3: CABINE 417

Os homens de Alessandro chegaram gritando o nome dele. Dois capos armados, o rosto tenso, as armas ainda quentes. Quando viram o Don ensanguentado atrás do balcão, com uma mulher desconhecida pressionando a ferida, as expressões mudaram de alívio para desconfiança imediata.

— Don Vitale — disse il più alto, con il mirino ancora abbassato, ma pronto. — Chi è lei?

(Don Vitale — disse o mais alto, a mira ainda baixa, mas pronta. — Quem é ela?)

Alessandro não soltou o pulso de Isabella. O anel dela ainda arranhava a pele dele como uma acusação silenciosa. Por um segundo, ele considerou a possibilidade de que aqueles homens não fossem mais leais. O ataque tinha sido preciso demais. Alguém de dentro poderia ter vendido a rota do cruzeiro.

— Ela vem comigo — ordenou, a voz rouca, mas carregada da autoridade que ninguém ousava questionar. — Cabine. Agora. E ninguém entra. Ninguém.

Não houve discussão. Um dos homens tirou o terno ensanguentado de Alessandro com movimentos rápidos. O outro cobriu a saída, mas os olhos dele demoraram um segundo a mais no rosto de Isabella. Alessandro notou. Guardou a informação.

Isabella foi puxada junto, o pulso ainda preso nos dedos dele, enquanto atravessavam o convés destruído. Havia estilhaços de vidro, manchas de sangue e passageiros chorando no chão. Cada sombra parecia esconder um cano de arma. O luxo do Mediterraneo Reale agora parecia um campo de batalha flutuante. E o pior: o ataque podia não ter terminado.

A cabine 417 ficava no mesmo andar, uma suíte espaçosa com vista para o oceano negro. Assim que a porta se fechou com um estalo seco, Alessandro soltou o pulso dela apenas o suficiente para trancar a fechadura por dentro e puxar a trava de segurança. Depois empurrou uma cadeira pesada contra a maçaneta. Só então virou-se e encostou as costas na madeira, o rosto pálido debaixo da luz amarelada. O coração ainda batia rápido demais. Não só pela perda de sangue. Pela certeza de que alguém, em algum lugar daquele navio, ainda queria vê-lo morto.

— Tira a camisa — mandou Isabella, já se movendo em direção ao banheiro. A voz saiu firme, mas havia um tremor escondido por baixo. Ela também ouvira os passos no corredor. — E senta antes que você desmaie de novo.

Ele obedeceu em silêncio, os movimentos lentos e rígidos. A camisa branca, agora mais vermelha do que branca, caiu no chão. O peito largo, marcado por cicatrizes antigas, surgiu sob a luz. O ombro direito era um buraco sujo de sangue coalhado e tecido queimado pela pólvora. A bala tinha atravessado de lado, rasgando músculo, mas sem atingir osso. Ainda assim, sangrava, e doía. Mas a dor física era nada comparada à tensão que apertava o peito dele. Se a mulher mentia sobre o nome, o que mais ela escondia? E se fosse uma isca? E se o próximo tiro viesse de dentro da cabine?

Isabella voltou do banheiro com toalhas brancas, uma tesoura de unhas e a última garrafa de uísque que encontrara atrás do bar. Sem pedir permissão, empurrou-o para sentar na beira da cama king-size. O colchão afundou sob o peso dele. Ela ajoelhou-se entre as pernas abertas dele, o vestido preto manchado subindo pelas coxas. O contato era íntimo e perigoso demais. O calor do corpo dele irradiava contra ela como uma ameaça viva. Lá fora, um barulho de passos fez os dois congelarem por um segundo. Os passos passaram, então continuaram.

A proximidade era absurda. O cheiro de sangue, suor e uísque antigo preenchia o espaço entre os dois. Isabella molhou uma toalha com o álcool e pressionou contra a ferida sem aviso. Alessandro soltou um grunhido baixo, os dentes cerrados. A mão livre dele foi direto para a coxa dela, apertando com força, como se precisasse de um ponto de apoio para não gritar, ou para não puxá-la para cima de uma vez e, ao mesmo tempo, verificar se ela escondia uma arma.

— Fácil — rosnou ele, a voz embargada pela dor e por algo mais escuro. Os olhos cinzentos não deixavam o rosto dela. Desconfiados. Afiados.

— Se eu fizer fácil, você morre de infecção — respondeu ela, sem suavizar a pressão. Os dedos tremiam levemente. Cada segundo que passava aumentava o risco de alguém arrombar a porta. — Aguenta.

Ela limpou a ferida de forma tosca, quase cruel. O uísque ardia. O sangue novo escorria misturado ao álcool, pingando no tecido do vestido dela e nas coxas nuas. Alessandro observava cada movimento com os olhos semicerrados, a respiração pesada. Cada vez que ela se inclinava, o decote do vestido se abria mais, revelando a curva dos seios ainda manchados com o sangue dele da hora anterior. Ele odiava o quanto aquilo o afetava. Odiava a forma como o corpo dela, tão perto, fazia a dor parecer secundária. E odiava ainda mais a voz na cabeça que sussurrava: E se ela for uma Rossi? E se tudo isso for armadilha?

O silêncio da cabine era quebrado apenas pelo som molhado da limpeza, pela respiração irregular dos dois e pelo barulho distante do navio ainda em caos. De repente, vozes baixas passaram no corredor. Italiano. Rápido. Alessandro ergueu a mão boa num gesto de silêncio. Isabella parou no meio do movimento, o coração disparado. Os segundos se arrastaram. As vozes se afastaram. Só então ela voltou a respirar.

