Mundo ficciónIniciar sesiónMaya Cortez não precisa de luxo. Precisa desaparecer. Depois de um escândalo familiar que quase destruiu sua vida, Maya Cortez abandona tudo o que o dinheiro pode comprar — inclusive o próprio sobrenome verdadeiro. Herdeira de uma das maiores fortunas do país, ela escolhe o anonimato e aceita trabalhar como babá, escondendo quem realmente é. O problema é que seu novo emprego é na casa de Orion Ferraz. CEO arrogante, controlador e emocionalmente inacessível, Orion construiu seu império com disciplina e obsessão por controle. Ele despreza privilégios herdados e não confia em ninguém que pareça confortável demais. Para ele, Maya é apenas uma funcionária silenciosa demais para ser tão inteligente… e intensa demais para ser só uma babá. Eles não confiam um no outro. Mas também não conseguem manter distância. Entre madrugadas mal dormidas, rotinas exaustivas e uma criança que exige mais do que cuidados básicos, a convivência começa a desmontar defesas que pareciam inquebráveis. Orion enxerga em Maya uma força rara — calma, firme, impossível de dominar. Maya vê além do terno caro e da postura fria, descobrindo um homem marcado por perdas e medo de se apegar. Mas segredos não sobrevivem à proximidade. Quando o passado de Maya ameaça vir à tona, ela precisa decidir se foge mais uma vez… ou se confia seu coração justamente no homem que mais odeia mentiras. Porque o maior risco não é Orion descobrir quem ela é. É perceber que se apaixonou por Maya antes disso.
Leer másMaya Cortez aprendeu cedo que o silêncio podia ser uma forma de sobrevivência.
Naquela tarde, sentada à mesa pequena de uma cafeteria quase vazia, ela girava a colher dentro do café já frio enquanto fingia ouvir a mulher à sua frente. O barulho do metal batendo na porcelana era suave, repetitivo, quase reconfortante. Um som simples, comum. Exatamente como ela tentava ser.
— Você tem certeza disso, Maya? — perguntou Sofia, inclinando-se para frente, com a testa franzida. — Babá?
Maya ergueu o olhar devagar. Seus olhos castanhos eram firmes, apesar do cansaço que carregavam. Havia semanas que não dormia direito. Meses que não se sentia segura. Anos que não se sentia livre.
— Tenho — respondeu, sem hesitar.
Sofia soltou um suspiro curto, daqueles cheios de coisas não ditas.
— Você podia ir para qualquer lugar do mundo. Podia sumir de um jeito… confortável. E escolhe isso?
Maya deu um meio sorriso. Não era irônico. Era honesto.
— Justamente por isso.
Ela não explicou mais. Não precisava. Sofia sabia demais. Talvez até demais.
Até poucos meses atrás, Maya Cortez vivia em um mundo onde portas se abriam antes mesmo de serem tocadas. Um sobrenome que pesava. Uma herança que vinha acompanhada de expectativas, regras e um controle disfarçado de proteção. Ela cresceu cercada de luxo, mas nunca de escolhas reais.
Quando tudo desmoronou — o escândalo, as manchetes, os olhares curiosos e os julgamentos silenciosos —, Maya entendeu que o dinheiro não a salvaria. Pelo contrário. Era exatamente aquilo que a colocava em perigo.
Desaparecer não era covardia.
Era estratégia.— Esse emprego… — Sofia insistiu — Você sabe quem ele é, não sabe?
Maya assentiu.
Claro que sabia.
Orion Ferraz.
CEO de uma das maiores empresas de tecnologia do país. Nome constante em revistas de negócios, capas que sempre o mostravam sério, distante, impecável. Um homem conhecido por ser brilhante e difícil. Extremamente difícil.
— Ele tem um filho pequeno — continuou Sofia. — Demitiu as últimas duas babás em menos de três meses.
— Eu sei — Maya respondeu.
— Dizem que ele é arrogante.
— Dizem muitas coisas — rebateu, dando de ombros.
O que não dizia em voz alta era que aquele tipo de homem não a intimidava. Maya crescera cercada de figuras poderosas, homens que confundiam autoridade com controle. Ela sabia reconhecê-los. Sabia como manter distância emocional deles.
E, acima de tudo, sabia como não se impressionar.
— Você não acha arriscado demais? — Sofia perguntou, mais baixo agora. — Trabalhar dentro da casa de alguém como ele?
Maya olhou ao redor da cafeteria. Um casal discutia baixinho em uma mesa distante. Uma mulher mexia no celular, alheia ao mundo. Tudo parecia… normal. E era exatamente isso que ela queria.
