Mundo de ficçãoIniciar sessãoO telefone tocou no meio da tarde.
Maya estava sentada no tapete da sala, montando um quebra-cabeça com Enzo, quando o som cortou o ambiente de forma abrupta. Não era o telefone fixo da casa. Era o celular dela. O que quase nunca tocava.
Ela congelou por meio segundo.
Enzo percebeu.
— Você não vai atender? — perguntou, encaixando uma peça azul no lugar errado.
— Vou — Maya respondeu, tentando manter o tom natural.
Mas o coração já batia diferente.
Ela se levantou e caminhou até o corredor, afastando-se o suficiente para não ser ouvida. Olhou para a tela.
Número desconhecido.
O tipo de coisa que ela evitava há meses.
Respirou fundo antes de atender.
— Alô?
Do outro lado, houve um breve silêncio. Curto demais para ser erro. Longo demais para ser normal.
— Maya Cortez? — a voz feminina perguntou, educada demais.
O estômago de Maya afundou.
— Sim — respondeu, automaticamente.
— Aqui é da portaria do prédio onde a senhora morava antes. Recebemos uma correspondência registrada em seu nome completo. Precisamos confirmar alguns dados para liberação.
Nome completo.
A expressão ecoou na mente dela como um alarme.
— Não moro mais aí — Maya respondeu, controlando a respiração. — Pode devolver ao remetente.
— Infelizmente não podemos — insistiu a voz. — O remetente solicitou entrega pessoal. Inclusive, já houve uma tentativa anterior. A senhora esteve fora?
Maya fechou os olhos por um segundo.
— Estive viajando — mentiu. — Qual é o remetente?
Houve o som de papéis sendo folheados.
— Um escritório de advocacia. Ferraz, Azevedo & Lemos.
O mundo pareceu inclinar levemente.
Ferraz.
Ela abriu os olhos devagar, sentindo a boca secar.
— Deve haver um engano — disse. — Não conheço esse escritório.
— O nome confere — a mulher insistiu. — Maya Cortez. Documento final quatro.
Maya desligou.
Simples assim. Sem despedida. Sem explicação.
Ficou alguns segundos parada, com o celular pressionado contra a orelha, mesmo depois da ligação cair. O silêncio da casa pareceu alto demais.
Ferraz.
Ela conhecia aquele sobrenome melhor do que gostaria. Não o de Orion — ou pelo menos não só o dele. Era um sobrenome comum entre famílias poderosas, escritórios influentes, alianças silenciosas.
O passado tinha dado um jeito de bater à porta.
— Maya? — a voz de Enzo soou do outro lado do corredor. — Você tá bem?
Ela respirou fundo, guardou o celular no bolso e voltou para a sala com um sorriso que precisou ser construído com cuidado.
— Tô sim. Só era propaganda.
Enzo fez uma careta.
— Propaganda liga pra gente?
— Liga — ela respondeu. — Às vezes liga.
Ele aceitou a resposta sem questionar. Crianças tinham uma habilidade curiosa de perceber quando algo estava errado, mas também sabiam quando não insistir.
Maya sentou-se novamente no tapete, mas a atenção já não estava ali. As peças do quebra-cabeça pareciam todas erradas agora. Cada movimento vinha acompanhado de um pensamento inquieto.
Como encontraram esse endereço?
Quem mandou essa correspondência?E por quê agora?O som da porta se abrindo no fim da tarde a fez estremecer.
Orion chegou mais cedo do que o normal.
Ele entrou no apartamento falando ao telefone, expressão fechada, passos firmes. Maya observou de longe enquanto ele caminhava até o escritório, a voz baixa, tensa.
— Não, isso não faz sentido… — dizia. — Eu não autorizei nada ainda.
Ela tentou se concentrar em Enzo, mas as palavras de Orion ecoavam de forma estranha.
Alguns minutos depois, ele desligou e saiu do escritório. O olhar dele encontrou Maya quase de imediato.
— Precisamos conversar — disse.
O coração dela falhou uma batida.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, mantendo a calma.
— Recebi uma ligação estranha — Orion respondeu. — De um escritório jurídico. Queriam confirmar dados sobre alguém que mora… aqui.
O ar pareceu desaparecer do ambiente.
