7: ANEL DE FERRO

O anel de compromisso que Isabella usaria era pesado. Ouro amarelo, grosso, com um diamante grande demais para o seu dedo fino. Lorenzo Rossi o tirou do bolso interno do paletó com a mesma calma com que assinava sentenças de morte. A luz do escritório bateu na pedra, lançando reflexos frios pelo rosto da filha.

— Dammi la mano. Agora.

(Dê a mão. Agora.)

Isabella não se mexeu. O queixo ainda doía do aperto anterior. O rosto queimava feito brasa viva após o tapa forte que latejava profundamente, cada batida do coração uma facada na carne inchada. O gosto de sangue ainda não tinha sumido completamente da boca. As marcas de Alessandro queimavam sob a roupa como denúncias silenciosas.

— Eu já disse que não vou casar — cuspiu ela, a voz trêmula de ódio. — Prefiro a morte! Prefiro apodrecer trancada do que vestir branco pra esse homem!

Lorenzo ergueu os olhos. A expressão não mudou, mas o ar no escritório ficou mais denso, quase irrespirável. Ele deu um passo à frente e, sem aviso, estapeou o rosto dela de novo — mais forte que da primeira vez. O estalo ecoou como um tiro. A cabeça de Isabella estalou para o lado. A visão escureceu por um segundo. O lábio inferior rachou. Sangue quente escorreu pelo queixo.

— Non era una richiesta, Isabella. Obbedisci!

(Não foi um pedido, Isabella. Obedeça!)

Atrás dele, Matteo e outro homem permaneceram em silêncio. A mãe de Isabella, sentada num canto do sofá de couro, mantinha o olhar baixo. Maria Rossi sempre soube o momento exato de se calar. Anos de casamento com o Don tinham ensinado que protestar só piorava as coisas.

Isabella cambaleou, a mão no rosto, o sangue escorrendo entre os dedos. A memória de Alessandro voltou sem permissão: a forma como ele a segurara pelo queixo, a voz baixa e rouca, o cheiro de pólvora, madeira e uísque. Por um segundo absurdo, ela desejou que fosse a mão dele ali, e não a do pai. Depois odiou a si mesma por pensar nisso.

— Mãe… — a voz dela saiu rouca, quase um soluço. — Mãe, fala alguma coisa. Por favor. Não deixa ele fazer isso.

Maria não ergueu o olhar. Os dedos apertaram o tecido do vestido até os nós dos dedos ficarem brancos. O silêncio dela foi uma resposta mais cruel do que qualquer palavra.

— Eu não vou me casar com esse homem — Isabella insistiu, a voz quebrada, o sangue pingando no chão. — Prefiro morrer trancada do que subir nesse altar. Prefiro me matar antes!

Lorenzo agarrou o cabelo dela com força brutal, puxando a cabeça para trás até o pescoço estalar. Os olhos dela encheram de água. Ele a puxou para perto, o rosto a centímetros do dela, o cheiro de charuto e raiva invadindo a boca dela.

— Pensi che si tratti di una questione di preferenze personali? Pensi che sia importante a quel livello?

(Você acha que isso é sobre o que você prefere? Pensa que é importante a esse nível?)

Olhou para a esposa por um segundo — um olhar frio, de aviso — depois de volta para a filha.

— Si tratta della famiglia. Si tratta di alleanze. Si tratta di non lasciare che i Vitale e i siciliani si appropriino di ciò che è nostro. Tu sei la figlia del Don. Il tuo corpo, il tuo nome e il tuo grembo appartengono a questa famiglia dal giorno in cui sei nata.

(Isso é sobre a família. Sobre alianças. Sobre não deixar os Vitale e os sicilianos comerem o que é nosso. Você é a filha do Don. Seu corpo, seu nome e seu útero pertencem a essa família desde o dia em que nasceu.)

Isabella tentou se soltar. Ele apertou ainda mais o cabelo, puxando até as raízes arderem.

— Non sono una merce!

(Eu não sou mercadoria!) — gritou, a voz rachando. — Mãe! Mãe, fala! Não fica aí quieta me vendo ser vendida como um animal!

Maria fechou os olhos. Nada mais. O silêncio dela era absoluto, covarde, ensurdecedor.

— É exatamente o que você é — respondeu Lorenzo, sem elevação de voz. A calma dele era pior que qualquer grito. — E mercadoria não escolhe quem a compra. Você já fez merda demais. Três semanas desaparecida. Um passaporte falso. Um cruzeiro. E ainda tem a coragem de abrir a boca pra mim.

Ele soltou o cabelo só para agarrar o pulso dela com força brutal, torcendo o braço para trás até ela soltar um grito de dor. O anel frio foi empurrado no dedo anelar da mão esquerda com violência. Ficou folgado demais. Pesado demais. Como uma algema disfarçada de joia. Ele apertou até a pele em volta ficar branca e latejar, depois torceu o anel de propósito, fazendo a metal cortar a pele fina.

— Toglimi questo di dosso! (Tira isso de mim!) — gritou ela, a voz tremendo de ódio puro. — Tira essa porra de anel agora, seu desgraçado!

Lorenzo riu baixinho. Um som frio, sem humor. Depois deu um tapa seco no lado já ferido do rosto dela, só para silenciá-la. O impacto foi tão forte que ela caiu de joelhos. O sangue escorria mais rápido agora.

— O noivado é oficial a partir de agora. A cerimônia será em seis semanas. Você vai sorrir. Vai vestir branco. E vai calar a boca se não quiser que eu quebre cada osso do seu corpo antes de entregar você pro siciliano. Entendeu?

