Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlessandro Vitale é o Don mais temido da Camorra. Frio, violento e impossível de matar. Até o dia em que uma bala o encontra no meio do Atlântico e ele desaba ensanguentado nos braços de uma desconhecida. Isabella Rossi é a filha do seu pior inimigo. Criada para ser entregue em casamento como moeda de troca, ela foge usando um nome falso e um passaporte comprado. Não esperava salvar a vida do homem que sua família jurou destruir. Muito menos acabar trancada com ele numa cabine, com o gosto de uísque na boca e as mãos sujas do sangue dele. Eles estão bêbados. Feridos. E cheios de uma fome perigosa. Alessandro a prende contra a parede com o ombro ainda sangrando. A mão grande e suja de pólvora desce pela cintura dela, apertando com força demais. Isabella morde o lábio inferior dele para não gritar quando os dedos dele sobem por baixo do vestido. Nenhum dos dois pergunta o nome do outro. Só existe o estalo da porta trancada, o cheiro de sangue e sal, e o som úmido de pele contra pele. Na manhã seguinte, ele sumiu. Ela só tem marcas roxas no corpo e a certeza de que nada daquilo deveria ter acontecido. Meses depois, no altar, o teste de gravidez que Isabella esconde cai no chão diante de toda a família. O bebê que ela carrega é de Alessandro Vitale, o homem que deveria odiar e que agora vai reivindicar o que é dele.
Ler maisO Atlântico estava negro como tinta derramada sob o céu sem lua. O cruzeiro Mediterraneo Reale cortava as águas com a arrogância de quem acreditava ser intocável, lustre de cristal nos salões, champanhe francês a trezentos dólares a garrafa, e um silêncio de luxo que só dinheiro sujo conseguia comprar. No convés superior, Alessandro Vitale apoiava os cotovelos no parapeito de aço e observava o horizonte como se pudesse enxergar os inimigos que ainda não tinham aparecido.
Aos trinta e quatro anos, ele já era o Don da Famiglia Vitale, o braço mais temido da Camorra napolitana. Não herdara o trono. Conquistara-o. Aos dezenove, viu o pai ser executado numa emboscada em Posillipo; aos vinte e um, retaliou matando pessoalmente os três homens responsáveis e mandando as cabeças de volta numa caixa de vinhos. Aos vinte e cinco, eliminou o tio que tentou tomar o controle durante a sua ausência na Sicília. Aos trinta, consolidou o porto de Nápoles, as rotas de cocaína do Norte da África e metade dos cassinos ilegais da costa amalfitana. Quem o enfrentava sumia. Quem o traía era encontrado com a língua cortada e os olhos abertos. Alessandro não sorria em público, não perdoava e tão pouco se apaixonava. Paixões desviavam o foco e o sangue que corria nas veias dele era frio demais para isso. Naquela noite, porém, algo estava errado. O instinto que o mantivera vivo por quinze anos de guerra sussurrava atrás da orelha. Ele vestia um terno preto sob medida, a camisa branca aberta no colarinho, o coldre escondido sob a jaqueta. O uísque no copo permanecia intocado. Os olhos cinza-escuros, da cor de chumbo molhado, varriam o convés com precisão cirúrgica. Dois de seus homens estavam no salão principal. Outros três circulavam pelos corredores. Ainda assim, o ar cheirava a pólvora antes mesmo do primeiro tiro. O primeiro estampido veio da proa. O segundo estilhaçou o vidro do bar ao lado dele. Alessandro girou no mesmo instante em que a terceira bala rasgou o ar. A dor explodiu no ombro direito como se um ferro em brasa tivesse sido cravado na carne. O impacto o jogou para trás. O copo de cristal voou, estilhaçando-se no chão. Gritos ecoaram. Mulheres em vestidos de seda corriam. Homens empurravam-se. O luxo do cruzeiro transformou-se em caos em menos de três segundos. Ele tentou sacar a Beretta, mas o braço direito não respondeu. O sangue já escorria quente pela manga, grudando o tecido na pele. De repente o som seco de outro tiro. Este passou tão perto da cabeça que ele sentiu o vento quente da bala. Alessandro cambaleou, a visão turvando por um instante. Foi quando mãos firmes, pequenas, mas