Mundo ficciónIniciar sesiónAurora Mancini
No saguão da empresa, Chiara veio em minha direção com passos urgentes e um sorriso que eu reconheço: “algo está pegando fogo”. — Mancini, quem é o modelo novo? — sussurrou, puxando meu braço — De preto, olhar de quem sabe o que faz com as mãos. Tá tudo em cima te acompanhando. — Não é modelo. — respondi, seca — É inconveniente. — Alto, olhos intensos… — ela ajeitou o cabelo, maliciosa — se esse inconveniente for curricular, me indica. — Chiara. — cortei, mas não consegui evitar o canto da boca — Foco. Sala 3, dez minutos. E… diga à segurança para não abordar ninguém do lado de fora. Ainda. Se ele continuar lá fora não terá problema. — Ainda? — ela arqueou a sobrancelha — Gosto quando tem plot. — Eu escrevo o plot. — devolvi, e entrei no elevador privativo. No reflexo da porta de aço escovado, havia dois rostos, o meu, maquiagem impecável, e, mais atrás, o dele no saguão, imóvel, olhando para cima. Não era ameaça. Era vigília. O elevador subiu. Meu coração, contra todas as regras que estabeleci para mim mesma, também. A manhã correu como guerra fria. Três reuniões, um contrato renegociado, dois telefonemas de imprensa e uma proposta indecente de um investidor que confundiu networking com flerte. Eu o congelei com um sorriso e números, nada mata desejo oportunista como uma planilha. Entre uma sala e outra, Chiara me interceptou no corredor: — Ele está lá fora ainda. Dois seguranças foram “checar”. Voltaram pálidos e… estranhamente educados. — O que aconteceu? — Nada. Foi isso. Nada. O cara olhou para eles como se soubesse os nomes, as famílias e as contas atrasadas, e agradeceu “pelo cuidado”. Eles acharam que era piada e pararam de achar. Mordi por dentro a vontade de sorrir. Irritação é um bicho cheio de dentes, mas reconhecimento é pior: morde por dentro. — Diga à equipe que façam de conta que não há ninguém. E se alguém filmar, eu demito. — Aurora… — o tom de amiga vencendo o de funcionária — tem certeza de que não é perigoso? — Perigoso sou eu. — respondi, retomando o passo — Ele? Ele é… insistente. — “Protetor.” — sussurrou uma parte minha que eu não alimentei. Às onze e cinquenta, encerrei a reunião com o conselho. O CFO me trouxe relatórios como quem traz oferenda ao altar. Eu estava pronta para ir até a janela, apontar com dedo em riste para a rua e demitir a sombra de preto com um gesto rígido, quando meu celular vibrou. Desconhecido. Atendi sem pensar. — Diga. A voz dele chegou limpa, como se soprada dentro do meu ouvido. Não perguntei como tinha meu número, não pergunto a um sol de onde vem a luz, só decido quanto deixo entrar. — “Meio-dia.” — ele disse — “Era o combinado. Se quiser que eu suma, eu sumo. Mas antes, olhe para o lado esquerdo da rua, a meia quadra da sua porta.” Fui até a janela. À esquerda, um furgão branco parado em local proibido. Nada extraordinário, até o momento em que a lateral deslizou meio centímetro e eu vi um brilho metálico, longo, cilíndrico. — “Viu?” — a voz dele — “Não é delivery. É telescópio. E não para estrelas.” Os dedos fecharam sozinhos em torno do celular. Metade de mim quis gritar com a segurança. A outra metade entendeu por que meus seguranças tinham voltado “educados”. — “E então?” — ele perguntou — “Você quer que eu suma?” Respirei. Lembrei do café perfeito, da frase insuportável sobre “manter você viva”, do rastro de sangue no estacionamento um dia desses, de todas as coincidências que não gosto de batizar. — Não suma. — respondi, com a boca seca — Mas suma agora do meu campo de visão. Não quero que ninguém associe a minha empresa a você. Nem a sua sombra. — “Entendido.” — disse, simples — “Eu fico onde você não vê.” — E outra