6: SANGUE NA BOCA

O porto de Nova York cheirava a ferrugem, peixe e gasolina. Isabella desceu a rampa do cruzeiro com o corpo ainda dolorido e a cabeça baixa, o passaporte falso apertado na mão suada. O vestido preto rasgado tinha sido trocado por uma blusa larga e uma calça que ela comprara na loja do navio com o pouco dinheiro que lhe restava. As marcas no pescoço estavam escondidas por um lenço. As dos pulsos, pelas mangas longas. Ninguém precisava ver o que Alessandro Vitale tinha feito nela.

Mesmo assim, ela sentia.

Cada passo puxava a dor surda entre as coxas. Cada movimento do lenço no pescoço lembrava a mordida. E por trás dos olhos fechados, em flashes indesejados, vinha o cheiro dele. Uísque. Sangue. Pele quente. A forma como ele a prendera contra a cama. A voz rouca no ouvido. O momento em que tudo terminou e ele sumiu antes do amanhecer. Ela não o tinha visto desde então. E o pior era que isso a incomodava mais do que deveria.

Isabella só queria desaparecer. Pegar um táxi, um ônibus, qualquer coisa que a levasse para longe do sobrenome Rossi e do homem cujo cheiro ainda impregnava a memória dela como uma mancha que não saía.

Não chegou a dar dez passos no cais.

Três homens de terno escuro apareceram entre os contêineres como se tivessem nascido dali. O do meio ela reconheceu na hora: Matteo, o braço direito do pai. O mesmo que a vigiava desde os quinze anos. O mesmo que uma vez quebrou o dedo de um garoto só porque ele ousou mandar mensagem para ela.

— Signorina Rossi — disse Matteo, a voz baixa e educada demais. — Seu pai está esperando.

Isabella parou. O sangue gelou.

— Vocês estão enganados — tentou, a voz rouca. — Meu nome é Elena Bianchi.

Matteo sorriu sem humor. Estendeu a mão e, com um movimento rápido, arrancou o passaporte falso dos dedos dela. Folheou as páginas sem pressa. Depois o rasgou ao meio na frente dela.

— Seu pai mandou buscar a filha. Não uma impostora.

Os outros dois homens se aproximaram. Isabella recuou por instinto, mas não havia para onde ir. O porto era grande, mas naquele momento parecia um corredor sem saída. Um dos homens segurou seu braço com força. O outro já falava ao telefone em italiano rápido.

— Não me toquem — rosnou ela, tentando se soltar.

Matteo nem piscou. Fez um gesto e os dois homens a ergueram praticamente do chão, arrastando-a em direção a um carro preto de vidros escuros estacionado entre os caminhões. Isabella chutou, gritou, mordeu a mão que tentava tapar sua boca. O gosto de pele e anel de ouro invadiu a língua dela. De nada adiantou. Em menos de um minuto estava no banco de trás, com as portas trancadas e o carro em movimento.

Enquanto o carro avançava pelas ruas, as lembranças voltaram sem pedido. O peso do corpo de Alessandro sobre o dela. A mão grande segurando os pulsos dela com força demais. O jeito como ele a olhara naquela cabine — como se quisesse devorá-la e desconfiasse dela ao mesmo tempo. E depois o vazio da manhã seguinte. O lençol frio. O cheiro dele ainda impregnado. A certeza cruel de que ele tinha saído sem olhar para trás.

Por que isso ainda doía?

Por que a ausência dele pesava mais que as marcas no corpo?

A Famiglia Rossi não era como a Camorra de Alessandro. Enquanto os Vitale eram conhecidos pela violência aberta e pelo sangue nas ruas de Nápoles, os Rossi preferiam o controle silencioso. Lorenzo Rossi, o Don, construíra um império de exportação, cassinos discretos e lavagem de dinheiro em três continentes. A família tinha raízes antigas em Palermo, mas se mudara para o norte da Itália décadas antes, misturando tradição com modernidade cruel. Lorenzo tinha dois filhos homens — ambos no negócio — e uma única filha. Isabella. A peça mais valiosa do tabuleiro. A que seria entregue em casamento para selar uma aliança com os sicilianos. A que não tinha permissão de escolher nada.

O carro parou na frente de um prédio discreto em Manhattan. Isabella foi empurrada para dentro, subiu dois lances de escada e empurrou a porta de um escritório que cheirava a charuto e couro velho.

Lorenzo Rossi estava de pé atrás da mesa.

Aos cinquenta e oito anos, ele ainda era um homem imponente. Cabelos grisalhos penteados para trás, terno impecável, o anel de família no dedo mínimo. Os olhos castanhos — iguais aos dela — não mostravam alívio. Só raiva fria e calculada.

O silêncio durou longos segundos. Pesado. Sufocante.

— Papà (Pai) — Isabella começou, a voz falhando.

Ele ergueu a mão. Ela fechou a boca na hora.

