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CAPÍTULO 3 O centro da casa

Antes que ele dissesse qualquer outra coisa, passos pequenos ecoaram no corredor. Maya ouviu primeiro: o arrastar leve de pés descalços. Depois, uma presença.

Uma criança surgiu na entrada da cozinha.

Menino. Talvez cinco anos. Cabelo castanho escuro, bagunçado. Olhos grandes, atentos, como se já soubesse demais. Vestia pijama e segurava um brinquedo amassado — um dinossauro verde com uma das pernas tortas.

Ele parou ao ver Maya. Não sorriu. Não correu. Apenas ficou ali, observando.

Orion se virou para o menino e, por um instante quase imperceptível, o rosto dele mudou. Não ficou doce. Não ficou sorridente. Mas algo… suavizou. Como se a rigidez se deslocasse meio centímetro para o lado.

— Enzo — Orion chamou. — Vem cá.

O menino apertou o dinossauro, deu dois passos e parou de novo. O olhar voltou para Maya.

— Quem é ela? — perguntou, desconfiado.

Maya sentiu a pergunta como um choque. A sinceridade crua de criança sempre tinha esse poder. Ela respirou fundo e sorriu pequeno — não grande demais para parecer falsa.

Orion respondeu por ela, do jeito dele: rápido, direto.

— É a nova babá. Se der certo.

Maya piscou uma vez. Se der certo. Como se ela fosse um teste de produto. Como se aquilo não envolvesse uma pessoa.

Enzo franziu o nariz.

— Eu não quero babá.

Orion suspirou. Um suspiro controlado, mas cansado.

— Nós já conversamos sobre isso.

— Eu não gosto. — O menino apertou o dinossauro com mais força. — Elas vão embora.

Por um segundo, o silêncio ficou pesado. Maya sentiu que ali estava o centro da casa: não as regras, não o luxo, não o CEO. O centro era aquela frase curta de uma criança que já tinha medo de abandono.

Orion ficou imóvel. Os olhos dele se prenderam ao filho, e a frieza habitual parecia lutar com outra coisa.

— Enzo… — ele disse, mais baixo.

Maya observou aquele pai e aquele filho por um instante que pareceu longo demais. Ela não conhecia a história, mas reconhecia os sinais. A rigidez do homem. A desconfiança do menino. O jeito como os dois carregavam perda como quem carrega uma mochila invisível.

Ela se levantou devagar da cadeira, sem movimentos bruscos, e se aproximou apenas o suficiente para não invadir.

— Oi, Enzo — disse, no tom mais natural possível. — Eu sou a Maya.

O menino não respondeu.

Maya olhou para o dinossauro.

— Ele tem nome?

Enzo olhou para o brinquedo como se ele fosse sua única segurança.

— Dino.

Maya assentiu, fingindo seriedade.

— Dino é um nome forte. Ele parece… bravo.

O menino estreitou os olhos.

— Ele morde.

— Ainda bem — Maya respondeu. — Tem gente que merece.

Por um segundo, o canto da boca de Enzo tremeu, como se ele quase fosse sorrir — quase. Mas segurou.

Orion, atrás, observava em silêncio. Maya sentia o olhar dele como uma lâmina nas costas. Ele analisava cada palavra, cada aproximação. Como se procurasse um erro. Um exagero. Um teatro.

Maya voltou a encarar Enzo.

— Eu não vou te forçar a gostar de mim — ela disse, simples. — Mas eu posso tentar cuidar de você do jeito que você precisa.

Enzo franziu a testa.

— Você vai embora?

Maya poderia mentir. Seria fácil. Prometer que não. Prometer o impossível.

Mas ela sabia que crianças farejavam mentiras como cães farejavam medo.

— Eu não planejo ir embora — ela respondeu, escolhendo cada palavra. — Mas eu não posso prometer coisas que eu não controlo.

O menino pareceu processar aquilo. Não ficou feliz. Mas ficou… quieto. E, naquele contexto, quieto já era uma vitória.

Orion se levantou de repente, como se aquele momento o incomodasse.

— Chega — ele disse, seco, olhando para Maya. — Você é direta.

— Eu tento ser verdadeira — ela respondeu.

Orion não sorriu.

— Aqui, verdade também tem limite.

A frase foi dita como aviso. Como regra. Como ameaça disfarçada.

— Eu vou explicar como as coisas funcionam — ele continuou. — Meu filho tem rotina. Horários. Regras. Ele não come açúcar, não usa telas sem supervisão, não sai sem autorização.