Isabella puxou a mão com violência. O anel não saiu. As lágrimas de raiva ardiam nos olhos, misturadas ao sangue.

— Ti odio.

(Eu odeio você.)

A frase saiu baixa, mas clara, carregada de veneno.

— Mãe… — tentou de novo, a voz quebrando. — Mãe, faz alguma coisa. Pelo amor de Deus. Não deixa ele me obrigar. Não fica aí parada!

Maria apertou ainda mais as mãos no colo. O olhar permaneceu fixo no chão. Nem um tremor nos lábios. Nem um sussurro.

Lorenzo agarrou o queixo dela de novo — no mesmo lugar ainda roxo, inchado e sangrando — e a obrigou a olhar para ele. Os dedos cravaram na carne dolorida até ela soltar um gemido abafado. Ele apertou com tanta força que ela sentiu o osso do maxilar ranger.

— Odeie. Mas obedeça. Eu não criei uma filha para se tornar uma vadia de cruzeiro, mas para obedecer às minhas ordens e honrar o sobrenome da família. E é isso que você vai fazer, querendo ou não. Seu corpo não é seu. Sua vida não é sua. Se você tentar fugir de novo, eu quebro as pernas da sua mãe na sua frente. Depois as suas. Entendeu?

Soltou o rosto dela com um empurrão brutal que a fez cair de costas no chão. Depois fez um gesto seco para Matteo.

— Leva ela para o quarto. Tranca a porta. Ninguém entra. Ninguém sai. Comida duas vezes por dia. E tira qualquer coisa que ela possa usar para se machucar. Se ela gritar demais, amordaça.

Isabella gritou quando os homens a agarraram pelos braços com força brutal, quase deslocando os ombros.

— Solta, seu filho da puta! — berrou, chutando o ar, tentando acertar o joelho de Matteo. — Tira as mãos de mim, seu cachorro!

Chutou. Xingou. Tentou morder o braço do homem mais próximo. Os dentes quase pegaram a pele.

— Desgraçado! Mãe! MÃE! Faz alguma coisa, sua covarde! Não fica aí parada me vendo ser arrastada como um animal! Eu te odeio, maldito!

Maria não se mexeu. Nem levantou o olhar. O silêncio dela cortava mais fundo do que qualquer tapa.

Arrastaram-na pelo corredor longo da cobertura. Isabella continuava gritando, a voz já rouca de tanto xingar, o sangue escorrendo pelo rosto e pingando no chão:

— Me solta! Vocês não têm o direito! Eu vou me matar, ouviu? Prefiro me matar do que casar com esse bastardo! Seu covarde! Maldito tirano!

Passaram pela sala de jantar vazia, subiram a escada interna. Os homens quase a carregavam, os pés dela batendo no chão, o corpo se contorcendo. A mãe continuou sentada no sofá, as mãos apertadas no colo, o olhar fixo no chão como se o mundo lá fora não existisse.

O quarto de Isabella era o mesmo desde a adolescência: paredes claras, cama grande, janelas com vista para a cidade. Agora parecia uma cela. Matteo a empurrou para dentro com violência, jogando-a no chão. A porta bateu com força. O barulho da chave girando na fechadura ecoou como um tiro.

Isabella ficou no chão, ofegante, o anel brilhando no dedo como um insulto. Ouviu os passos de Matteo se afastando. Depois o silêncio.

Correu até a porta, cambaleando.

— Apri! (Abre!) — gritou, batendo com os punhos. — Apri quella cazzo di porta! (Abre essa porra de porta!)

Nada.

Bateu mais forte. Gritou até a garganta arder. Chutou a madeira. Empurrou com o ombro. A porta nem se mexeu.

— Non mi sposerò! (Eu não vou me casar!) — gritou de novo, a voz já destruída. — Non potete costringermi! (Vocês não podem me obrigar!) Vocês não podem me obrigar, seus filhos da puta!

O silêncio do outro lado continuou absoluto.

Isabella escorregou até o chão, as costas batendo na porta com um baque surdo. O peito subia e descia rápido demais. O anel de ouro pesava no dedo como uma corrente. As marcas que Alessandro deixara no corpo queimavam sob a roupa, misturando-se à dor nova que o pai acabara de gravar nela — o rosto latejando, o maxilar doendo, o sangue ainda escorrendo.

Por um segundo absurdo, ela desejou que a porta se abrisse e fosse ele do outro lado — o homem errado, o inimigo, o monstro cujo cheiro ainda não tinha saído da memória. Depois odiou a si mesma por pensar nisso.

Levantou-se de novo.

As unhas cravaram na madeira clara da porta com força bruta. Arranhou. O som seco e desesperado encheu o quarto silencioso. Arranhou de novo. Mais fundo. As pontas dos dedos ardiam. A pele em volta das unhas rachou. Continuou.

Uma unha cedeu com um estalo molhado. Depois outra. O sangue surgiu quente, vivo, escorrendo pelos dedos e manchando a tinta clara em longas linhas vermelhas. Isabella não parou. Gritou contra a madeira enquanto arranhava, a garganta já destruída, o rosto molhado de lágrimas, saliva e sangue.

— Apri… (Abre…) — soluçou, a voz quase inexistente. — Apri, cazzo… (Abre, porra…) Abre essa porra de porta!

Ninguém veio.

Ela continuou arranhando até as unhas estarem destruídas, até o sangue escorrer pela madeira e pingar no chão, até não sobrar mais força nos dedos.

Só então as mãos caíram.

O anel de ouro ainda brilhava no dedo ensanguentado, intacto e indiferente, enquanto o sangue quente escorria devagar pela madeira clara da porta.

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