Mundo de ficçãoIniciar sessão
Maya Cortez aprendeu cedo que o silêncio podia ser uma forma de sobrevivência.
Naquela tarde, sentada à mesa pequena de uma cafeteria quase vazia, ela girava a colher dentro do café já frio enquanto fingia ouvir a mulher à sua frente. O barulho do metal batendo na porcelana era suave, repetitivo, quase reconfortante. Um som simples, comum. Exatamente como ela tentava ser.
— Você tem certeza disso, Maya? — perguntou Sofia, inclinando-se para frente, com a testa franzida. — Babá?
Maya ergueu o olhar devagar. Seus olhos castanhos eram firmes, apesar do cansaço que carregavam. Havia semanas que não dormia direito. Meses que não se sentia segura. Anos que não se sentia livre.
— Tenho — respondeu, sem hesitar.
Sofia soltou um suspiro curto, daqueles cheios de coisas não ditas.
— Você podia ir para qualquer lugar do mundo. Podia sumir de um jeito… confortável. E escolhe isso?
Maya deu um meio sorriso. Não era irônico. Era honesto.
— Justamente por isso.
Ela não explicou mais. Não precisava. Sofia sabia demais. Talvez até demais.
Até poucos meses atrás, Maya Cortez vivia em um mundo onde portas se abriam antes mesmo de serem tocadas. Um sobrenome que pesava. Uma herança que vinha acompanhada de expectativas, regras e um controle disfarçado de proteção. Ela cresceu cercada de luxo, mas nunca de escolhas reais.
Quando tudo desmoronou — o escândalo, as manchetes, os olhares curiosos e os julgamentos silenciosos —, Maya entendeu que o dinheiro não a salvaria. Pelo contrário. Era exatamente aquilo que a colocava em perigo.
Desaparecer não era covardia.
Era estratégia.— Esse emprego… — Sofia insistiu — Você sabe quem ele é, não sabe?
Maya assentiu.
Claro que sabia.
Orion Ferraz.
CEO de uma das maiores empresas de tecnologia do país. Nome constante em revistas de negócios, capas que sempre o mostravam sério, distante, impecável. Um homem conhecido por ser brilhante e difícil. Extremamente difícil.
— Ele tem um filho pequeno — continuou Sofia. — Demitiu as últimas duas babás em menos de três meses.
— Eu sei — Maya respondeu.
— Dizem que ele é arrogante.
— Dizem muitas coisas — rebateu, dando de ombros.
O que não dizia em voz alta era que aquele tipo de homem não a intimidava. Maya crescera cercada de figuras poderosas, homens que confundiam autoridade com controle. Ela sabia reconhecê-los. Sabia como manter distância emocional deles.
E, acima de tudo, sabia como não se impressionar.
— Você não acha arriscado demais? — Sofia perguntou, mais baixo agora. — Trabalhar dentro da casa de alguém como ele?
Maya olhou ao redor da cafeteria. Um casal discutia baixinho em uma mesa distante. Uma mulher mexia no celular, alheia ao mundo. Tudo parecia… normal. E era exatamente isso que ela queria.
— É seguro — disse. — Ele não sabe quem eu sou. E não vai saber.
Sofia apertou os lábios, claramente desconfortável.
— E se descobrir?
Maya inclinou a cabeça, pensativa.
— Então eu vou embora. Como sempre fiz.
Havia uma tristeza contida naquela frase. Não era dramática, apenas real.
Maya se levantou alguns minutos depois, despedindo-se rapidamente. Caminhou pelas ruas com passos firmes, o casaco fechado até o pescoço, como se quisesse se misturar à cidade. Gostava daquele anonimato. De não ser reconhecida. De não carregar olhares curiosos ou sussurros atrás de si.
O apartamento pequeno que alugara ficava em um prédio antigo, sem elevador. Três lances de escada que ela subia todos os dias, sentindo o corpo cansar e a mente clarear. Cada degrau era um lembrete de que aquela vida era escolha dela.
Dentro do apartamento, tudo era simples. Poucos móveis. Poucos objetos. Nenhuma fotografia antiga. Nenhuma lembrança do passado que insistisse em puxá-la para trás.
Maya abriu a bolsa e retirou o envelope com os documentos. Currículo. Referências. Nome falso. Uma identidade construída com cuidado, como uma armadura invisível.
Ela se sentou na cama e fechou os olhos por alguns segundos.
Ser babá não fazia parte dos planos que um dia haviam traçado para ela. Mas cuidar nunca fora um problema. Maya tinha paciência. Sensibilidade. Uma capacidade quase instintiva de perceber o que as pessoas não diziam.
Talvez por isso fosse boa em esconder o que sentia.
Pegou o celular e releu a mensagem recebida mais cedo:
Entrevista amanhã às 9h. Endereço abaixo. Seja pontual.
Curta. Direta. Fria.
Ela imaginou Orion Ferraz escrevendo aquela mensagem. Provavelmente sem pensar duas vezes. Provavelmente já decidido a não gostar dela. Homens como ele gostavam de controle. E Maya… não gostava de ser controlada.
Um canto da boca se curvou em um sorriso quase imperceptível.
— Vai ser interessante — murmurou para si mesma.
Naquela noite, demorou a dormir. Não por medo. Mas por aquela sensação incômoda de que algo estava prestes a mudar. Maya não acreditava em destino, mas confiava em instintos. E o dela estava inquieto.
Ela não sabia ainda que aquele emprego não seria apenas um esconderijo.
Nem que Orion Ferraz não seria apenas mais um homem arrogante em sua vida.Sabia apenas de uma coisa:
Alguns segredos sobrevivem ao silêncio.
Outros, não.E o dela estava prestes a ser testado.







