mundo. Foi nesse tempo que a vi. Uma jovem de beleza rara, com cabelos escuros e olhos que pareciam carregar a própria alvorada. Elena. Ela não pertencia ao meu círculo. Não tinha jóias caras, nem vestidos bordados em Paris. Mas tinha algo que nenhuma das mulheres do meu mundo possuía: verdade. — Vai me olhar assim por quanto tempo? — ela perguntou uma vez, com um sorriso tímido, quando nos cruzamos na praça. — Até que se canse de ser contemplada. — respondi, e ela riu, balançando a cabeça como quem não acreditava na ousadia. Eu a amei como se cada respiração dependesse dela. E talvez dependesse. Porque até então eu nunca havia sentido algo tão avassalador. Mas o destino não costuma ser generoso. Naquela mesma juventude, fui caçado por algo que não compreendia. Um vampiro antigo, faminto, me escolheu como presa. Eu lutei, ou pensei que lutei. — Corra! — gritei para Elena, antes que ele me alcançasse. — Não vou deixar você sozinho! — ela respondeu, mas eu já sentia as garras dele me prendendo. Quando seus dentes perfuraram minha pele, não houve escuridão, mas sim um clarão. O êxtase do sangue roubado e a dor de morrer se misturaram. E então veio a fome. A maldição. A eternidade. Transformado, eu caminhei pelos anos como um exilado. A sede era minha senhora, a noite minha prisão. Até que, uma década depois, voltei a encontrá-la. Aurora, ainda linda jovem, ainda viva. O mesmo rosto, o mesmo sorriso que me atormentava em sonhos. Eu deveria tê-la deixado viver sua vida. Mas o medo de perdê-la me corroeu. Eu a transformei. — O que você fez comigo? — ela gritou na primeira noite, quando percebeu o que havia se tornado. — Salvei você. — menti para me enganar. — Você me condenou, Aleksei! — seus olhos brilhavam de amor e ódio ao mesmo tempo. Ela me odiou por isso, ainda que também me amasse. Nossa vida juntos foi um incêndio, apaixonada, perigosa, insaciável. Ela me chamava de maldição e de salvação na mesma frase. E eu aceitava, porque não havia outro destino para mim além dela. Até o dia em que ela morreu em meus braços. Não pela fome, não pela eternidade, mas por acidente humano, uma cruzada de caçadores que a confundiram comigo. O corpo dela tremia quando sussurrou: — Eu não entendo você… mas eu amo você. E então o silêncio. Não importa quantas mortes já presenciei, aquela foi a única que me matou. A partir dali, a eternidade se tornou apenas deserto. Nenhum sangue, nenhum corpo submisso, nenhuma entrega preenchia o espaço que ela deixou. Eu vaguei. Séculos de vazio. Hoje começo duzentos e sessenta anos sinto o vazio obscuro da minha existência. Há noites em que até um vampiro se cansa de existir. Eu era novo quando fui transmutando, não tinha chegado aos trinta, congelei nessa imagem que muitas mulheres desejam… mas eu só desejo uma. Ela me espera na outra vida e eu vou encontrar com ela. E naquela noite chuvosa, eu decidi que não queria mais resistir. Três homens me encontraram em um beco, não por acaso. Eu os deixei me acertar. Socos, chutes, facas curtas. A dor não era nada diante da eternidade que eu carregava. Meu corpo poderia suportar. O que não suportava mais era o vazio. Eu queria a morte, se é que ela existe para alguém como eu. Quando o sangue escorreu pelo canto da boca, não lutei. Apenas fechei os olhos e deixei que viesse o fim. Mas o som de pneus freando cortou a noite. Um carro invadiu o beco, faróis intensos. Os homens recuaram, assustados, como ratos diante da chama. A porta se abriu, e a voz que eu conhecia melhor do que qualquer outra soou: — A polícia já está a caminho! Seus desgraçados, covardes. Eles fugiram em segundos. Eu, porém, fiquei imóvel, sentindo o coração, que é lento, quase parando, acelerar pela primeira vez em pouco de dois séculos. Ela caminhou até mim, saltos firmes contra o