— É seguro — disse. — Ele não sabe quem eu sou. E não vai saber.
Sofia apertou os lábios, claramente desconfortável.
— E se descobrir?
Maya inclinou a cabeça, pensativa.
— Então eu vou embora. Como sempre fiz.
Havia uma tristeza contida naquela frase. Não era dramática, apenas real.
Maya se levantou alguns minutos depois, despedindo-se rapidamente. Caminhou pelas ruas com passos firmes, o casaco fechado até o pescoço, como se quisesse se misturar à cidade. Gostava daquele anonimato. De não ser reconhecida. De não carregar olhares curiosos ou sussurros atrás de si.
O apartamento pequeno que alugara ficava em um prédio antigo, sem elevador. Três lances de escada que ela subia todos os dias, sentindo o corpo cansar e a mente clarear. Cada degrau era um lembrete de que aquela vida era escolha dela.
Dentro do apartamento, tudo era simples. Poucos móveis. Poucos objetos. Nenhuma fotografia antiga. Nenhuma lembrança do passado que insistisse em puxá-la para trás.
Maya abriu a bolsa e retirou o envelope com os documentos. Currículo. Referências. Nome falso. Uma identidade construída com cuidado, como uma armadura invisível.
Ela se sentou na cama e fechou os olhos por alguns segundos.
Ser babá não fazia parte dos planos que um dia haviam traçado para ela. Mas cuidar nunca fora um problema. Maya tinha paciência. Sensibilidade. Uma capacidade quase instintiva de perceber o que as pessoas não diziam.
Talvez por isso fosse boa em esconder o que sentia.
Pegou o celular e releu a mensagem recebida mais cedo:
Entrevista amanhã às 9h. Endereço abaixo. Seja pontual.
Curta. Direta. Fria.
Ela imaginou Orion Ferraz escrevendo aquela mensagem. Provavelmente sem pensar duas vezes. Provavelmente já decidido a não gostar dela. Homens como ele gostavam de controle. E Maya… não gostava de ser controlada.
Um canto da boca se curvou em um sorriso quase imperceptível.
— Vai ser interessante — murmurou para si mesma.
Naquela noite, demorou a dormir. Não por medo. Mas por aquela sensação incômoda de que algo estava prestes a mudar. Maya não acreditava em destino, mas confiava em instintos. E o dela estava inquieto.
Ela não sabia ainda que aquele emprego não seria apenas um esconderijo.
Nem que Orion Ferraz não seria apenas mais um homem arrogante em sua vida.Sabia apenas de uma coisa:
Alguns segredos sobrevivem ao silêncio.
Outros, não.E o dela estava prestes a ser testado.
O sábado amanheceu lento, como se o tempo tivesse decidido caminhar com cuidado.Maya acordou com o som distante de Enzo rindo no corredor, alguma brincadeira inventada antes mesmo do café da manhã. Espreguiçou-se na cama sem pressa, ouvindo a casa despertar aos poucos. Não havia sobressaltos. Não havia aquele impulso automático de calcular saídas, horários, rotas.Ela apenas levantou.Na cozinha, Enzo tentava alcançar um copo no armário mais baixo, esticando-se todo, concentrado demais para pedir ajuda.— Se cair, vai molhar o chão inteiro — Maya avisou, sem se aproximar.— Eu sei — ele respondeu. — Mas quase consegui ontem.— Ontem não conta — ela disse. — Mas hoje pode contar.Ele sorriu, determinado, e finalmente alcançou o copo. Olhou para ela, orgulhoso.— Viu?— Vi — Maya respondeu. — Conseguiu sozinho.Orion observava da porta, braços cruzados, expressão serena. Não interferiu. Apenas ficou ali, como quem aprende a assistir em vez de conduzir.— Bom dia — ele disse, aproximand
A sexta-feira chegou com cheiro de coisa boa.Maya percebeu isso ainda cedo, quando abriu a janela do quarto e sentiu o ar fresco entrar sem pedir licença. Não havia pressa naquele dia. Nenhuma decisão pendente. Nenhuma conversa pesada à espera. Apenas a sucessão tranquila de horas comuns — e isso, para ela, ainda era novidade.Na cozinha, Enzo já estava acordado, sentado no balcão, balançando as pernas enquanto Dona Cida preparava o café.— Hoje é dia de filme — ele anunciou assim que viu Maya. — O pai deixou.— Deixou? — ela perguntou, surpresa.— Disse que sexta pode — Enzo respondeu, orgulhoso, como se tivesse conquistado um direito histórico.Orion apareceu logo depois, ajeitando o relógio no pulso.— Sexta-feira precisa de pequenas concessões — disse, como se justificasse para si mesmo.Maya sorriu. Não comentou. Aprendera que algumas mudanças precisavam acontecer sem aplausos para continuarem existindo.Depois que Enzo saiu para a escola, a casa ficou silenciosa outra vez. Maya
