5: MANHÃ DE CINZAS

A luz cinzenta da manhã entrou pela fresta da cortina como uma acusação. Alessandro abriu os olhos primeiro. A cabeça latejava com uma dor surda e profunda, mistura de uísque barato, perda de sangue e arrependimento. O ombro direito queimava sob o curativo tosco que mal segurava. Por um segundo, não soube onde estava. Depois a memória voltou em fragmentos cortantes: tiros, o convés, uma mulher de olhos castanhos, o gosto de sal e sangue, o corpo dela sob o dele, o som da cama batendo na parede.

Ele virou a cabeça com cuidado.

Ela dormia de bruços, o rosto virado para o lado oposto, o cabelo escuro espalhado pelo travesseiro manchado. O lençol cobria apenas até a cintura. As costas nuas estavam marcadas por arranhões vermelhos feitos pelas unhas dele, ou pelas dela, ele não lembrava com clareza. Havia uma mordida escura no ponto entre o pescoço e o ombro. O vestido preto rasgado jazia no chão, junto com a camisa ensanguentada dele e a calcinha dela.

Alessandro ficou imóvel por longos segundos, apenas observando. O peito subia e descia em respiração profunda e regular. Ela parecia jovem, frágil e perigosa demais naquela luz fria.

A desconfiança voltou antes mesmo da dor.

Elena Bianchi. Nome falso. Anel antigo. Sotaque que tentava esconder origem. E a forma como ela o salvara, ninguém salvava um Don da Camorra por bondade. Ele precisava sair dali antes que ela acordasse. Antes que fizesse perguntas. Antes que ele fizesse as perguntas erradas e descobrisse algo que o obrigasse a matá-la.

Com movimentos lentos e doloridos, Alessandro se levantou. Cada músculo protestou. O ombro sangrou de novo quando ele se curvou para pegar as calças. Vestiu-se em silêncio absoluto, os olhos nunca deixando completamente o corpo dela. Pegou a Beretta do chão, verificou o pente e a encaixou na cintura. Olhou para ela uma última vez.

Por um instante absurdo, considerou deixá-la dormindo e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Depois a razão prevaleceu. Ele não podia se dar ao luxo de fraquezas. Muito menos de mulheres que mentiam sobre o próprio nome.

Ficou de pé ao lado da cama, a mandíbula tensa, os olhos cinzentos fixos no rosto adormecido dela. A voz saiu baixa, rouca, quase um sussurro dirigido mais a si mesmo do que a ela:

— Non posso fidarmi di te, chiunque tu sia.

(Não posso confiar em você, seja lá quem for.)

Pausou, o olhar percorrendo as marcas que deixara no corpo dela.

— Sei una bugia camminante. E le bugie uccidono in questo mondo.

(Você é uma mentira ambulante. E as mentiras matam neste mundo.)

O ombro latejou com força. Ele apertou os dentes.

— Non avrei dovuto toccarti.

(Eu não deveria ter te tocado.)

Ficou em silêncio mais um segundo, como se esperasse uma resposta que não viria.

— E non posso restare.

(E não posso ficar.)

Abriu a porta com cuidado, verificou o corredor vazio e saiu sem olhar para trás. A fechadura engatilhou atrás dele com um estalo suave e definitivo.

Isabella acordou com o frio.

O lugar ao lado dela na cama estava vazio e já sem calor. Ela estendeu a mão instintivamente e encontrou apenas o lençol amassado. Os olhos se abriram devagar. A cabeça doía como se tivesse sido partida ao meio. A boca estava seca, com gosto metálico de uísque e medo. E entre as pernas uma dor surda, profunda, latejante, diferente de qualquer coisa que ela já tivesse sentido. Uma dor que não era só física. Era uma prova.

Sentou-se devagar, o lençol escorregando até a cintura. O corpo inteiro doía. As nádegas ardiam com a memória dos t***s. Havia marcas roxas nos pulsos, no formato exato de dedos grandes. Uma mordida escura no ombro, já roxeando. E sangue seco, não só o dele, manchando a parte interna das coxas como uma sentença.

A memória voltou aos poucos, como estilhaços de vidro enfiados na carne.

O uísque. A ferida. A boca dele no pescoço dela. A forma como ele a virara de bruços sem pedir. Os t***s que ardiam. Os dedos que a abriram à força. A invasão brutal que a fez gritar. O peso dele. O cheiro dele. O momento em que tudo terminou com o corpo dela tremendo e o grito abafado no ombro dele.

Isabella ficou parada no meio da cama, nua, o coração batendo tão rápido que doía no peito. Olhou em volta da cabine com pânico crescente. A camisa ensanguentada dele não estava mais no chão. As calças também não. A arma. O relógio. Tudo sumira. Só restavam o vestido rasgado dela e a calcinha destruída, jogada num canto como prova de um crime.

Ele tinha ido embora.

Sem uma palavra. Sem um olhar. Sem sequer verificar se ela ainda respirava. Como se ela fosse apenas mais uma noite que precisava ser apagada antes do nascer do sol. Como se o que acontecera entre aqueles lençóis não tivesse peso nenhum.

As mãos dela começaram a tremer tanto que ela precisou apertá-las uma contra a outra.

