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Capítulo 2 – Rainha das Cinzas

Aurora Mancini

Dizem que sucesso é saber o que você quer e não desviar os olhos até conseguir. Eu sei o que quero. E, se tentam me distrair, eu aprendo a olhar por cima das mãos que se levantam no caminho.

— Aurora, a Vogue quer exclusividade para o drop de inverno. — diz Luiza, minha assistente, entrando com o tablet e passos medidos.

— Diga que não. Exclusividade é um vestido sob medida, eu escolho para quem costuro. — respondo, sem erguer a voz.

Ela hesita apenas um segundo, tempo suficiente para o vidro do meu escritório refletir meus próprios olhos… batom impecável, cabelo preso com precisão, terno que corta o corpo na medida exata. O skyline de Milão atrás de mim parece um colar de diamantes.

— O conselho também pediu adiantamento da apresentação financeira… — Luiza morde o lábio

— Reúna todos na sala 3 às onze. Sem celulares. Quero números, não opiniões. — digo, e fecho a agenda.

Ser temida economiza tempo. Ser respeitada economiza guerras. Eu escolhi as duas coisas.

A sala 3 é meu anfiteatro. Onze da manhã, o CFO apresenta gráficos enquanto conselheiros trocam sussurros. Interrompo no terceiro slide.

— Essa curva está bonita demais para ser verdade. — falo, apontando — Quem maquiou o CAC?

— Ninguém maquiou, Aurora. — arrisca o CFO.

— Então prove. Agora.

Silêncio. Teclados clicam, planilhas abrem como pássaros em revoada. O número “corrigido” surge e me olha de volta, meio ponto acima do tolerável. Eu sorrio sem mostrar os dentes.

— Bonito assim só joalheria. Na próxima vez, tragam o bruto. Gosto de lapidar eu mesma.

Risos nervosos. Encerramos em trinta e cinco minutos. Quando todos saem, Chiara entra como se fosse dona da sala. Ela é minha amiga desde a escola, trabalha no marketing, e é a única pessoa no prédio que me chama pelo sobrenome só para me irritar.

— Mancini, você coleciona CFOs como coleciona taças de Barolo. — provoca, jogando-se na cadeira de frente.

— O problema dos homens não é a matemática, é a coragem. — respondo.

— Ou a sua mania de exigir o impossível.

— O impossível costumo guardar para a noite.

Ela me estuda em silêncio. Chiara tem olhos gentis, e isso me desarma mais do que qualquer pergunta.

— Você tem dormido?

— Durmo quando o mundo cala. — respondo.

— E quando o mundo cala?

— Quase nunca.

Trabalho me serve de armadura. Mas armaduras pesam.

Cinco anos atrás, eu usava vestidos mais leves. Tinha um anel no dedo e um calendário com flores. Lembro da sensação do metal frio quando tirei a aliança um dia antes do casamento, e do calor da raiva quando abri o celular dele numa madrugada.

— Você mentiu pra mim esse tempo todo? — perguntei, com a voz tão calma que me assustei.

Ele respirou fundo, sempre teatral.

— Eu… precisava de algo que você não me dava.

— Honestidade?

— Eu precisava me sentir homem, Aurora. Você dominava tudo.

Eu ri. E foi um som sem humor.

— A masculinidade frágil do meu noivo me traiu com duas mulheres e um homem. Parabéns… tripla certificação. — falei, devolvendo o telefone — Você não precisava se sentir homem. Precisava se sentir vivo. Eu não ressuscito cadáver moral.

Não gritei. Não chorei na frente dele. Fechei a porta e aprendi a fechar outras coisas também. O coração foi a primeira.

A partir dali, parei de aceitar flores e comecei a desenhar regras. Os jantares românticos foram substituídos por jantares com fornecedores. As promessas, por contratos.

E, quando a noite pedia um idioma que o dia não fala, eu descia uma escada de pedra, deixava o elevador da cobertura no térreo e entrava por uma porta sem nome.

Lembro da primeira vez que pisei na masmorra elegante, de luz baixa e couro polido. Um homem estava de joelhos, alto, bonito, olhos ansiosos, as mãos apoiadas no chão. Meu salto ecoou e a sala prendeu a respiração.

— Safeword? — perguntei.

— “Âmbar”, Senhora. — respondeu.

— Você me obedece por quê?

— Porque confio que a senhora sabe o que fazer comigo.

Eu sorri. Uma parte de mim, silenciosa desde a traição, respirou de novo. O poder ali não era brutalidade, era consentimento. Era contrato. E, no contrato, eu voltei a existir.

Entre reuniões e ordens, construí uma rotina dupla. De manhã, café curto, italiano forte, contratos de sete zeros, prova de tecido que não perdoa costura torta.