O ensaio na escola aconteceu numa quinta-feira clara, dessas em que o sol parece disposto a colaborar com tudo.Maya chegou alguns minutos antes do horário, sentou-se em um dos bancos do pátio e observou as crianças se organizando em pequenos grupos desordenados. Risadas altas, professores pedindo silêncio, vozes infantis que nunca soavam no mesmo tom. Era um caos leve, quase bonito.Orion chegou logo depois.Não de terno. Não apressado. Apenas ele, com uma camisa simples e o celular guardado no bolso, como se tivesse decidido, por algumas horas, não ser CEO de nada.— Achei que você não viria — Maya comentou, sem acusação.— Eu disse que viria — ele respondeu. — Estou tentando cumprir o que digo.Ela assentiu, respeitando aquele esforço silencioso.Enzo apareceu no palco improvisado alguns minutos depois, nervoso demais para olhar diretamente para eles. Maya acenou de leve, sem exagerar. Orion apenas levantou o polegar. O menino pareceu relaxar um pouco.Durante o ensaio, Maya perceb
A paz continuava ali — não como promessa, mas como prática diária.Maya percebeu isso ao acordar com o som distante de Orion conversando baixo ao telefone, a voz controlada, mas sem a rigidez de antes. Não era uma ligação tensa. Era trabalho. Apenas trabalho. O tipo de detalhe que, semanas atrás, teria colocado o corpo dela inteiro em alerta.Agora, não.Ela ficou alguns segundos deitada, observando a luz entrar pela fresta da cortina. O quarto ainda não era exatamente dela, mas já não parecia um lugar provisório. Havia livros na mesinha, um cachecol pendurado na cadeira, pequenos sinais de permanência que não gritavam, mas afirmavam.Quando saiu para a cozinha, encontrou Enzo sentado à mesa, concentrado em um caderno.— Você tá acordada cedo — ele comentou, sem levantar os olhos.— Você também — Maya respondeu.— Hoje é dia de ensaio da música — ele disse, como se aquilo explicasse tudo.Ela sorriu.— Nervoso?— Um pouco — confessou. — Mas eu gosto quando você fica lá.— Eu vou ficar
Os dias seguintes não trouxeram ameaças.Nenhuma ligação estranha. Nenhum carro parado tempo demais na esquina. Nenhum nome jogado ao vento como aviso. E, mesmo assim, Maya sentia que tudo estava sendo observado de longe — como um predador que se satisfaz em esperar.Ainda assim, a vida continuava.E isso, por si só, era revolucionário.Naquela manhã, Enzo insistiu em fazer o próprio café da manhã. O resultado foi uma bagunça considerável, mas Maya deixou. Orion observou da porta, dividido entre a vontade de intervir e a curiosidade de ver até onde o filho iria sozinho.— Não tá perfeito — Enzo avaliou o pão torto no prato. — Mas dá pra comer.— Dá sim — Maya respondeu. — Nem tudo precisa ser perfeito.Orion lançou-lhe um olhar rápido. A frase não era apenas sobre pão.Depois que Enzo saiu para a escola, Maya e Orion ficaram na cozinha, cada um ocupado com algo pequeno demais para justificar o silêncio confortável que se formou entre eles.— Eu falei com meu advogado de novo — Orion c
A casa pareceu diferente naquela noite.Não porque algo tivesse mudado fisicamente, mas porque a decisão de Maya havia ocupado espaço. Era como se cada cômodo soubesse que ela não estava mais ali por acaso. Que não havia rota de fuga preparada em silêncio. Que alguém tinha escolhido ficar — mesmo sabendo o preço.Maya demorou a pegar no sono.Não por medo imediato, mas por uma estranha lucidez. Ficar exigia mais coragem do que fugir jamais exigira. Fugir era instinto. Ficar era escolha consciente.Quando acordou, ainda estava escuro. Levantou-se devagar, caminhou até a cozinha e colocou água para ferver. O som baixo da chaleira foi o primeiro ruído do dia.Orion apareceu minutos depois, igualmente desperto cedo demais.— Você não dorme quando está pensando demais — ele comentou, servindo café.— Nem você — Maya respondeu.Eles trocaram um olhar breve. Não havia tensão. Havia alinhamento.— Eu liguei para meu advogado ontem à noite — Orion disse, direto. — Não expliquei tudo. Ainda. Ma





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