2: NOME FALSO

A dor trouxe Alessandro de volta antes que a escuridão pudesse engoli-lo por completo. Um latejar quente e insistente no ombro direito. O cheiro metálico do próprio sangue. O peso de um corpo pequeno e tenso sob o dele. E uma voz baixa, firme, quase irritada, murmurando palavrões em italiano enquanto mãos apertavam um tecido contra a ferida.

Ele abriu os olhos com esforço. A visão ainda oscilava, mas conseguiu focar no rosto da mulher que o segurava. Cabelo castanho-escuro, quase preto, preso de qualquer maneira num coque desfeito que agora soltava mechas grudadas na testa suada. Olhos castanhos profundos, da cor de café forte, arregalados pela adrenalina, mas sem o pânico histérico que ele esperava de uma civil. Lábios cheios, apertados numa linha de concentração. Pele clara, agora manchada de vermelho, onde o sangue dele escorreu pelo decote do vestido preto. Havia uma pequena cicatriz fina logo abaixo da clavícula esquerda, quase invisível. E um anel antigo, de ouro desgastado, no dedo anelar da mão direita, o tipo de joia que famílias antigas passavam de geração em geração. Aquela mulher não era uma passageira comum. Aquilo era óbvio para um homem com visão de lince feito ele.

— Você… — a voz dele saiu rouca, quebrada. — Quem é você?

Ela não respondeu de imediato. Continuou pressionando o ombro ferido com um pedaço de toalha que arrancou de algum lugar atrás do balcão. O convés ainda fervilhava lá fora. Gritos distantes. Passos. O eco de ordens em italiano e inglês. Mas, atrás daquele balcão de mármore, o mundo parecia ter encolhido para o espaço entre os dois corpos.

— Elena — disse ela finalmente, sem olhar nos olhos dele. — Elena Bianchi.

Alessandro franziu a testa. A dor latejava, mas a mente dele, treinada por anos de traições e emboscadas, já trabalhava. Elena Bianchi é um nome neutro demais. Ela tinha um sotaque napolitano escondido sob uma camada forçada de neutralidade. E aquele anel, ele já vira joias parecidas em dedos de famílias rivais.

— È una bugia! Tutto di te è una bugia — grunhiu ele.

(Mentira! Tudo em você é uma mentira.)

Ela ergueu o olhar de súbito. Os olhos castanhos encontraram os dele sem recuar.

— Acredite no que quiser. Agora pare de se mexer antes que você desmaie de novo e eu tenha que carregar o seu corpo pesado sozinha.

Havia fogo nela. Não o fogo histérico de alguém em choque. Era algo mais antigo e cansado. Alessandro reconheceu aquele tipo de resistência. Era a mesma que ele viu nos olhos de homens que já tinham perdido demais e ainda assim se recusavam a quebrar.

Isabella Rossi, porque era esse o nome verdadeiro que ela escondia, apertou mais a toalha contra a ferida, ignorando o modo como os dedos dele tentavam se fechar em torno do pulso dela. O sangue já não escorria com a mesma força, mas a camisa branca de Alessandro estava arruinada, colada à pele. O terno preto, tão impecável minutos antes, agora parecia o uniforme de um homem que acabara de sair de uma guerra.

Ela sabia exatamente quem ele era.

Alessandro Vitale. O Don da Famiglia Vitale. O homem cujo nome o pai dela pronunciava como se fosse uma praga. O mesmo homem que, segundo os boatos nos corredores da mansão Rossi, tinha mandado matar dois primos distantes da família dela três anos antes por causa de uma rota de contrabando em Bari. Isabella cresceu ouvindo histórias sobre ele. O monstro de Nápoles. O viúvo sem coração. O homem que construiu um império sobre ossos. E agora esse monstro sangrava nos braços dela.

A trajetória que a trouxe até aquele convés começara meses antes, numa sala de jantar iluminada por lustres de cristal. O pai, Lorenzo Rossi, Don da família rival, anunciara o noivado dela com o filho de um aliado siciliano como se estivesse assinado um contrato de exportação. Isabella tinha vinte e seis anos. Formada em história da arte. Falava quatro línguas. Sonhava em sumir num apartamento pequeno em algum lugar onde ninguém soubesse o sobrenome Rossi. Em vez disso, o pai colocou um anel de noivado na mesa e disse, com a calma de quem ordenava uma execução:

— Você se casa em três meses. Ou eu quebro as pernas do único amigo que te resta e te entrego assim mesmo.

