Mundo de ficçãoIniciar sessãoPrisioneira no próprio quarto há quase três semanas, Isabella Rossi enfrentava agora a pior armadilha de todas: o atraso de sete dias no ciclo que nunca falhara, a prova viva de que a noite de violência e desejo no cruzeiro com Alessandro Vitale, o inimigo jurado da família, plantou dentro dela algo que podia destruí-la antes mesmo do casamento forçado com o siciliano.
Ela sentou na beira da cama, com as pernas fechadas com força contra a madeira fria, o calendário mental girando como uma lâmina afiada. Regular como relógio suíço. Sempre. Desde a primeira menstruação aos treze anos, o corpo dela obedecia a um ritmo quase militar. Nunca teve um dia de atraso ou uma irregularidade. Até aquela noite. Até Alessandro Vitale surgir entre as sombras da cabine, com cheiro de uísque, pólvora e perigo, e transformar tudo em ruína. Na cultura da Famiglia Rossi, a honra era sangue. O nome valia mais do que a vida. As mulheres não eram filhas: eram alianças vivas, úteros destinados a selar pactos entre famílias. Isabella cresceu ouvindo isso em silêncio, durante jantares longos onde os homens falavam de negócios e as mulheres serviam vinho sem erguer o olhar. A omertà não se aplicava só aos segredos dos homens; aplicava-se também ao corpo das mulheres. Calar. Obedecer. Entregar-se quando ordenado. Qualquer desvio era lavado com sangue — o dela ou o de quem a ajudasse. A memória veio sem piedade, invadindo-a como ele mesmo fizera. O peso dele sobre o corpo dela. A mão grande prendendo os pulsos contra o colchão com força suficiente para deixar marcas roxas. O ardor dos t***s no rosto e nas coxas. A invasão profunda e sem cuidado, cada estocada uma reivindicação brutal. O gemido rouco e animal quando gozou dentro dela, quente, pulsante, sem se retirar, sem proteção, sem uma única pergunta. A certeza embriagada de que nada daquilo teria consequências. A manhã seguinte vazia. O lençol frio. O cheiro dele ainda impregnado na pele. — Por que você não saiu? — sussurrou para o quarto vazio, a voz rouca de quem já gritou demais contra portas trancadas. — Por que tinha que gozar dentro, seu filho da puta? Por que me deixou assim? O estômago revirou só de lembrar. Lorenzo a mantinha trancada como um animal perigoso. Comida duas vezes por dia, deixada na porta por uma empregada muda de tanto medo. Banho permitido sob supervisão rápida de cinco minutos. Nenhuma visita. Nenhum telefone. Nenhuma janela que abrisse o suficiente para gritar ou saltar. O anel de noivado continuava no dedo, pesado e frio, um lembrete diário de que em menos de um mês ela seria entregue ao siciliano como mercadoria. A cada dia que passava, o casamento se aproximava como uma sentença de morte. E agora o corpo gritava uma verdade que ela não queria ouvir. Na máfia, uma gravidez fora do casamento arranjado não era só um escândalo: era uma declaração de guerra. O sangue de um Vitale dentro de uma Rossi era uma ofensa mortal. Os sicilianos com quem o pai selou o acordo esperavam uma noiva pura, intacta, pronta para gerar herdeiros legítimos. Descobrir que ela carregava o filho do inimigo seria o fim de qualquer aliança. E o fim dela. Isabella passou a mão pela barriga ainda plana, pressionando com força, como se pudesse expulsar o que quer que estivesse crescendo ali. Nada. Nenhuma curva. Nenhuma diferença visível. Mas o enjoo matinal tinha começado dois dias antes — um enjoo ácido e persistente que ela tentava culpar na comida fria e no estresse. O peito doía de uma forma nova, pesada. Os mamilos estavam sensíveis demais até para o tecido fino da camisola. E o cheiro do café que a empregada deixava do lado de fora da porta agora a fazia engasgar, a náusea subindo pela garganta como veneno. Ela era a filha do Don. Criada para ser