desesperadas, agarraram a lapela do terno dele e o puxaram com força bruta. Isabella Rossi não pensou. Só agiu. Ela estava atrás do balcão do bar do convés, escondida atrás do nome falso de Elena Bianchi, um passaporte veneziano comprado por cinco mil euros e um vestido preto simples que escondia o corpo que o pai tentava vender em casamento. Tinha fugido de Nápoles três semanas antes, embarcado no cruzeiro em Gênova com a intenção de sumir em Nova York. Agora, o homem mais perigoso que ela já vira de longe, o mesmo homem cujo nome o pai pronunciava com ódio venenoso, desabava contra ela com um buraco de bala no ombro. Isabella o arrastou para trás do balcão de mármore preto no mesmo segundo em que mais tiros estouraram acima deles. O corpo dele era pesado, sólido, feito de músculo e violência acumulada. Ela caiu de costas no chão frio do bar, e Alessandro caiu sobre ela. O impacto tirou-lhe o ar. O cheiro dele invadiu as narinas dela de uma só vez: uísque caro, suor limpo e algo metálico que só depois reconheceu como sangue. — Fica quieto — sussurrou ela, a voz rouca de adrenalina. As mãos dela pressionaram o ombro ferido com toda a força que tinha. O tecido da camisa branca já estava encharcado. O sangue escorria entre os dedos dela, quente, pegajoso e vivo. Alessandro grunhiu, com os dentes cerrados. Os olhos cinzentos encontraram os dela por um segundo, castanhos escuros, assustados e determinados. Ele não reconheceu o rosto. Não precisava. Naquele momento, só importava sobreviver. Mais tiros. Estilhaços de madeira e cristal choveram sobre o balcão. Alguém gritou em italiano, a voz estridente de puro pânico: — Sparano! È un attentato! Abbassatevi! (Atirem! É um atentado! Abaixem-se!) Outro grito veio logo em seguida, em inglês: — Shots fired! Get down! He’s hit! (Tiros! Abaixem-se! Ele foi atingido!) Passos pesados se aproximavam. Homens gritavam ordens em duas línguas, as vozes se atropelavam: — Proteggete il Don! (Protejam o Don!) — Cover him! Move! (Cubram ele! Mexam-se!) — Don Vitale! Don Vitale, dove siete?! (Don Vitale! Don Vitale, onde está?!)* — He’s bleeding out! (Ele está sangrando até a morte!) Alessandro reconheceu a voz de um de seus capos cortando o caos: — Don Vitale! Restate a terra! Stiamo arrivando! (Don Vitale! Fique no chão! Estamos chegando!) Ele tentou responder, mas a garganta só produziu um som rouco. Isabella apertou mais a ferida, o corpo dela inteiro tensionado sob o dele. O vestido preto dela estava manchado. O sangue dele já tinha atravessado o tecido fino e agora escorria entre os seios dela, quente, insistente, traçando caminhos escarlates na pele exposta pelo decote. Alessandro sentia a consciência oscilar nas bordas. Anos de guerra o tinham ensinado a reconhecer o momento em que o corpo começava a desligar. Ele forçou os olhos a permanecerem abertos, fixos no rosto da mulher desconhecida que o estava salvando. Cabelo escuro preso de qualquer jeito, pele pálida sob as luzes de emergência que agora piscavam no convés, lábios apertados de concentração. Havia algo nela, uma teimosia feroz, que o fez pensar, no meio da dor, que ela não era uma passageira comum. Fora do balcão, os tiros diminuíram. Os gritos continuavam, mas agora mais distantes, misturados ao barulho de corridas e ordens em italiano e inglês. Alessandro sentiu o peso do próprio corpo afundar. A dor no ombro latejava em ondas. A visão escurecia nas bordas. A última coisa que registrou antes da consciência falhar foi o cheiro dela, algo doce e limpo sob o metal do sangue, e a forma como o coração dela batia rápido demais contra o peito dele. O peso do corpo dele caiu completamente sobre ela; o sangue quente escorreu entre os seios dela, manchando a pele e o tecido, enquanto os gritos e os tiros ainda ecoavam no Atlântico negro. Ao fundo, mais tiros, mas o que o poderoso Alessandro Vitale não sabia é que o verdadeiro inimigo estava diante dele usando seda e sem possuir arma de fogo o dominaria para sempre.O tecido do vestido de noiva jazia