Mundo de ficçãoIniciar sessãoAleksei Vasiliev
No e-mail “discreto” de Aurora, há duas mensagens novas, uma da amiga Chiara, com a leveza que salva mundos: — “Almoço hoje? se disser ‘não’, mando buscar comida e faço piada ruim na sua sala.” E outra do ex-noivo, com o sorriso de cobra que atravessa tela: — “Precisamos conversar. posso ajudar.” Minhas mãos fecham, involuntárias. O impulso de esmagar algo, uma taça, um pescoço, me visita. Abro espaço e deixo que passe. Eu não moldo minha raiva. Eu a escolho. E escolho não gastar dentes com lixo. Ouço passos. O apartamento acorda do quarto para a cozinha, chinelos na madeira, água na torneira, um suspiro. Fecho o computador e encosto a porta do escritório com a suavidade que aprendi com monges e assassinos. Não me escondo, apenas não exibo. A noite ensina mais etiqueta do que salões. — Bom dia. — digo, quando ela pisa na sala, já de roupão, cabelo preso com firmeza de quem prende tudo. — Você outra vez. — responde, e o “outra vez” vem carregado de implicações e cafeína — Não te paguei para morar aqui. — Mas me permitiu ficar até descobrir se sou útil. — relembro, com um traço de ironia — Gosto de contratos. Ela inclina a cabeça. Não sei se ri por dentro, quero pensar que sim. — Útil como? — pergunta, indo direto à cafeteira italiana — Lavar a louça não basta. Por trás do ceticismo, um convite: “prove”. O mundo de Aurora se constrói sobre provas. — Informação é a sua arma, e armas precisam de manutenção. — respondo, sem me vangloriar — Há gente soprando números falsos para sua imprensa. Você sabe de alguns. Não sabe de todos. O fundo “anônimo” que bateu à sua porta usa as mesmas três famílias de empresas há dez anos, muda só a assinatura. Seu ex ainda ronda por fora, trazendo desinformação como flor murcha. Dois conselheiros estão mais preocupados com bonificação do que com expansão. E, no quarteirão, duas placas repetidas fazem ronda de madrugada. Nada de tão assustador sozinho. Juntos, ruído. Ruído vira desastre. Ela para meia colher de pó no ar. Me olha. — E você descobriu tudo isso como? — A pergunta vem nua, sem adorno. — Observando. — respondo — A noite fala, Aurora. Eu aprendi a ouvir. — A noite fala e você responde usando meu computador? — ergue a sobrancelha. — Sem tocar no que é seu. — minto o suficiente para caber num princípio — Só olhei os limites da cerca. E vi pegadas. O olhar dela escurece um tom quando percebe a palavra “seu” nos meus lábios. É um pronome que pesa aqui. — Você tem mania de dono. — ela comenta, acendendo o fogo — Não gosto. — É só insistência da alma. — devolvo — Eu a reconheci antes de entender. Mas mantenho distância, se pedir. — Peço. — ela diz. E depois — Por enquanto. O café borbulha. O cheiro amargo invade a sala com a autoridade de um tirano. Eu me afasto da luz que vaza do janelão, hábito antigo, queimadura antiga, e encosto nos limites da sombra. Ela percebe. Não comenta. A inteligência de Aurora é generosa com segredos que merecem tempo. Ao servir, a manga do roupão roça num caco invisível da pedra da bancada. Uma linha fina de vermelho brota na pele do pulso, quase nada. Quase tudo. O cheiro surge como uma nota pura no meio de uma orquestra suja. E o meu corpo inteiro, que aprendeu a ser estátua, quer se curvar em animal. A garganta contrai. As presas pressionam a carne por dentro, pedem. O pulso dela pulsa uma vez, duas, três. Sei que bastaria avançar meio passo, segurar-lhe o braço, lamber a ferida com cuidado e dizer: “Desculpe. Só um segundo. Depois eu paro.” Sei que ela recuaria, furiosa, com o medo certo e a raiva mais certa ainda. Sei que eu a perderia. — Cuidado. — digo, e a voz sai mais grave do que pretendi — A bancada morde. Ela olha, vê a gota, lava a pele sob a torneira. A