coisa, Aleksei. — acrescentei, deixando o nome ferir as sílabas — Regras. Eu nunca peço duas vezes. — “Estou ouvindo.” Virei as costas para a janela, olhei meu reflexo no vidro: a Ceo implacável. Falei como falo ao assinar contratos que mudam mercados. — Um: você não entra na minha casa sem convite. Dois: você não toca nos meus funcionários, amigos ou negócios sem ordem expressa. Três: se eu disser “pare”, você para. Quatro: nada de frase de profeta. Somos adultos. Eu trabalho com fatos. Silêncio de um segundo. Depois, a resposta: — “Aprovado. Com uma cláusula minha.” — Está se esquecendo de com quem fala? — “Uma só: se o perigo vier, eu não peço permissão. Eu ajo. E depois você me pune como quiser.” Fechei os olhos por um instante. A descarada confiança dele, a entrega dentro da audácia. Cheirava a cena, a contrato, a… algo que eu não vou nomear em horário comercial. — Vá embora da porta do meu prédio. — concluí — E apareça na porta da minha cobertura às vinte e duas horas. Sem atrasos. Vamos negociar termos. No meu território. Do meu jeito. — “Como desejar, Senhora.” A palavra me atravessou. Desliguei. Do lado de fora, o vulto sumiu como se fosse feito de névoa. O furgão branco arrancou três minutos depois, detido no final do quarteirão pela polícia que eu mesma chamei. Às vinte e duas em ponto, a campainha tocou. Eu o esperei na sala, de terno, sem armaduras de couro, a empresária, não a dominatrix. Quis que ele entendesse: aqui, eu estabeleço a mesa. Aleksei entrou sem olhar ao redor, como se já soubesse cada linha da planta. Parou a um passo do sofá. Mãos abertas, visíveis. Eu sorri sem humor. — Bom garoto. — ironizei — Senta. Ele obedeceu. O controle é um idioma, e ele falava o meu com fluência perigosa. — Você disse que precisava me proteger. — comecei — Prove. Sem poesia. Sem destino. Fatos. Ele descreveu o furgão, a lente, o homem substituindo placas no quarteirão de trás, a rede de contas recém-criadas, palavras de quem vê no escuro. Eu fiz perguntas difíceis, ele respondeu sem hesitar. E quando eu quis saber como ele sabia, os olhos dele se firmaram um segundo a mais que o aceitável. — Digamos que a noite… fala comigo. — disse. Eu poderia ter exigido a verdade inteira ali. Não exigi. O poder também é saber quando. Escrevi, de memória, uma folha de termos. Coloquei na mesa. — Você disse que é meu protetor. Se for isso, vai assinar. Se não for, essa é a sua última noite me irritando. Ele leu. Assinou sem pestanejar. Acrescentou, de próprio punho, uma linha: — “Eu interrompo o perigo sem pedir licença, e aceito as consequências nas mãos dela.” — Empurrou de volta. — E quando eu disser “pare”? — testei. — Eu paro. — respondeu — A não ser que “parar” te mate. As réplicas que eu tinha ensaiado murcharam. Uma parte em mim, a parte que quase pediu para ele ficar, ontem, inclinou a cabeça. — Última condição. — falei — Suma quando eu mandar. Apareça quando eu chamar. Ele se levantou devagar. Não se aproximou, não pediu nada. — Sim, Aurora. A forma como ele disse meu nome soou como promessa e ameaça na mesma nota. A porta se fechou atrás dele alguns minutos depois. O apartamento voltou ao silêncio caro. Fui até a janela. Lá embaixo, nada. Nem vultos, nem faróis. Voltei para a sala, sentei com o contrato nas mãos. Li a última linha novamente. A tinta ainda úmida manchou meu dedo. Eu deveria me sentir aliviada. Em vez disso, senti uma paz que não ouso admitir. Era incômodo ter a sua sombra grudada nos meus passos. Mais incômodo era imaginar a noite sem ela. Não sei de onde vem essa certeza. Só sei que, apesar da raiva, da invasão, da piada do destino… perto dele eu não me sinto insegura. E é justamente isso que me assusta.