em pedaços sujos aos pés de Isabella, um amontoado de cetim branco manchado de sangue seco e fresco que parecia uma confissão espalhada no chão de madeira. Ela estava nua da cintura para cima, os seios expostos ao ar frio do apartamento, a pele marcada por moretons antigos e pelo rastro quente do sangue de Alessandro que ainda não tinha secado completamente. O frio fazia os mamilos endurecerem, e ela odiava a forma como o corpo reagia mesmo ali, mesmo depois de tudo. Alessandro permanecia a poucos centímetros de distância, a faca ainda na mão boa, o ombro direito latejando sob o tecido rasgado do terno. O silêncio entre eles era denso, carregado do cheiro de sangue, suor e a tensão sexual que nenhum dos dois conseguia apagar por completo. Isabella cruzou os braços sobre o peito, tentando recuperar alguma dignidade, mas o gesto só serviu para destacar a vulnerabilidade da posição em que se encontrava.— Veste alguma coisa — ordenou Alessandro, a voz r
O carro parou em frente a um prédio discreto no coração de Brooklyn, longe dos olhares de Manhattan e ainda mais longe do alcance imediato de Lorenzo Rossi. O motorista não disse uma palavra. Apenas abriu a porta traseira e ficou de guarda enquanto Alessandro descia primeiro, o ombro direito ainda sangrando sob o tecido encharcado do terno. Isabella saiu atrás dele, o vestido de noiva rasgado até a coxa, manchado de sangue seco e fresco, o véu perdido em algum lugar entre a igreja e as ruas. O asfalto estava frio sob os pés descalços dela — os saltos tinham ficado para trás no caos. Alessandro segurou o pulso dela com a mão boa e a puxou em direção à entrada lateral do prédio, sem olhar para trás. O cheiro de pólvora, sangue e medo ainda impregnava a pele dos dois como uma segunda pele impossível de remover. O apartamento ficava no terceiro andar. Era um espaço amplo e austero, com janelas cobertas por cortinas pesadas, móveis escuros e o silêncio absoluto de um lugar preparado para
Alessandro empurrou Isabella para dentro do carro preto antes mesmo de ela processar o que acontecera. — Entra! — rosnou ele, a voz cortada pela dor. O ombro direito sangrava sem parar. O tecido do terno estava encharcado, vermelho-escuro, e gotas quentes ainda pingavam no asfalto. Isabella caiu no banco traseiro, o vestido de noiva rasgado e manchado de sangue dele. Alessandro subiu atrás dela, batendo a porta com força. O motorista acelerou antes que a porta fechasse por completo. — Vai! — gritou Alessandro para a frente. — Rua de trás. Agora! O carro arrancou com um ronco baixo e violento. Pneus cantaram no asfalto. Atrás deles, tiros ecoaram de novo. Vidros de carros estacionados estilhaçaram. Alguém gritou o nome de Rossi. Isabella estava ofegante, as mãos tremendo, o coração batendo tão forte que doía. O cheiro de sangue fresco enchia o interior do carro. Ela olhou para o ombro de Alessandro. A ferida era feia — um sulco aberto, a carne exposta, sangue escorrendo em fio con
Enquanto tiros ecoavam pela igreja de São Nicolau e o pai gritava ordens para matá-la ou recuperá-la a qualquer custo, Isabella Rossi só tinha um objetivo: sair dali viva, mesmo que isso significasse confiar no homem que a destruíra e agora a puxava pelo pulso como se ela fosse propriedade dele. A mão de Alessandro fechou no pulso dela com uma força que fez os ossos reclamarem. Antes que pudesse gritar, ele a puxou para trás do corpo, usando a própria silhueta como escudo. O cheiro de uísque, pólvora antiga e pele quente invadiu o nariz dela de uma vez — o mesmo cheiro da cabine 417. O coração batia tão forte que doía. — Fica atrás de mim — ordenou ele, a voz baixa, rouca, sem espaço para discussão. Lorenzo Rossi gritou: — Pega ela! Não deixa o Vitale sair com a minha filha! Dois capos avançaram. Um deles puxou a arma. O clique metálico ecoou alto demais na nave. Alessandro já tinha a Beretta na mão. O primeiro tiro partiu dele. O homem caiu de joelhos, a mão no ombro, sangue







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