asfalto molhado. A chuva deslizava por seus cabelos escuros, grudando no rosto de pele clara. Nos olhos dela havia fúria, coragem, desprezo pelos agressores. E eu, que já não esperava nada, a vi outra vez. Não a mesma, mas tão idêntica que minha alma quase se partiu. Ela não me reconheceu, é claro. Como poderia? Sua alma havia renascido, mas sua memória não. Ainda assim… era ela. Os mesmos olhos, a mesma centelha, a mesma força que sempre me destruiu e me salvou. Os mesmos olhos, a mesma essência. A minha Elena. — Você está bem? — perguntou, agachando-se ao meu lado. O cabelo dela caiu para frente, e por um instante meu mundo se resumiu ao perfume da chuva misturado ao dela — Eu vou te levar para o hospital. Aguenta firme aí. Minha voz saiu rouca, quase um sussurro: — Hospital, seria uma péssima ideia. Ela franziu o cenho, irritada com o que considerou teimosia. — Está sangrando. Precisa de ajuda. Eu a encarei. Mesmo sem lembranças de mim, mesmo sem saber quem eu era, ela ainda vinha até mim. Ainda me salvou. E foi naquele instante que entendi, o destino não tinha acabado comigo. Não ainda. — Eu te encontrei… Elena. — deixei escapar o nome que pertenceu a ela na outra vida, mesmo sabendo que ela não entenderia. A chuva lavava meu sangue e minhas dores, mas não conseguia apagar a certeza… Elena estava ali, viva, tocando meu braço. Séculos de vazio se romperam como vidro. Eu não estava mais sozinho. E quando nossos olhos se encontraram, eu ensanguentado e ajoelhado no asfalto, soube que a eternidade acabou de me devolver aquilo que julgava perdido para sempre.Aurora Mancini Os dias seguintes viram ouro reluzindo sobre as pequenas coisas. Há fraldas, há banho, há o choro acordando a casa de madrugada. Há uma cantiga que eu não sabia que sabia. A voz sai macia sem aula nenhuma. Talvez venha das mulheres da minha família. Talvez venha da versão de mim que viveu há séculos e que agora ri, reconhecendo-se em cada gesto que faço. Eu balanço o berço e canto baixinho. Aleksei encosta na parede e me olha como se olhar fosse devoção.Klaus se revela um mestre do colo. Diz que aprendeu observando aldeias no interior há muitas décadas. Matteo faz o papel do tio barulhento que compra presentes em exagero. Às vezes, quando todos estão ocupados, eu caminho pela casa e sinto a mansão inteira se organizando ao redor de um coração do tamanho de uma mão pequena.No meu escritório, os contratos esperam. Eu os reviso com o bebê dormindo no meu peito. Sou Ceo. Sou mãe. Sou esposa. Sou dominadora quando quero. Sou submissa àquilo que escolhi que me domine. T
Aurora ManciniA vida aprendeu um novo ritmo dentro de mim. Primeiro era um sussurro. Depois virou batida. Agora, meses depois do fim do Círculo, é um tambor que dita meus dias e minhas noites. Eu caminho pela mansão e sinto a casa interagir comigo. O chão já não é frio. As janelas não parecem muralhas. Há plantas, há risos, há cheiro de pão vindo da cozinha porque Klaus insiste em assar toda manhã, dizendo que o aroma humano ajuda a espantar tristezas antigas mesmo que não precisemos comer. Matteo finge implicar, mas sempre é o primeiro a roubar um pedaço ainda quente só para fingir humanidade.Eu e Aleksei vivemos uma rotina que nunca pensei desejar. Ele me acompanha em reuniões por vídeo, silencioso, sentado no sofá do escritório. Às vezes só me olha. Outras vezes aponta com o queixo um contrato que merece ser lido pela segunda vez. Quando desligo, ele me puxa para perto e eu apoio a cabeça no peito dele. O coração lento marca o tempo de um jeito que me acalma. É como contar maré