— Sobre quem? — Maya perguntou, sabendo que a pergunta era inútil.
Orion estreitou os olhos.
— Sobre você.
O silêncio caiu pesado entre eles.
Enzo, sentado no chão, olhou de um para o outro.
— Eu fiz alguma coisa errada? — perguntou, inseguro.
— Não — Maya respondeu rápido demais. — Claro que não.
Orion respirou fundo e se abaixou diante do filho.
— Enzo, vai para o quarto um pouco. Depois a gente continua o jogo.
O menino hesitou, mas obedeceu. Levou o dinossauro com ele e desapareceu pelo corredor.
Quando ficaram sozinhos, Orion cruzou os braços.
— Quer me explicar por que um escritório de advocacia está procurando por você usando este endereço?
Maya sentiu o corpo inteiro ficar em alerta. Cada músculo tenso. Cada palavra precisando ser escolhida com cuidado cirúrgico.
— Não sei — respondeu, com sinceridade parcial. — Eu realmente não sei.
— Eles citaram seu nome completo — Orion continuou. — Maya Cortez.
Ela engoliu em seco.
— Esse é meu nome.
— Não é um nome comum — ele observou. — E o escritório não costuma errar dados.
Maya sustentou o olhar dele. Não desviou. Não baixou a cabeça. Mas sentia o peso do passado pressionando o peito.
— Eu não estou escondendo nada que interfira no meu trabalho — disse, firme.
Orion deu um passo à frente.
— Você entende como isso soa?
— Entendo.
— Você aparece do nada. Currículo impecável. Nenhuma rede social. Nenhum vínculo recente. E agora isso.
Maya respirou fundo.
— Você me contratou para cuidar do seu filho — ela respondeu. — E é isso que eu estou fazendo.
— Não é só isso — Orion rebateu. — Você mora aqui. Está dentro da minha casa.
A frase soou diferente. Mais pessoal. Mais carregada.
— Eu sei — Maya disse, mais baixo. — E nunca faria nada para prejudicar você ou o Enzo.
Orion a observou por longos segundos. O rosto dele não era de raiva. Era de desconfiança. E, por baixo dela, algo mais perigoso: curiosidade.
— Quem você é, Maya?
A pergunta pairou no ar.
Ela poderia mentir. Inventar outra história. Criar mais uma camada de proteção.
Mas algo dentro dela — talvez o cansaço, talvez o olhar dele — a fez escolher outro caminho.
— Alguém que precisou desaparecer — respondeu.
Orion não disse nada de imediato.
— Isso não responde muita coisa — ele comentou.
— Eu sei — Maya concordou. — Mas é a única verdade que posso oferecer agora.
O silêncio voltou a se instalar, mais denso do que antes.
Orion passou a mão pelo rosto, claramente irritado consigo mesmo.
— Se isso virar um problema… — começou.
— Eu vou embora — Maya completou, sem hesitar.
Ele a encarou.
— Você faria isso?
— Sim — respondeu. — Antes que respingue no Enzo.
A menção ao filho pareceu atingir algo sensível nele. O maxilar se contraiu.
— Por enquanto — Orion disse, depois de alguns segundos — isso fica entre nós.
Maya piscou.
— O quê?
— Eu vou investigar — ele continuou. — Mas não vou te expor sem saber exatamente do que se trata.
Ela sentiu um alívio perigoso. Aquele que vinha acompanhado de culpa.
— Obrigada — disse, sincera.
Orion a observou com atenção renovada.
— Não agradeça ainda — ele respondeu. — Se eu descobrir que você mentiu…
Ele não terminou a frase.
Não precisava.
Mais tarde, quando Maya se recolheu ao quarto, sentou-se na cama com o celular nas mãos. Havia uma nova notificação.
Uma mensagem sem nome salvo.
Eles estão mais perto do que você imagina.
O sangue gelou.
Maya desligou a tela e abraçou os joelhos, sentindo o peso da escolha que fizera ao aceitar aquele emprego.
Ela não estava mais apenas se escondendo.
Agora, estava sendo encontrada.
E o pior de tudo?
O sobrenome que a perseguia
era o mesmo do homem que começava a confiar nela.