Ela desceu da cama com dificuldade, as pernas instáveis, quase cedendo. Cada passo enviava uma fisgada de dor entre as coxas, um lembrete cruel e íntimo. Foi até o banheiro e se olhou no espelho fluorescente. O que viu fez o estômago revirar com náusea real. Cabelo emaranhado e suado. Lábios inchados e roxos. Marcas de dedos nos quadris, fundas o suficiente para ficarem dias. A mordida no ombro, quase selvagem. E mais abaixo, na pele clara da parte interna das coxas, a evidência clara, dolorida e irreversível de que algo tinha sido tomado dela.

Foi então que a realização a atingiu com a força de um tiro.

Ela era virgem.

Vinte e seis anos. Filha do Don Lorenzo Rossi. Criada sob regras de ferro, vigiada como uma joia de família, prometida em casamento como mercadoria de alto valor. O pai sempre dissera, com a calma fria de quem discute negócios, que a pureza dela era parte do contrato. Que o futuro marido, aquele homem siciliano de mãos grossas e olhos mortos, esperava receber uma noiva intocada. Isabella tinha carregado aquilo como um peso e, ao mesmo tempo, como a única rebeldia silenciosa que ainda lhe restava: pelo menos aquela parte do corpo ainda era só dela. Ainda era uma escolha que ninguém tinha roubado.

Agora não era mais.

E o homem que tinha tomado aquilo dela no meio do uísque, da dor e do desespero, era Alessandro Vitale.

O inimigo. O monstro. O nome que o pai pronunciava com ódio venenoso à mesa de jantar. O homem cujas mãos estavam sujas do sangue de gente da família Rossi. O Don da Camorra que, segundo os sussurros, colecionava corpos como outros colecionavam relógios. E ela, bêbada, assustada e pateticamente fraca, tinha aberto as pernas para ele. Tinha gemido para ele. Tinha gozado nele. Tinha permitido que ele a marcasse por dentro e por fora.

O pavor subiu pela garganta como bile.

— Não… — sussurrou ela para o próprio reflexo, a voz falhando. — Não, não, não…

As pernas cederam de uma vez.

Isabella escorregou até o chão frio do banheiro, as costas batendo no box de vidro com um baque surdo. As mãos cobriram o rosto com força, como se pudessem esconder a vergonha do próprio corpo. O primeiro soluço saiu baixo, quase envergonhado, abafado contra a palma. O segundo foi mais forte, rasgando a garganta. Depois as lágrimas vieram sem controle, quentes, amargas, escorrendo entre os dedos enquanto o corpo inteiro tremia.

— O que eu fiz? — soluçou, a voz embargada e quebrada. — Meu Deus, o que eu fiz?

Ela chorou encolhida no chão gelado, as coxas fechadas com força inútil, a mente repetindo a mesma frase cruel em um loop sem fim:

"Você perdeu a virgindade nos braços do inimigo da sua família."

— Ele vai me matar — murmurou entre os soluços, balançando a cabeça. — Se o meu pai souber… se Alessandro souber quem eu sou…

O choro foi feio. Sem elegância. Sem dignidade. Soluços que faziam o peito arfar com dor e o ombro onde ele a mordera latejar ainda mais. Ela se odiou com uma intensidade quase física. Odiou o uísque. Odiou a própria fraqueza. Odiou o fato de que, em algum lugar sujo e escondido da memória, ainda conseguia sentir o eco da forma como ele a preenchera por completo.

— Idiota — cuspiu contra si mesma, a voz rouca de tanto chorar. — Idiota, idiota, idiota.

Odiou o medo covarde que agora a consumia: medo de ser encontrada, medo de voltar para casa e ser descoberta, medo de que Alessandro Vitale aparecesse na porta da cabine e terminasse o que começara.

Demorou muitos minutos longos e humilhantes até conseguir se acalmar o suficiente para se levantar. Lavou o rosto com água gelada até a pele arder. Evitou olhar para baixo enquanto se limpava com mãos trêmulas. Cada gesto era uma confirmação nova da violação. Voltou para o quarto cambaleando, as pernas ainda instáveis, e parou ao lado da cama desfeita como quem contempla a cena de um acidente.

O lençol estava amassado, manchado em alguns pontos com sangue seco e outras evidências que ela preferia não nomear. Mas o cheiro, ainda estava lá, impregnado, teimoso, impossível de ignorar.

Isabella estendeu a mão devagar, como se o tecido pudesse queimar a pele. Os dedos tremeram quando tocaram o algodão. Pegou uma ponta do lençol e trouxe até o rosto com um gesto quase desesperado. Fechou os olhos com força e inspirou fundo, mesmo sabendo que ia doer.

Havia uísque, suor e o metal do sangue. E por baixo de tudo, inconfundível e aterrorizante, o cheiro dele: perigoso, masculino, indisfarçável.

As lágrimas voltaram, mas agora em silêncio, escorrendo pelo rosto enquanto o medo apertava o peito como um punho.

— Por que tinha que ser ele? — sussurrou contra o tecido, a voz quase inexistente.

Ela apertou o lençol contra o rosto, e por mais que tentasse evitar, sentiu falta do cheiro de perigo e do homem que Alessandro Vitale carregava.

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