À tarde, casting de modelos, revisão de campanha, uma ligação ríspida para um fotógrafo que resolveu ser artista quando eu pedi produto.

À noite, batom vermelho, luvas na altura do cotovelo, comandos que não precisam ser repetidos.

— A Vogue insistiu. — Luiza reaparece à porta no fim do dia.

— Diga que mando um lookbook de dez páginas. Nada além.

— E o conselho?

— Já entenderam. A conta b**e.

Ela sorri, aliviada.

— Você é um monstro, Aurora.

— Monstros não usam seda italiana. — digo, levantando da cadeira — Eles só vencem.

Quando o elevador da cobertura se abre, o apartamento me engole com seu silêncio caro. As janelas enormes mostram a cidade como um jogo, e por um momento eu mesma me sinto peça, a rainha que se move na diagonal e a todos corta. Tiro os sapatos, deixo o corpo afundar no sofá e olho para as mãos: firmes, precisas, solitárias.

O celular vibra. Chiara:

— “Jantar amanhã? Sem pauta, juro.”

Respondo:

— Se eu sobreviver ao dia.

Ela:

— “Você sempre sobrevive.”

Sorrio de canto. Sobreviver é fácil quando a gente aprende a não morrer por dentro.

Caminho até o quarto de dominação. Abro a gaveta onde guardo a caixa de couro: algemas, coleiras, chicotes cuidadosamente alinhados.

Passo os dedos sobre cada peça como quem lê uma história em braille. Não é violência. É tradução. É o idioma em que eu mando sem pedir desculpas.

Fecho a caixa. Amanhã, eu penso, o mundo volta a me chamar de senhora. E eu direi “sim” com a cabeça e “não” com os termos. Até lá, sou apenas eu, a mulher que transformou cinzas em coroa e descobriu que coroa pesa, mas combina com tudo.

Os eventos de moda são vitrines e arenas ao mesmo tempo. Eu caminho por eles como quem desfila um poder invisível. Os fotógrafos sabem que não sou modelo, mas sempre pedem foto. Eu deixo, porque imagem é moeda.

Naquela noite, enquanto brindava com investidores franceses, senti um arrepio que nada tinha a ver com champanhe. O ex. Ainda tão arrogante quanto antes, mesmo com as olheiras mal disfarçadas. Aproximou-se como se eu fosse uma lembrança que ele tinha direito de revisitar.

— Você parece ótima, Aurora.

Dei um gole demorado no cristal antes de responder.

— E você parece exatamente o mesmo canalha de sempre.

Ele riu, desconfortável.

— Ainda guarda rancor?

— Não. Guardo lições. — Inclinei a cabeça, firme — E a principal é nunca mais perder tempo com homens como você.

Ele tentou recuperar o charme.

— Eu te amava, sabe. Só… precisava de coisas que você não me dava.

— Dignidade, talvez? — cortei, sem levantar a voz.

— Eu precisava me sentir homem. Você mandava demais.

Meu sorriso virou arma.

— Hoje eu tenho homens que se ajoelham por escolha. E nenhum deles precisa me trair para provar masculinidade.

Deixei-o com o riso preso na garganta, e o som da minha taça marcando o passo até a saída foi o epitáfio do nosso passado.

Chiara me esperava do lado de fora, sempre no papel de amiga que lê meu silêncio.

— Preciso nem perguntar se deu confusão. — disse ela.

— Nenhuma confusão. Só um funeral em vida.

Rimos juntas, mas por dentro a cicatriz ardeu.

De volta à cobertura, sentei-me à mesa de vidro com vista para a cidade. As luzes da cidade se espalhavam como constelações artificiais.

A cada andar iluminado, uma história. A minha parecia grandiosa para quem via de fora… império de luxo, dominadora nas sombras, milionária de renome.

Mas o copo de vinho estava sozinho na mesa. Os lençóis de seda estavam frios no quarto. A caixa de couro no closet, fechada.

Peguei o celular. Uma mensagem piscava de Chiara:

— “Um dia, você vai permitir que alguém fique. Eu só espero estar viva para ver.”

Apoiei o queixo na mão e digitei de volta:

— Alguém já ficou. Só não soube. — Não enviei. Apaguei.

Levantei-me e fui até a janela. A cidade refletia no vidro, e por um segundo me vi ali: salto agulha, batom vermelho, postura ereta. Uma rainha.

Mas rainhas também governam ruínas.

— Sou a dona do meu império. — sussurrei para mim mesma — A senhora do desejo. A Rainha das Cinzas.

E nesse eco, entendi o peso que ainda carrego, o corpo sempre saciado em jogos de poder, mas o coração… ainda em silêncio.

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