Mundo de ficçãoIniciar sessãoAleksei Vasiliev
Eu não durmo. A noite é o meu estado natural, a hora em que tudo o que vive desacelera e revela falhas, padrões, respirações. No apartamento de Aurora, o silêncio é precioso e caro, janelas altas, concreto, linhas limpas, o brilho do aço refletindo faíscas de cidade. Ela caiu rendida no quarto, não por exaustão física, mas por trégua mental. Há um momento em que até as rainhas guardam a coroa na gaveta e deixam o mundo do lado de fora. Eu fico do lado de dentro. Cruzo a sala até o escritório. O computador leva a assinatura dela no metal e na senha, não no código, que é impecável, mas no gesto que escolhe o gesto. É minha especialidade ver o que não foi dito. Sento-me. A tela acende meu rosto como vela antiga, e o cursor pisca como coração impaciente. — “Não é invasão se é para protegê-la?” — pergunta a parte de mim que ainda insiste em parecer humana. — É. — Eu respondo sem vergonha — E, mesmo assim, farei. Abro o calendário executivo, o mural de projetos, duas caixas de e-mail, uma formal, uma que ela julga discreta, o fluxo de mensagens do jurídico, os contratos com fornecedores, as atas internas. Também abro a pasta escondida num nome banal: arquivos_visitante. Lá, quatro PDFs com propostas “irrecusáveis” e o rastro de um fundo de investimento que finge ser neutro. Leio. A matemática é boa demais para ser honesta. Lucros projetados como promessas religiosas, como alguém iluminado demais por dentro, e eu conheço bem essa luz que cega. O rastro me leva a sobrenomes antigos, a números repetidos, a pequenas variações de IP. Alço olhos ao vidro, escuro como lago, e sorrio sem alegria: o Círculo. Eles se anunciam sempre pelo excesso ou pela moral. Aqui, escolheram o excesso travestido de eficiências. E, ao redor desse núcleo, outros nomes orbitam: o estilista ressentido que Aurora desbancou sem piedade, a ex-assistente que vazou fotos do backstage e levou um processo, um jornalista medíocre com coluna faminta, um fornecedor que j**a sujo com prazos. Inimigos comuns, de carne e vaidade. Aurora conhece alguns desses. Outros, não. Alguns só existem no prazer secreto de vê-la tropeçar. Todos, juntos, fariam uma festa se a vissem cair. — Não vão. — sussurro para a tela — Não enquanto eu existir. Volto às mensagens. O que me interessa é a costura invisível. Nos e-mails do jurídico, há um tom de “estamos prontos”, mas faltam duas peças. Nos do financeiro, a coragem deles é de vidro fino. A equipe a teme e a ama, a mistura perfeita para lealdade. Contudo, lealdade é músculo que precisa de alimento. Forneço o alimento: escrevo uma nota curta, programada para sair da caixa de entrada de um consultor que não existe, eu, elogiando o compliance interno, anexando duas capturas de tela “enviadas por engano” por um concorrente, com erros suficientes para parecerem humanas. Não é mentira, é estratégia. Fecho a janela. Me levanto e caminho até o corredor. A porta do quarto dela está encostada. A luz do corredor desenha uma luz pálida no chão de madeira. Entro sem ruído. O quarto tem cheiro de pele e perfume, um floral escuro, com fumaça, e o corpo dela repousa no lado direito da cama como quem exige espaço até quando dorme. O cabelo cai pelo travesseiro como tinta. Aproximo-me do criado-mudo. O relógio marca 03:17. O peito dela sobe pouco, desce pouco. Dormir é a única coisa que a fragiliza sem humilhar. Ela continua poderosa até no sono, porque dorme como quem decidiu: “agora, eu desço as armas”. Há uma fenda minúscula no dedo indicador, o papel cortou, horas atrás, quando ela folheou um contrato apressada demais. O sangue secou como uma assinatura antiga. Eu poderia lamber a gota seca e ler a vida inteira. Não faço. O cheiro me atinge de novo, um chamado familiar e terrível. O sangue de Aurora não é só um cheiro. É uma gramática. Ele me chama pelo nome antigo, pela promessa feita e quebrada, pela