água leva minha tentação embora como se a noite pudesse ser lavada. — Obrigada. — diz, simples, secando o pulso com papel. — Sempre. — respondo. Ela me estuda por acima da xícara. Talvez tenha visto o brilho incômodo nos meus olhos, talvez o tenha confundido com insônia. — De quanto “sempre” estamos falando, Aleksei? — pergunta, como quem testa as paredes da cela e do templo. — Do tipo que carrega séculos nas costas e ainda assim promete mais um dia. — respondo — Mas não precisa acreditar. Precisa só… sentir quando algo vier. E virá. Ela bebe, percebe o amargor, aprecia. B**e a xícara no pires com delicadeza e volta a me cercar com perguntas cortantes, números, datas, nomes. Respondo o que é seguro responder. Ela coletará o resto sozinha, gosto disso nela. Não quer atalhos. Quer duração. — Você me vigia quando durmo? — dispara, por fim. — Sim. — digo, e não ofereço desculpas. — Por quê? — Porque a noite é vasta, e gente pequena faz coisas grandes quando pensa que ninguém vê. E porque… — deixo a palavra morrer na boca, “porque eu te amo” seria um insulto à arquitetura do momento — Porque é o único horário em que você solta a espada. O canto da boca dela treme, não sei se de irritação, ironia ou algo que prefiro não esperar. Ela se vira, apoia as mãos na bancada e respira fundo, uma vez. Depois, como quem assina um documento invisível, fala: — Se vai ficar, trabalha. Sem poesia. Sem intromissão onde eu não autorizar. Sem derrubar portas. Fatos. — Fatos. — repito. Escrevo mentalmente o que já cumpro: varrer o quarteirão, auditar números que a contabilidade “pulsa”, cruzar placas, abrir um caminho falso para os jornalistas que mordem anzóis brilhantes. Tudo sem tocar no que a honra dela não permite, sua casa, seu trono, seu show. Estou aqui para ser sombra que corta. Não holofote. Ela termina o café. O sol empurra luzes brancas contra o chão da sala. Eu as contorno por hábito. Aurora percebe de novo, agora com a curiosidade de quem cataloga, não a acusação de quem julga. — Você não gosta da luz. — diz. — Gosto de você. — respondo — E fico onde for necessário para continuar gostando. — Isso não é resposta. — retruca. — É a única que posso dar hoje. Ela coleta o silêncio como se fossem dados. A cabeça inclina de leve. O dia chama. O império espera. Deixo que passe por mim rumo ao quarto, onde trocará o roupão por um terno que assina batalhas com etiqueta. Antes de desaparecer no corredor, ela lança por cima do ombro: — Se eu sangrar de novo, não ouse. — Eu não ouso. — prometo — Até você pedir. Ela não olha para trás, mas sei que ouviu. O coração dela, que ainda é humano, responde com uma batida um pouco mais forte. A minha sede responde com fogo. Eu a atravesso como quem atravessa uma igreja. Saio para a varanda, deixo a cidade me lamber com o vento frio e enumero, mais uma vez, os inimigos que ela nem imagina, os comuns e os cultos. Eles têm nomes, placas, cheiros, padrões. Eu tenho tempo, fome e ela. Aurora ressurge de terno, salto, linda. A versão diurna da mesma deusa. Passa por mim como um cometa disciplinado. — Hoje à noite, às vinte e duas, na minha sala. — diz — Traga realidade. E… não traga floreios. — Às vinte e duas. — confirmo. A porta se fecha atrás dela. A cidade gira. O sangue dela ainda queima na memória como uma nota sustentada. Sento-me onde a sombra é mais densa e abro o laptop invisível que carrego no cérebro. O jogo começa antes de o expediente abrir. O olhar que me arde não é o dos inimigos, é o dela. E queima. Eu fui forjado nisso. Eu aguento. Eu espero. Eu vigio. E quando o ritual chegar, será porque ela me escolheu, com a mesma frieza com que assina seus contratos, com a mesma febre com que fecha os olhos no escuro. Até lá, sede e silêncio. E trabalho.