Maya assentiu, ouvindo.

— E mais uma coisa — Orion acrescentou, encarando-a com firmeza. — Eu não tolero drama. Não tolero improviso. E não tolero mentiras.

Maya sentiu o estômago apertar, mas manteve o rosto calmo.

— Entendido.

Orion caminhou até um painel na parede e apertou um botão. Uma porta se abriu no corredor lateral, revelando uma mulher mais velha, uniforme discreto, expressão neutra.

— Dona Cida — ele disse. — Mostre a casa para a senhorita Cortez. E leve Enzo para trocar de roupa. Ele tem aula às dez.

Dona Cida assentiu.

— Sim, senhor.

Enzo, porém, não se mexeu. Continuou olhando para Maya.

— Você sabe fazer panqueca? — perguntou, do nada.

Maya reprimiu o impulso de rir. Criança era assim. Mudava de assunto quando o coração apertava.

— Sei.

Enzo levantou o queixo.

— Eu só gosto se tiver morango.

— Então a gente faz com morango — ela respondeu.

O menino olhou para Orion rapidamente, como se pedisse permissão. Orion não respondeu. Mas também não proibiu.

E foi exatamente aí que Maya percebeu: naquela casa, tudo parecia precisar da aprovação dele. Até um simples morango.

Dona Cida tocou de leve no ombro do menino.

— Vamos, Enzo.

Ele hesitou. Depois, antes de sair, olhou para Maya uma última vez.

— Se você for embora… — começou.

Maya se inclinou um pouco, sem invadir.

— Se eu for embora, eu vou te avisar — disse, firme. — Combinado?

Enzo encarou-a por mais um segundo, depois assentiu, pequeno, quase invisível.

Quando eles saíram, Orion e Maya ficaram sozinhos.

O silêncio voltou a dominar a cozinha. Agora mais denso. Mais íntimo, de um jeito desconfortável.

Orion se aproximou, parando a poucos passos dela. Perto demais para ser casual, longe demais para ser ameaça física. Mas a presença dele era… pesada.

— Você falou com ele como se já conhecesse — Orion disse.

Maya sustentou o olhar.

— Eu só falei como uma pessoa.

— Pessoas vão embora — Orion respondeu, frio.

A frase não parecia dirigida a Maya. Parecia dirigida ao mundo.

Maya respirou devagar.

— Eu não quero ser mais uma que vai embora.

Orion a encarou como se tentasse ler algo por trás das palavras. Como se, pela primeira vez, suspeitasse que ela não era apenas “uma babá”.

— Você não se intimida — ele concluiu.

— Eu já fui intimidada o suficiente na vida — Maya respondeu, sem pensar.

Assim que as palavras saíram, ela percebeu que tinha dito demais. Um pedaço do passado escapou pelo canto da boca.

Orion notou. Claro que notou. O olhar dele escureceu um pouco.

— Isso foi… interessante — ele disse, lento. — Mas eu não faço perguntas pessoais.

Maya relaxou por dentro, sem demonstrar.

Orion pegou a pasta na bancada e empurrou na direção dela.

— Uma semana de teste. Se eu achar que você não serve, você vai embora com pagamento integral e acabou. Sem insistência. Sem cena.

Maya pegou a pasta.

— E se eu achar que eu não sirvo?

Orion encarou-a, como se não estivesse acostumado a alguém inverter o jogo.

— Então você vai embora — ele respondeu, seco. — E eu continuo tentando.

Maya assentiu.

— Certo.

Orion se virou como se a conversa já estivesse encerrada, mas parou antes de sair.

— Mais uma coisa, Maya.

Ela levantou o olhar.

Orion hesitou por um segundo, como se escolhesse as palavras.

— Se você machucar meu filho… — ele começou, e não terminou.

Não precisava terminar. O aviso ficou pendurado no ar como uma lâmina.

Maya respondeu sem drama:

— Eu não vou machucar ele.

Orion a encarou mais um instante. Depois saiu, deixando para trás o cheiro do perfume amadeirado e a sensação de que aquela casa tinha paredes que ouviam.

Maya ficou parada, segurando a pasta, tentando manter o coração no ritmo.

Ela tinha vindo para se esconder.

Mas, de repente, parecia que estava entrando num lugar onde cada parte dela seria observada.

E Orion Ferraz…

não era o tipo de homem que deixava alguém passar despercebido por muito tempo.

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