Por dentro, Isabella lutava contra o próprio pânico. Aquele era Alessandro Vitale. O homem que o pai jurara destruir. O monstro das histórias de infância. E agora ela estava de joelhos entre as pernas dele, com as mãos sujas do sangue dele, sentindo o calor da pele marcada por violência. Se ele descobrisse quem ela era de verdade, ela estaria morta antes do amanhecer. Ou pior: usada como isca viva contra a própria família. Cada segundo naquela cabine era uma roleta-russa.

— Por que você fez isso? — perguntou ele de repente, a voz baixa, quase vulnerável, mas carregada de suspeita. — Podia ter corrido. Podia ter me deixado lá. Ninguém obriga uma mulher a salvar o Don da Camorra no meio de um tiroteio.

Isabella não respondeu de imediato. Continuou limpando, os dedos agora escorregadios de sangue e álcool. A pergunta pesava no ar como uma acusação. Quando finalmente falou, a voz saiu rouca, carregada de tudo o que ela não podia dizer:

— Porque eu sei o que é ser caçada.

Ele a estudou em silêncio. Aproximou o rosto um pouco, os olhos cinzentos vasculhando os dela em busca de mentiras. A proximidade era asfixixiante. O joelho dela encostava na parte interna da coxa dele. O cheiro dela, suor limpo, medo contido e algo doce por baixo, misturava-se ao metal do sangue. Alessandro sentia a dor latejar, mas por baixo dela crescia outra coisa mais primitiva e perigosa. Uma necessidade de entender aquela mulher que o salvara e, ao mesmo tempo, mentia com os olhos abertos. E a certeza fria de que, se ela fosse inimiga, ele teria que matá-la antes que o sol nascesse.

A garrafa de uísque estava pela metade. Isabella regou a ferida mais uma vez, depois levou o gargalo à boca e bebeu um gole longo, o líquido queimando a garganta como se pudesse queimar também o medo. Em seguida, ofereceu a ele. Alessandro bebeu sem tirar os olhos dela, o uísque escorrendo pelo canto da boca. Uma gota desceu pelo queixo e pingou no peito nu. O álcool fez o que a dor não conseguira: afrouxou as defesas. Mas não o suficiente para apagar a desconfiança. Nem o suficiente para fazê-lo esquecer que a porta, por mais trancada que estivesse, não era intransponível.

Isabella começou a improvisar um curativo com tiras de toalha limpa, amarrando o ombro com firmeza. Cada movimento a obrigava a se inclinar mais. O peito dela quase tocava o dele. A respiração dela batia quente contra a pele do pescoço dele. Alessandro sentia o corpo reagir apesar da ferida. O sangue quente, o álcool no sistema, o cheiro dela tão perto e a certeza de que ela escondia algo que podia destruí-los a ambos. Um estalo no corredor fez os dois travarem de novo. Mas não era nada além do navio rangendo.

Quando ela terminou de amarrar o último nó, tentou se afastar. O coração batia descompassado. Precisava de distância. Precisava respirar. E principalmente, precisava lembrar quem ele era e o que o pai faria se soubesse onde ela estava. E, acima de tudo, precisava sumir antes que ele fizesse a pergunta certa.

A mão boa de Alessandro subiu e segurou a nuca dela, impedindo o movimento. Os dedos longos enterraram-se no cabelo solto com uma posse silenciosa e perigosa. Isabella congelou, os olhos castanhos erguendo-se para os dele. Havia apenas alguns centímetros entre as bocas. O ar entre eles estava carregado de tudo o que não podiam dizer: mentiras, sangue, desejo proibido e o peso de dois sobrenomes que se odiavam há gerações. E por trás de tudo, o medo constante de que a porta fosse arrombada a qualquer segundo.

— Elena Bianchi — murmurou ele, o tom duvidoso, quase um desafio. A voz saiu rouca, carregada de uma tensão que ia além da ferida. — Mentira continua sendo mentira. E mentiras, piccola, têm o péssimo hábito de matar pessoas neste negócio.

— E daí? — sussurrou ela, o coração batendo tão forte que ele certamente sentia contra o peito. Os olhos ardiam. O medo e o desejo se misturavam numa corrente perigosa. — Você ia sangrar até a morte se eu não mentisse.

O uísque acabou. A última gota desceu pela garganta de Alessandro enquanto ele a puxava mais para perto, como se quisesse arrancar a verdade da boca dela com os dentes. O corpo dela acabou entre as pernas dele, o vestido subindo ainda mais. O calor era insuportável. O peito nu dele, suado e manchado de sangue seco, encostava nos seios dela a cada respiração trêmula. Havia medo nos olhos dela. Havia fome nos dele. E por baixo de tudo, uma corrente elétrica perigosa que nenhum dos dois sabia como desligar, e a certeza de que o perigo lá fora ainda não tinha terminado.

A dor no ombro ainda latejava, mas agora era apenas um pano de fundo. O que dominava era o cheiro dela, o calor dela, a forma como os lábios dela se entreabriram quando ele apertou a nuca com mais força, não só de desejo, mas de uma necessidade feroz de provar que ela era real, que não ia desaparecer, que a mentira que ela carregava não ia destruí-lo antes que ele entendesse. E que, se alguém entrasse por aquela porta agora, ele a usaria como escudo, ou a protegeria com o próprio corpo. Ainda não sabia qual das duas.

Alessandro inclinou a cabeça. A boca dele desceu pelo pescoço dela; o gosto de sal e sangue mistura-se, e ali ele soube que esse era o sabor mais perigoso que ele já havia sentido.

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