Ela não chorou na frente dele. Esperou a noite. Roubou um passaporte falso de um dos homens de confiança do pai, um documento veneziano em nome de Elena Bianchi, tirou todo o dinheiro que conseguira esconder ao longo dos anos e embarcou no primeiro cruzeiro que saía de Gênova com destino a Nova York. A intenção era simples: desaparecer, recomeçar e nunca mais ouvir o nome Rossi.

Agora, o homem que o pai mais odiava no mundo estava deitado sobre ela, sangrando, e ela não conseguia simplesmente deixá-lo morrer.

— Precisa de pontos — murmurou Isabella, mais para si mesma do que para ele. — E antibiótico. E alguém que não seja eu.

Alessandro soltou uma risada rouca que virou um espasmo de dor.

— Meus homens estão lá fora.

— Seus homens estão atirando em todo mundo que se mexe — retrucou ela. — E eu não pretendo levar um tiro tentando chamar alguém.

Ela olhou em volta e percebeu que atrás do balcão havia prateleiras viradas, garrafas quebradas e um pequeno kit de primeiros socorros de emergência que o bar mantinha para cortes de coquetel. Com mãos firmes, apesar do tremor que tentava subir pelos braços, Isabella rasgou mais um pedaço de toalha limpa, abriu uma garrafa de uísque caro que ainda estava intacta e regou a ferida.

Alessandro xingou em italiano, o corpo inteiro se contraindo.

— Cazzo! Brucia da morire!

(Porra! Arde pra caralho!)

— Aguenta — disse ela, sem pena. — Tenho certeza que você já sobreviveu a coisas piores.

Ele a encarou de novo. Os olhos cinzentos, nublados pela dor e pelo álcool que ainda circulava no sangue, estudavam cada detalhe do rosto dela. A curva da boca, a cicatriz fina e o anel antigo que circulava em suas lembranças.

— Você não é Elena Bianchi — afirmou ele, a voz baixa, perigosa mesmo ferido. — Quem é você de verdade?

Isabella sentiu o coração disparar. Por um segundo, quase contou. Quase disse o sobrenome que faria ele a matar ali mesmo, ou pior: usá-la como isca contra o pai. Mas o instinto de sobrevivência falou mais alto.

— Eu sou a mulher que está te impedindo de sangrar até a morte neste convés — respondeu ela, segurando o olhar dele. — Por enquanto, isso deveria ser o bastante.

Alessandro ficou em silêncio. A dor e o uísque que ela acabara de derramar na ferida (e o pouco que ainda restava no sistema dele) lutavam contra a desconfiança. Ele era um homem que desconfiava de todo mundo, mas o corpo traía a mente. O ombro latejava, a cabeça pesava e aquela mulher, com seus olhos castanhos teimosos e as mãos manchadas de sangue dele, era a única coisa sólida no meio do caos.

Lá fora, os tiros cessaram quase por completo. Vozes se aproximavam. E era possível ouvir passos rápidos.

— Eles vão te achar logo — murmurou Isabella. — Quando chegarem, eu sumo.

A mão de Alessandro subiu de repente. Mesmo enfraquecido, os dedos dele fecharam-se em torno do pulso dela com uma força brutal, quase cruel. Isabella engoliu um gemido de dor, o corpo inteiro tensionado.

— Você não vai a lugar nenhum até eu decidir.

O anel de família dela, a peça antiga de ouro desgastado que a avó lhe dera anos antes, arranhou a pele do pulso de Alessandro quando ele apertou com força demais. Uma linha fina e vermelha surgiu imediatamente, contrastando com a pele bronzeada. Alessandro sentiu o metal cortar a carne. Os olhos cinzentos desceram para o arranhão, depois para o anel, e por fim subiram devagar até o rosto dela. Algo perigoso e antigo passou pelo olhar dele.

Ele não soltou o pulso. O anel continuava cravado contra a pele dele, e o sangue de ambos, o dele, ainda quente no ombro, e a fina linha vermelha que ela acabara de abrir, misturava-se em silêncio atrás do balcão, enquanto o Atlântico continuava negro e indiferente lá fora.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App