Lorenzo rodeou a mesa com calma mortal. Cada passo ecoava no chão de madeira como uma contagem regressiva. Parou bem na frente dela. O olhar desceu pelo corpo da filha com lentidão cruel, notando o lenço no pescoço, a forma como ela segurava os braços contra o corpo, a palidez doentia do rosto, o tremor que ela não conseguia esconder.

— Três semanas — disse ele, a voz tão baixa que quase não parecia humana. — Três semanas desaparecida. Um passaporte falso. Um cruzeiro. E agora aparece aqui cheirando a homem e a medo.

Isabella engoliu em seco. A garganta estava seca demais. Por um segundo absurdo, o rosto de Alessandro cruzou sua mente. Os olhos cinzentos. A boca cruel. A forma como ele a tinha tomado sem pedir permissão.

— Eu só queria…

— Silenziosa (Calada.)

A palavra saiu como um tiro abafado. Lorenzo deu mais um passo. O espaço entre eles desapareceu. A mão grande e envelhecida fechou no queixo dela de repente, com uma violência seca e precisa. Os dedos apertaram com força brutal, cravando na carne, obrigando-a a erguer o rosto até doer o pescoço. Até os olhos arderem. Até o osso reclamar.

Isabella soltou um som abafado de dor. Tentou puxar o rosto para trás. O aperto só aumentou.

— Você é filha de Lorenzo Rossi — cuspiu ele, tão perto que o cheiro de charuto e raiva invadiu a boca dela. — Não uma vadia qualquer que foge de casa e se j**a no primeiro cruzeiro que encontra. O noivado continua marcado. O siciliano ainda te quer. E você vai subir nesse altar se eu tiver que arrastar você pelo cabelo na frente de todo mundo.

— Eu não vou me casar — conseguiu dizer, a voz trêmula, quebrada de ódio e medo. — Prefiro morrer.

O silêncio que se seguiu foi pior que um grito.

Lorenzo inclinou a cabeça, estudando a filha como se a visse pela primeira vez. Os olhos castanhos estavam escuros, sem qualquer traço de afeto. Depois sorriu. Um sorriso pequeno, lento e cruel, que não chegava aos olhos.

— Sì, ci andrò. (Vai sim.) Porque se não for, eu quebro as pernas de todo mundo que já te ajudou. E começo pelo amigo idiota que te deu o passaporte falso. Depois passo para a mãe. E termino com você.

Os dedos apertaram ainda mais.

Isabella sentiu a pele do queixo ceder sob a pressão. Os dentes se cortaram por dentro da bochecha com força. O gosto metálico e quente explodiu na boca de uma vez, enchendo a língua, escorrendo pelo canto dos lábios.

E, no meio da dor, uma imagem indesejada voltou: Alessandro a segurando pelo queixo da mesma forma, só que com outro tipo de fome nos olhos.

Foi então que a mão do pai se soltou do queixo — só para voltar com a força de um martelo.

O tapa veio sem aviso. Seco. Brutal. Um estalo tão alto que pareceu ecoar pelas paredes do escritório, como se o ar tivesse rachado. A palma larga e callosa de Lorenzo atingiu o lado direito do rosto de Isabella com uma violência precisa, calculada para marcar, não apenas para punir. O impacto foi tão forte que sua cabeça estalou para o lado, o pescoço estalando em protesto, os cabelos cobrindo o olho por um instante. Uma explosão de fogo branco atravessou a pele, irradiando desde a maçã do rosto até a têmpora, descendo pelo maxilar como se a carne tivesse sido rasgada por dentro. O osso latejou. O ouvido zuniu. Os olhos encheram de água involuntária, a visão embaraçada por estrelas negras que dançavam na periferia.

Isabella cambaleou, o joelho cedendo por um segundo. A dor não era só física — era uma queimadura viva, latejante, que fazia o rosto latejar no ritmo acelerado do coração. Ela sentiu o calor subir imediatamente, a pele inchando sob a marca vermelha que já começava a se formar, quente demais, sensível demais. O gosto de sangue na boca se intensificou, misturado agora ao sal das lágrimas que ela se recusou a deixar cair. O mundo girou por um instante. O cheiro de charuto do pai ficou mais forte, nauseante, enquanto a mão dele ainda pairava no ar, pronta para descer de novo se ela ousasse responder.

Ela ergueu o olhar, o rosto ardendo como se tivesse sido marcado a ferro. A dor pulsava em ondas, cada batida do coração uma facada nova na carne já ferida. Mas por trás da queimadura, por trás do estalo que ainda ressoava nos ouvidos, havia algo pior: a certeza fria de que aquilo não era o fim. Era só o começo.

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Andréa BarrosSão quantos capítulos por dia?
Andréa BarrosEu sabia que não deveria ter começado a leitura. Agora fico ansiosa pelas atualizações. ...............
Andréa BarrosTá bom demais. Não consigo parar de ler.
Andréa BarrosEle trata a filha pior do que um animal. Meu Deus ............
Andréa BarrosCoitada da Isabella. Com um pai desses nem precisa de inimigo.
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