fome que não escolhi e pela fidelidade que escolhi. A sede afia os dentes por dentro, mas a lembrança de sua voz… “não agora, não assim”, me amarra ao chão. — Não tema. — sussurro, sabendo que ela não ouve — A sua escolha é a única regra. Por que a observo dormir? Porque ver um deus em repouso é aprender a perdoar a eternidade. Porque cada piscada lenta é uma prova viva de que a perdi e a encontrei, e que o mundo, apesar de tudo, ainda tem música para quem presta atenção. Porque, se a morte pretende passá-la na minha frente de novo, encontrará meus dentes. Ela mexe a mão, como se chamasse alguém em sonho. Chego mais perto, como se o gesto fosse meu. Paro a meio caminho. A noite é cruel com os impulsos. Eu, mais. No escritório, deixei ainda uma trilha silenciosa: dois alertas automáticos para palavras-chave… prata, auditoria, “parceria estratégica”, “ajuste de governança”, um rastreador de placas ao redor da torre, e três números que algo em mim reconhece como perigo, números que sempre voltam, de jeitos diferentes, como se quisessem rodar um rosário de máquinas. Volto para a sala. A janela exibe uma cidade que já foi minha inimiga e hoje é uma criança cansada nas mãos da madrugada. Eu a olho como quem conta batimentos numa artéria. Não é beleza, é estratégia. E Aurora está no centro dessa topografia como uma torre: alta, visível, cobiçada. Já a vi em campo, no dia, quando a luz fere os distraídos e os mentirosos: implacável. Reúne conselheiros como quem recolhe peças, desarma vaidades com planilhas, diz “não” como se diz “bom dia”, fecha negócios milionários sem tremer os dedos. Os homens a desejam, a temem, a conspiram. Nos corredores, ela anda como quem descarta a gravidade. Nas câmeras de segurança, brilha em 480p. Eu rio silencioso. A definição baixa maltrata a imagem, mas não a essência. E também já a vi no subterrâneo de seu mundo, a suíte. Não entrei. Olhei da soleira. O couro brilha, os metais são de boa qualidade, as cordas estão guardadas como instrumentos valiosos, há espaço, há instinto. Um lugar para impor ordem e entregar alívio. Eu sorri, não de deboche, mas de reconhecimento. Ela sempre foi essa mulher, em todas as vidas: a que funda reinos e dita leis, a que exige entrega e oferece amplitude, a que pede que o universo pare de ser medíocre ao menos por algumas horas. Agora, ela encontrou a língua que traduz o que sempre foi. Que sorte. Que perigo para quem pensa que pode usá-la contra ela. Fecho os olhos. Vejo-a em outra sala, num outro século, sem couro, sem aço, mas ainda assim soberana, as mãos nuas no meu rosto, o olhar dizendo “eu mando até quando te deixo pensar que manda”. Era o mesmo jogo sem as palavras certas. Hoje, ela tem as palavras. Eu, a fome. E ninguém mais. Um ruído me puxa de volta. Achava que não cairia em armadilhas simples. “Monitoramento ativo no perímetro”, indica a tela do meu telefone. Duas placas repetidas cruzaram o quarteirão nas últimas noites, com diferença de exatos 47 minutos. A precisão é de militar. Ou de culto. Meu sorriso desta vez é afiado. — Venham, então. — E deixo a noite afiar comigo. A porta do quarto range suave. Aurora vira o rosto no travesseiro, como se ouvisse. Talvez ouça. Alguns humanos têm um instinto que a modernidade não conseguiu domesticar. O dela é brutal e lindo. Cuidarei para que amadureça em vez de quebrar. — Durma. — digo, da soleira — Eu vigio. E vigio. Amanhece como quem pede desculpas, a cidade troca de pele, o céu clareia com preguiça. No primeiro raio, retorno ao escritório. O computador dorme como um guarda que confia. Eu não. Abro um painel de notícias, um colunista lançou uma nota venenosa sobre “expansões precipitadas” no setor de lingerie. Não cita nomes, mas aponta datas e valores que, com um passo de inferência, levam ao império de Aurora. O veneno é técnico, foi soprada por alguém que viu por cima do muro. Tomo nota.