forte, para não chorar, para nunca se render. Mas naquele momento, sentada na beira da cama com as unhas ainda curtas e machucadas da noite em que arranhou a porta até sangrar, Isabella sentiu o orgulho rachar. Na manhã do oitavo dia de atraso, quando a empregada abriu a porta para deixar a bandeja, Isabella estava pronta. Tinha ensaiado a mentira a noite inteira, praticando o tom de voz, a expressão de dor, o jeito de pressionar a barriga com a mão. A mentira saiu baixa e sofredora, exatamente como planejou: — Estou com muita cólica. Preciso de absorventes. E de um analgésico forte. Por favor. Rosa, a senhora de meia-idade que servia a família há anos, hesitou. Olhou para o corredor, como se temesse que Matteo aparecesse a qualquer segundo. Na hierarquia da casa, até as empregadas sabiam que desobedecer o Don era assinar a própria sentença. — O Don não autorizou… — Eu estou sangrando na roupa — mentiu Isabella, deixando a voz tremer de propósito, misturando desespero real com a performance calculada que aprendera a usar desde adolescente. — Você quer explicar para o meu pai por que a filha dele está suja de sangue menstruado quando o noivo siciliano vier visitar? Quer mesmo levar essa conversa para ele? Sabe o que acontece com quem envergonha a Famiglia na frente de uma aliança? Rosa empalideceu. Cinco minutos depois voltou com uma sacola de farmácia. Absorventes, analgésico e escondido no fundo, como Isabella tinha pedido em sussurro desesperado, um teste de gravidez de farmácia comum. — Não diga a ninguém — implorou Isabella, segurando o pulso da mulher com a força de quem já perdera quase tudo. — Por favor, Rosa. Se alguém souber, se o meu pai souber… ele vai me matar. Ou pior. Vai matar você também. A omertà começa aqui. Rosa apenas balançou a cabeça, os olhos cheios de medo e algo que parecia pena, e trancou a porta de novo com o som seco da chave. O banheiro do quarto era pequeno, branco e frio. As paredes azulejadas refletiam a luz amarelada do teto. Isabella trancou a porta interna com o único trinco que ainda funcionava e tirou o teste da embalagem com mãos trêmulas. O plástico era barato. As instruções estavam em letras pequenas e em português. Ela já sabia o que fazer. Tinha visto em novelas. Tinha ouvido amigas de escola falarem em sussurros. Nunca imaginara que seria ela, a filha do Don, trancada como prisioneira, urinando num bastão de plástico para descobrir se carregava o filho do inimigo. — Só um… — sussurrou enquanto abria a embalagem, a voz falhando pela primeira vez desde que fora trancada. — Só um e vai dar negativo. Tem que dar negativo. Eu não posso… eu não vou… Enquanto urinava no bastão, as lembranças de Alessandro voltaram com força brutal. A forma como ele a virara de bruços. O cabelo puxado até o couro cabeludo arder. Os dentes no ombro, marcando a pele. O gemido dele quando gozou fundo, quente, sem qualquer proteção. A certeza embriagada de que nada daquilo tinha consequências. A manhã seguinte vazia. O cheiro dele no lençol. A dor entre as pernas que durou dias. A ausência que doía mais do que qualquer marca. Na Camorra de Alessandro as regras eram diferentes: violência aberta, sangue nas ruas, mulheres tratadas como espólio de guerra. Nos Rossi, o controle era silencioso, a crueldade mais fria. Mas o resultado era o mesmo. Uma gravidez ilegítima era uma ofensa que só se lavava com morte. — Você sumiu — disse ela em voz alta para o silêncio do banheiro, os olhos ardem. — Sumiu como se eu fosse lixo. Como se eu não valesse nem um adeus. E agora eu estou aqui lidando com isso sozinha, trancada, com o anel de outro homem no dedo. Isabella tampou o teste e o deixou no balcão da pia. Três minutos. As instruções diziam três minutos que poderiam mudar a sua vida para sempre.






