Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora Mancini
A música grave fazia o chão vibrar sob meus saltos, mas não era pista de dança. Era o som calculado que ecoava nas paredes de pedra, criando a atmosfera certa. A masmorra tinha cheiro de couro polido, fumaça discreta de charuto e perfume de gente que vinha ali para se despir de tudo, menos dos próprios desejos. Eu conhecia aquele lugar como conheço as palmas das minhas mãos. Sabia qual corrente precisava de reparo, qual sofá havia sido trocado na última semana, e até quais submissos entravam pela porta disfarçados de homens de negócios. A noite, todos eram reduzidos ao que realmente eram: corpos em busca de ordem. Era isso que eu dava. Ordem. Meu salto soou alto quando entrei na sala principal. Alguns olhares se ergueram de imediato, como se o simples fato de eu aparecer fosse um comando silencioso. E, de certa forma, era. Não precisava levantar a voz, nem ostentar chicotes de imediato. O poder não estava nos instrumentos. Estava em mim. — Senhora Aurora. — Um dos submissos se aproximou, de cabeça baixa, esperando instruções. Passei os dedos pelo cabelo dele, apenas o suficiente para arrepiar a nuca. — Ainda se lembra da sua palavra de segurança? — Sim, Senhora. Continuei andando, deixando-o em suspense. Gosto disso, da expectativa, do silêncio carregado de tensão, da forma como até o ar parece se curvar quando piso ali. Mas mesmo naquele ambiente que eu controlava tão bem, havia algo errado naquela noite. Algo que vibrava dentro de mim com uma intensidade diferente. Era como se houvesse um par de olhos me observando além dos que eu já comandava. Sacudi a cabeça, tentando afastar a sensação. O couro ajustava-se ao meu corpo como uma segunda pele, o batom vermelho ainda intacto, e cada passo que eu dava me lembrava que aquele era o meu reino. Mas dentro do peito, um incômodo pulsava como se anunciasse uma guerra que eu ainda não entendia. Eu era Ceo de um império. Dominatrix de uma masmorra. Rainha de tudo o que controlava. E, mesmo assim, naquela noite, por algum motivo inexplicável, senti que não era eu quem estava no comando. Fui embora me sentindo vazia, dirigindo de volta para minha “torre” acompanhando a chuva presenciei uma crueldade e não aguentei. Joguei o carro em cima de uns otários que estavam espancando um homem num beco. A respiração ainda vinha curta quando desliguei o farol e bati a porta do carro. Minhas mãos tremiam, mas escondi isso atrás do celular, como se estivesse em uma ligação de emergência. — A polícia já está a caminho! Seus desgraçados, covardes. — gritei, alto o bastante para ecoar contra as paredes molhadas do beco. Os três homens que chutavam o corpo caído se entreolharam e, em segundos, desapareceram na noite como ratos assustados. Meu peito arfava, mas eu mantive a postura. Só relaxei quando o som dos passos deles sumiu. Foi então que voltei os olhos para ele. O cabelo encharcado colava ao rosto, cobrindo quase tudo. As roupas estavam rasgadas, mas não havia sangue o bastante para justificar tanta brutalidade. Ajoelhei, ainda com o celular colado à orelha. — Você está bem? Eu vou te levar para o hospital. Aguenta firme aí. — disse, tentando analisar o estado dele. Ele ergueu a cabeça devagar. Os olhos eram escuros demais, mas brilhavam como se refletissem a pouca luz da rua. A voz dele saiu rouca, grave, estranhamente firme: — Hospital, seria uma péssima ideia. Franzi o cenho. — Está sangrando. Precisa de ajuda. — Eu te encontrei… Elena. — Está até delirando. Péssima ideia é ficar aqui no chão, debaixo de chuva. Vamos. — Tentei ajudar, mas ele parecia mais pesado do que deveria. Quando finalmente se apoiou no meu braço, uma corrente elétrica percorreu minha pele. Estranho. Eu já segurei dezenas de corpos em submissão nas masmorras, mas nenhum