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Capítulo 4 – O Intruso Permanente

Aurora Mancini

Acordei com o cheiro de café recém-passado atravessando a porta do meu quarto como quem ignora ordens. Por dois segundos, o perfume quente quase me enganou, pareceu aconchego.

No terceiro, lembrei que não havia ninguém autorizado a fazer café na minha cozinha às seis e meia da manhã. Levantei como uma flecha.

Entrei na cozinha ainda de penhoar de seda, cabelo preso num coque alto, e encontrei ele. De costas para mim, mangas arregaçadas, ombros largos desenhando a camiseta preta, olhando atentamente agora vejo tatuagens, movendo-se com a naturalidade de quem decora louças e ritmos de casa. A chaleira sibilava. A cafeteira italiana, que só eu sabia usar direito, trabalhava nas mãos dele como se tivesse nascido ali.

— Você perdeu o juízo. — anunciei, cruzando os braços — E, por extensão, perdeu a porta de saída. Pode usá-la agora.

Aleksei nem se virou. Apenas inclinou levemente a cabeça, como se meu tom fosse uma rajada de vento na noite que pertence a ele.

— O açúcar fica à esquerda, no armário alto. — disse, calmo — Mas você não usa açúcar. Gosta do amargor inteiro.

Pisquei. Eu odeio quando um estranho acerta detalhes que deveriam ser íntimos. E mais ainda quando me dá a impressão de que eu é que cheguei de visita à minha própria casa.

— Tire essa camiseta. Vista outra coisa. — Apontei com o queixo — E saia, antes que eu chame a segurança do prédio.

Ele se virou, finalmente. Os olhos muito escuros e, ainda assim, luminosos demais para aquele horário. O rosto limpo, como se a surra da noite anterior fosse apenas lembrança distante num corpo que não conhece hematomas. A voz veio baixa, mas firme, com uma suavidade que irrita.

— Eu agradeço o abrigo. E peço desculpas por invadir sua cozinha. Mas não vou embora.

— Vai. — Dei dois passos. Seda contra mármore — Agora.

— Não posso. — respondeu, e pousou duas xícaras brancas sobre o balcão — Você não entende agora, mas vai entender. Eu sou seu protetor.

Ri. Alto, quase gostoso, como quem ouve uma piada bem contada.

— Você está delirando. Eu salvei você. Se alguém é protetor nessa equação, sou eu. E eu não contratei guarda-costas.

— Mesmo que tivesse contratado, não seriam suficientes. — replicou, sem elevar a voz — Há coisas que querem o que é seu. E o que é seu, Aurora, não é só a empresa, o nome, a cobertura. É você.

O silêncio ficou denso. Eu poderia ter bancado a cínica, mas havia algo naquela frase que roçou meu estômago. Irritação disfarça medo com eficiência. Endureci a postura.

— Sabe qual é o problema de homens como você? — Fui até a pia, lavei as mãos devagar, deixando a água correr como aço — Confundem obsessão com cuidado. Invasão com proteção. Destino com desculpa para não ouvir “não”.

— Eu ouço. — disse ele — Só não obedeço quando o “não” te expõe ao risco. A propósito, me chamo Aleksei.

— Aleksei… — provei o nome na língua como se fosse vinho caro que eu decidi recusar — você passou a noite no quarto de hóspedes por acidente estatístico. Hoje de manhã, sai pela mesma porta em que entrou. E nunca mais volta.

Ele empurrou a xícara para o meu lado. O café estava perfeito. Odiei por um segundo a tentação de beber. Mantive as mãos ao lado do corpo.

— Se eu sair… — disse — ainda assim estarei do lado de fora. A diferença é que você não vai ver.

— Isso se chama perseguição. — rebati — Em alguns países, dá cadeia.

Um traço de sorriso tocou a boca dele, não de deboche, de paciência.

— Em todos os países, chama-se destino quando se trata de nós dois.

— Nós dois? — repeti, mordendo a palavra — Não há “nós”. Há eu. E um intruso permanente que precisa reaprender o que “limite” significa.

Ele respirou fundo. Foi estranho perceber que o peito dele quase não se movia.

— Dê-me uma manhã. — pediu — Se, ao meio-dia, você ainda quiser que eu suma, eu desapareço da sua vista. Mas até lá… me permita fazer o que vim fazer.

— Que é?

— Manter você viva.

A frase ficou suspensa no ar. Eu não acredito em ameaças veladas, nem em promessas heróicas. Acredito em termos.

— Meio-dia. — cedi, não pela súplica, mas pela certeza insolente com que ele me serviu café como se eu bebesse. Peguei a xícara, o aroma explodiu no ar, quente e amargo — Depois disso, você sai. E, se a minha sombra tiver a sua forma, eu corto fora.

— Entendido.

Bebi. O primeiro gole queimou a língua e acalmou o coração. Ele me observava com uma tranquilidade antiga, de quem espera marés.

— E, por favor… — acrescentei, indo em direção ao corredor — pare de falar como se a gente fosse personagem de profecia. No meu mundo, quem escreve a minha história sou eu.

— Foi isso que me trouxe até você. — respondeu.

Fechei a porta do quarto com mais força do que gostaria de admitir.

Meia hora depois, terno escuro, camisa branca, cabelo impecável. O espelho me devolveu a imagem que acostumei a amar, a mulher que ninguém derruba.

Peguei a pasta, atravessei a sala. A cozinha estava vazia, xícaras lavadas, bancada seca, nenhuma marca de homem. Por um instante, achei que ele tivesse ido embora sem teatralidades. Respirei. Talvez ainda existisse ordem no universo.

O elevador abriu. Entrei, apertei o térreo. Duas portas, um sussurro de aço, e eu já era a Ceo outra vez. O motorista trouxe o carro. Sentei no banco de trás, passei mensagens para Luiza e Chiara, revisei a pauta. O vidro espelhado da torre refletiu meu rosto e… um vulto. Familiar. Alto. De preto. Cabelos longos e platinados.

— Não. — disse em voz alta, sozinha — Não. Não ouse.

O carro desceu a rampa, pegou a avenida. Eu, que odeio olhar para trás, olhei. No retrovisor, dois faróis discretos atrás de mim. E, no ponto cego, um passo a pé, rápido, preciso, do outro lado da calçada. Ele não precisava de carro.

— Senhora? — o motorista perguntou — Rota habitual?

— Sim. — Endireitei a coluna — E… não mude a velocidade. Quem corre é quem deve. A gente não deve.

A cidade passava em blocos de vidro e concreto. Eu tentei me convencer de que era coincidência. Mas cada semáforo parecia fazê-lo aparecer em novo ângulo, no reflexo do café, na vitrine do joalheiro, na sombra que se alongava na parede de tijolos do prédio antigo. Como uma constante que minha matemática cética se recusava a aceitar.

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