Aleksei VasilievO galpão cheirava a fumaça, pólvora e medo. O Círculo nos cercava como hienas, mas não era o exército deles que importava. Era Andrei. Sempre ele. Um fantasma do século XIX, um traidor que escolheu a faca de prata em vez da irmandade.— De novo, Vasiliev. — disse, a voz carregada de desprezo — Sempre trazendo mulheres para a morte. É tão prazeroso te ver sangrar por um amor.Aurora, ao meu lado, segurava a faca como se tivesse nascido para ela. Havia sangue no rosto, suor nos olhos, mas firmeza no corpo. Ela não vacilou.— Eu não sou “mulheres”. Eu sou Aurora Mancini Vasiliev. E não vou morrer pelas mãos de ninguém.Eu avancei. Andrei era rápido, mas eu era mais. O choque de nossos corpos ecoou como trovão. Ele puxou correntes banhadas em prata, queimando a pele dos meus braços quando me prendeu por segundos. A dor era fogo vivo. Eu rugi e parti o ferro com as próprias mãos.Aurora atacou por trás, cortando a coxa dele. Andrei gritou, o som mais humano que já fez em s
Aurora ManciniA mansão estava silenciosa, mas dentro de mim o barulho era ensurdecedor. A noite se aproximava como um aviso. O cerco não era mais metáfora, era realidade. Andrei Sokolov e o Círculo já estavam em movimento.No salão principal, Aleksei me esperava. O corpo dele parecia esculpido na penumbra, imponente, mas os olhos denunciavam algo que raramente vi: medo. Não dele. Medo por mim.— Você não vai lutar. — ele disse, sem rodeios.Cruzei os braços, firme.— Eu vou.— Aurora… — sua voz quebrou por um segundo — se algo te acontecer…— Se algo me acontecer, você continua. — retruquei — Foi isso que você me disse no terraço, lembra? Agora, devolvo a mesma moeda.Ele respirou fundo, como se cada palavra fosse uma lâmina contra a própria pele. Klaus e Matteo se aproximaram, observando à distância, mas não interferiram. Sabiam que aquela batalha não era apenas contra o Círculo. Era também contra os nossos medos.Aleksei tentou um último apelo.— Você não entende o que significa es
Aleksei VasilievAurora já não era apenas a Ceo feroz ou a dominadora que me fez curvar os joelhos pela primeira vez em séculos.Agora ela era minha companheira de eternidade. Minha esposa.Ainda soa estranho, mesmo para alguém que caminhou entre impérios e revoluções: esposa. Uma palavra simples que carregava mais força do que todos os títulos que um vampiro pode acumular.Naquela manhã, os papéis foram assinados no cartório. Nada de igrejas, nem de véus. Apenas sua mão firme segurando a minha, seu olhar queimando como brasas, e a frase que me arrancou um sorriso:— Agora não há cláusula de contrato que te livre de mim.Sorri de volta, e meus caninos roçaram o lábio por dentro.— Eu nunca quis cláusulas. Só você.Ela revirou os olhos como sempre, mas o rubor em sua pele denunciou o quanto aquelas palavras a tocavam.Deixamos o prédio sob chuva fina. Ela segurava a bolsa como quem segura um troféu. Eu carregava dentro de mim uma certeza: Andrei Sokolov já sabia. O Círculo sentiria o c
Aurora ManciniEu sempre pensei que conhecia os limites do meu corpo. Conhecia os limites da dor, do prazer, do controle. Sempre fui senhora de mim mesma, e nos clubes, nas masmorras, nos contratos, essa era minha coroa invisível: o poder de decidir. Mas quando olhei para Aleksei naquela noite, senti que pela primeira vez não havia contrato, não havia teatro, não havia máscaras. Só a eternidade esperando que eu dissesse sim.Ele estava diante de mim com os olhos escuros, profundos, como se guardassem um século inteiro em cada piscada contida. O silêncio entre nós era uma afronta à falta de toque. Eu já tinha dito. Eu já tinha pedido. Agora restava a ele acreditar e me dar o que sempre segurou com os dentes.Aproximei-me. Toquei o peito dele. A pele fria, o coração batendo lento demais, como se o tempo fosse refém.— Aleksei… — minha voz falhou, mas insisti — eu quero.Ele fechou os olhos por um instante, e foi como se segurasse o peso do mundo. Quando os abriu, não havia mais dúvidas
Último capítulo