toque me arrepiou assim. Ele me olhou como se quisesse decifrar minha alma, e eu desviei, puxando-o em direção ao carro. — Não me olhe assim. Não vai funcionar. — resmunguei — Eu sou a salvadora aqui. A propósito, me chamo Aurora Mancini. Um sorriso breve surgiu nos lábios dele, e por um segundo me perguntei se não estava cometendo o maior erro da minha vida. Na cobertura, deixei-o apoiado contra a parede no quarto de hóspedes enquanto buscava algo no closet. Revirar o closet para procurar alguma roupa antiga do meu ex-noivo não foi exatamente agradável, mas era melhor do que vê-lo pingando água pelo apartamento inteiro. Voltei ao quarto de hóspedes, joguei a pilha de roupas na cama. — Vista isso. Banheiro por ali. — Apontei com a frieza de quem dita ordens na empresa — E, por favor, não demore. Ele segurou a camiseta preta, passou os dedos pelo tecido como se fosse uma relíquia. O olhar percorreu o quarto, os móveis, os detalhes. Não era o olhar de quem estava assustado, mas de quem reconhecia terreno. — Obrigado… Aurora. — A forma como disse meu nome fez minhas costas arrepiarem. — Não me agradeça ainda. Só aceite que deu sorte. — retruquei, cruzando os braços — Qualquer outra pessoa teria chamado a polícia e deixado você apodrecer naquela rua. Ele apenas inclinou a cabeça e desapareceu no banheiro. Enquanto esperava, me peguei refletindo no reflexo do espelho da sala de estar. O que eu estava fazendo? Trazendo um estranho para dentro do meu espaço mais íntimo? Eu, que passei cinco anos blindando cada detalhe da minha vida? Era loucura. E, ainda assim, não consegui mandá-lo embora. Quando a porta do quarto se abriu, por um instante esqueci como se respirava. Ele saiu com o cabelo ainda úmido, caindo pesado sobre os ombros largos. A camiseta que antes era do meu ex parecia feita sob medida para aquele corpo. O rosto estava limpo, revelando traços de uma beleza absurda, quase irreal. O tipo de beleza que incomoda porque parece perigosa. — Se continuar me olhando assim, vou começar a acreditar que devia ter ficado no beco. — A voz dele soou calma, mas carregada de ironia. Revirei os olhos. — Não se ache tanto. Estou apenas me perguntando se você é um modelo de revista ou um ladrão de jóias. Ele sorriu. Era um sorriso lento, seguro demais para um homem que quase foi espancado até a morte. — Não sou nenhum dos dois. Sou apenas alguém que agora… precisa proteger você. A risada escapou antes que eu pudesse me controlar. — Proteger? — Cruzei os braços — Aparentemente, eu é que protegi você. Ele deu alguns passos na minha direção, e por instinto recuei meio passo. — O que aconteceu hoje não foi acaso. — Seus olhos se fixaram nos meus, como se atravessassem camadas que nem eu mesma alcançava — Você não entende… mas eu só tenho você. Um frio percorreu minha espinha. Parte de mim quis expulsá-lo naquele instante. Parte de mim quis perguntar mais. — Você fala em enigmas como se fosse personagem de filme ruim e antigo. — Forcei o tom irônico — Vou fingir que é efeito da surra que levou. Ele não respondeu. Apenas continuou parado, a me observar. Aqueles olhos… havia algo neles que me deixava desconfortável. Como se já me conhecessem. Suspirei fundo, vencida pela exaustão. — Tudo bem. Fica essa noite. Amanhã cedo, some daqui. Virei as costas antes que ele pudesse dizer algo. Fui para o meu quarto, fechei a porta e me joguei na cama. Mas o sono não veio. No escuro, fiquei encarando o teto, ouvindo o som distante da chuva. Cada vez que fechava os olhos, lembrava do olhar dele. Era como se uma parte escondida de mim tivesse sido arrancada do silêncio e exposta. Ele era só um estranho, repeti a mim mesma. Só um homem bonito, perigoso, cheio de mistérios. Amanhã, eu o mandaria embora. Mas a verdade é que uma fagulha acesa em mim não queria que ele fosse.






