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CAPÍTULO 5 O nome errado

O telefone tocou no meio da tarde.

Maya estava sentada no tapete da sala, montando um quebra-cabeça com Enzo, quando o som cortou o ambiente de forma abrupta. Não era o telefone fixo da casa. Era o celular dela. O que quase nunca tocava.

Ela congelou por meio segundo.

Enzo percebeu.

— Você não vai atender? — perguntou, encaixando uma peça azul no lugar errado.

— Vou — Maya respondeu, tentando manter o tom natural.

Mas o coração já batia diferente.

Ela se levantou e caminhou até o corredor, afastando-se o suficiente para não ser ouvida. Olhou para a tela.

Número desconhecido.

O tipo de coisa que ela evitava há meses.

Respirou fundo antes de atender.

— Alô?

Do outro lado, houve um breve silêncio. Curto demais para ser erro. Longo demais para ser normal.

— Maya Cortez? — a voz feminina perguntou, educada demais.

O estômago de Maya afundou.

— Sim — respondeu, automaticamente.

— Aqui é da portaria do prédio onde a senhora morava antes. Recebemos uma correspondência registrada em seu nome completo. Precisamos confirmar alguns dados para liberação.

Nome completo.

A expressão ecoou na mente dela como um alarme.

— Não moro mais aí — Maya respondeu, controlando a respiração. — Pode devolver ao remetente.

— Infelizmente não podemos — insistiu a voz. — O remetente solicitou entrega pessoal. Inclusive, já houve uma tentativa anterior. A senhora esteve fora?

Maya fechou os olhos por um segundo.

— Estive viajando — mentiu. — Qual é o remetente?

Houve o som de papéis sendo folheados.

— Um escritório de advocacia. Ferraz, Azevedo & Lemos.

O mundo pareceu inclinar levemente.

Ferraz.

Ela abriu os olhos devagar, sentindo a boca secar.

— Deve haver um engano — disse. — Não conheço esse escritório.

— O nome confere — a mulher insistiu. — Maya Cortez. Documento final quatro.

Maya desligou.

Simples assim. Sem despedida. Sem explicação.

Ficou alguns segundos parada, com o celular pressionado contra a orelha, mesmo depois da ligação cair. O silêncio da casa pareceu alto demais.

Ferraz.

Ela conhecia aquele sobrenome melhor do que gostaria. Não o de Orion — ou pelo menos não só o dele. Era um sobrenome comum entre famílias poderosas, escritórios influentes, alianças silenciosas.

O passado tinha dado um jeito de bater à porta.

— Maya? — a voz de Enzo soou do outro lado do corredor. — Você tá bem?

Ela respirou fundo, guardou o celular no bolso e voltou para a sala com um sorriso que precisou ser construído com cuidado.

— Tô sim. Só era propaganda.

Enzo fez uma careta.

— Propaganda liga pra gente?

— Liga — ela respondeu. — Às vezes liga.

Ele aceitou a resposta sem questionar. Crianças tinham uma habilidade curiosa de perceber quando algo estava errado, mas também sabiam quando não insistir.

Maya sentou-se novamente no tapete, mas a atenção já não estava ali. As peças do quebra-cabeça pareciam todas erradas agora. Cada movimento vinha acompanhado de um pensamento inquieto.

Como encontraram esse endereço?

Quem mandou essa correspondência?

E por quê agora?

O som da porta se abrindo no fim da tarde a fez estremecer.

Orion chegou mais cedo do que o normal.

Ele entrou no apartamento falando ao telefone, expressão fechada, passos firmes. Maya observou de longe enquanto ele caminhava até o escritório, a voz baixa, tensa.

— Não, isso não faz sentido… — dizia. — Eu não autorizei nada ainda.

Ela tentou se concentrar em Enzo, mas as palavras de Orion ecoavam de forma estranha.

Alguns minutos depois, ele desligou e saiu do escritório. O olhar dele encontrou Maya quase de imediato.

— Precisamos conversar — disse.

O coração dela falhou uma batida.

— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, mantendo a calma.

— Recebi uma ligação estranha — Orion respondeu. — De um escritório jurídico. Queriam confirmar dados sobre alguém que mora… aqui.

O ar pareceu desaparecer do ambiente.

— Sobre quem? — Maya perguntou, sabendo que a pergunta era inútil.

Orion estreitou os olhos.

— Sobre você.

O silêncio caiu pesado entre eles.

Enzo, sentado no chão, olhou de um para o outro.

— Eu fiz alguma coisa errada? — perguntou, inseguro.

— Não — Maya respondeu rápido demais. — Claro que não.

Orion respirou fundo e se abaixou diante do filho.

— Enzo, vai para o quarto um pouco. Depois a gente continua o jogo.

O menino hesitou, mas obedeceu. Levou o dinossauro com ele e desapareceu pelo corredor.

Quando ficaram sozinhos, Orion cruzou os braços.

— Quer me explicar por que um escritório de advocacia está procurando por você usando este endereço?

Maya sentiu o corpo inteiro ficar em alerta. Cada músculo tenso. Cada palavra precisando ser escolhida com cuidado cirúrgico.

— Não sei — respondeu, com sinceridade parcial. — Eu realmente não sei.

— Eles citaram seu nome completo — Orion continuou. — Maya Cortez.

Ela engoliu em seco.

— Esse é meu nome.

— Não é um nome comum — ele observou. — E o escritório não costuma errar dados.

Maya sustentou o olhar dele. Não desviou. Não baixou a cabeça. Mas sentia o peso do passado pressionando o peito.

— Eu não estou escondendo nada que interfira no meu trabalho — disse, firme.

Orion deu um passo à frente.

— Você entende como isso soa?

— Entendo.

— Você aparece do nada. Currículo impecável. Nenhuma rede social. Nenhum vínculo recente. E agora isso.

Maya respirou fundo.

— Você me contratou para cuidar do seu filho — ela respondeu. — E é isso que eu estou fazendo.

— Não é só isso — Orion rebateu. — Você mora aqui. Está dentro da minha casa.

A frase soou diferente. Mais pessoal. Mais carregada.

— Eu sei — Maya disse, mais baixo. — E nunca faria nada para prejudicar você ou o Enzo.

Orion a observou por longos segundos. O rosto dele não era de raiva. Era de desconfiança. E, por baixo dela, algo mais perigoso: curiosidade.

— Quem você é, Maya?

A pergunta pairou no ar.

Ela poderia mentir. Inventar outra história. Criar mais uma camada de proteção.

Mas algo dentro dela — talvez o cansaço, talvez o olhar dele — a fez escolher outro caminho.

— Alguém que precisou desaparecer — respondeu.

Orion não disse nada de imediato.

— Isso não responde muita coisa — ele comentou.

— Eu sei — Maya concordou. — Mas é a única verdade que posso oferecer agora.

O silêncio voltou a se instalar, mais denso do que antes.

Orion passou a mão pelo rosto, claramente irritado consigo mesmo.

— Se isso virar um problema… — começou.

— Eu vou embora — Maya completou, sem hesitar.

Ele a encarou.

— Você faria isso?

— Sim — respondeu. — Antes que respingue no Enzo.

A menção ao filho pareceu atingir algo sensível nele. O maxilar se contraiu.

— Por enquanto — Orion disse, depois de alguns segundos — isso fica entre nós.

Maya piscou.

— O quê?

— Eu vou investigar — ele continuou. — Mas não vou te expor sem saber exatamente do que se trata.

Ela sentiu um alívio perigoso. Aquele que vinha acompanhado de culpa.

— Obrigada — disse, sincera.

Orion a observou com atenção renovada.

— Não agradeça ainda — ele respondeu. — Se eu descobrir que você mentiu…

Ele não terminou a frase.

Não precisava.

Mais tarde, quando Maya se recolheu ao quarto, sentou-se na cama com o celular nas mãos. Havia uma nova notificação.

Uma mensagem sem nome salvo.

Eles estão mais perto do que você imagina.

O sangue gelou.

Maya desligou a tela e abraçou os joelhos, sentindo o peso da escolha que fizera ao aceitar aquele emprego.

Ela não estava mais apenas se escondendo.

Agora, estava sendo encontrada.

E o pior de tudo?

O sobrenome que a perseguia

era o mesmo do homem que começava a confiar nela.

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