Início / Romance / HERANÇA DE AMOR / CAPÍTULO 4 Primeiro dia
CAPÍTULO 4 Primeiro dia

Maya acordou antes do despertador tocar.

Ainda estava escuro quando abriu os olhos, o quarto silencioso e pequeno demais para os pensamentos que insistiam em correr soltos. Ficou alguns segundos deitada, encarando o teto, respirando devagar, como fazia sempre que precisava organizar a mente antes de enfrentar algo novo.

Primeiros dias importavam.

Primeiras impressões também.

Levantou-se, tomou um banho rápido e vestiu uma roupa confortável, mas alinhada. Nada que chamasse atenção, nada que parecesse desleixo. Prendeu o cabelo de forma simples e colocou pouca maquiagem — apenas o suficiente para parecer descansada, mesmo não estando.

Quando saiu do apartamento, o céu ainda começava a clarear.

Na cobertura de Orion Ferraz, o dia já havia começado.

Maya chegou alguns minutos antes do horário combinado. Dona Cida abriu a porta e a cumprimentou com um aceno discreto.

— Bom dia, dona Maya.

— Bom dia — respondeu, com um sorriso educado.

A casa estava diferente daquela da entrevista. Menos silenciosa, mais viva. Havia cheiro de café fresco, o som distante de um noticiário baixo vindo da cozinha e passos firmes ecoando pelo corredor.

Orion apareceu poucos segundos depois, já vestido com terno escuro, gravata ajustada, celular na mão. Parecia outra pessoa comparado ao homem de camisa dobrada do dia anterior. Mais fechado. Mais inacessível.

— Bom dia — disse, sem emoção.

— Bom dia — Maya respondeu.

— Enzo acorda às sete. Café às sete e meia. Aula às dez. — Ele falava como se estivesse lendo uma agenda interna. — Dona Cida cuida da casa. Você cuida dele.

— Certo.

— Nada de açúcar no café da manhã.

Maya assentiu.

— Nada de telas antes da aula.

— Entendido.

Orion a observou por um segundo extra, como se procurasse alguma reação. Algo que mostrasse desconforto ou resistência. Não encontrou.

— Alguma dúvida? — perguntou.

— Não.

Ele pareceu satisfeito.

— Ótimo. — Olhou o relógio. — Preciso sair. Volto no fim da tarde.

Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Enzo surgiu no corredor, já vestido, mochila nas costas e o dinossauro verde debaixo do braço. O olhar dele foi direto para Maya.

— Você voltou — constatou.

— Voltei — ela respondeu, no mesmo tom.

Enzo olhou rapidamente para o pai, como se esperasse uma confirmação.

— Ela vai ficar com você hoje — Orion disse. — Comporte-se.

O menino fez uma careta mínima.

— Eu me comporto.

— Nem sempre — Orion rebateu.

Maya percebeu a tensão ali. Pequena, mas constante. Um pai exigente demais. Um filho tentando se encaixar.

— Vamos tomar café? — ela sugeriu, desviando o foco.

Enzo hesitou, depois assentiu.

Na cozinha, Maya preparou algo simples: pão integral, frutas, leite. Nada de açúcar. Nada que quebrasse as regras. Pelo menos não naquele primeiro dia.

— Você faz comida? — Enzo perguntou, desconfiado.

— Faço.

— Todas as babás dizem isso.

— Então eu vou provar — Maya respondeu, entregando o prato a ele.

Enzo mordeu o pão e mastigou em silêncio. Depois, deu de ombros.

— Não é ruim.

— Que elogio generoso — ela comentou, sem ironia.

Ele quase sorriu.

Quando Orion saiu, a casa pareceu relaxar um pouco. Não menos organizada, mas menos tensa. Maya sentiu isso no ar, no jeito como Dona Cida andava mais solta, no modo como Enzo respirava sem parecer estar sendo avaliado.

— Ele é bravo — Enzo comentou, do nada.

Maya ajoelhou-se à frente dele, ficando na mesma altura.

— Seu pai?

— É. — Ele apertou o dinossauro. — Mas ele não é mau.

— Eu sei — Maya disse, sem hesitar.

Enzo franziu a testa.

— Como sabe?

Maya pensou por um segundo.

— Pessoas más não se preocupam tanto.

O menino ficou em silêncio, como se guardasse aquela informação para depois.

Mais tarde, quando era hora de se arrumar para a aula, Enzo travou.

— Eu não quero ir.

Maya respirou fundo. Primeiro conflito. Mais cedo do que ela imaginava.

— Por quê?

— Porque não.

— Isso não é motivo — ela respondeu, calma.

— Eu não gosto quando ele vai embora — Enzo disse, baixo.

Maya sentiu o peso da frase. Não insistiu de imediato. Sentou-se no chão ao lado dele.

— Ele sempre volta.

— Às vezes demora.

— Mas sempre volta — ela reforçou.

Enzo não respondeu. Cruzou os braços e virou o rosto.

Maya olhou o relógio. Ainda havia tempo. Mas não muito.

Ela poderia forçar. Poderia usar autoridade. Mas sabia que isso só criaria mais resistência.

— Quer fazer um acordo? — sugeriu.

Enzo a encarou, desconfiado.

— Que acordo?

— Você vai para a aula hoje. E quando voltar, a gente faz panqueca. Com morango.

Os olhos dele brilharam, apesar do esforço para parecer sério.

— Papai não deixa açúcar.

— Morango não é açúcar — ela rebateu.

Enzo pensou por alguns segundos.

— Só hoje?

— Só hoje.

Ele assentiu.

— Tá.

O resto da manhã correu melhor do que Maya esperava. Ela levou Enzo à aula, esperou, observou de longe. O menino parecia mais tranquilo do que nos dias anteriores, segundo a professora. Aquilo não era um milagre. Era apenas atenção.

Quando voltaram para casa, Maya começou a preparar as panquecas.

— Você prometeu — Enzo lembrou.

— Eu sempre cumpro o que prometo — ela respondeu.

Enquanto cozinhava, sentiu o olhar de alguém sobre ela. Virou-se e encontrou Orion parado na entrada da cozinha.

— Você voltou cedo — ela disse.

— Reunião cancelada — ele respondeu, olhando a cena à frente: Enzo sentado à mesa, animado, o cheiro doce no ar.

O olhar de Orion se estreitou.

— O que é isso?

— Panqueca — Enzo respondeu, antes de Maya. — Com morango.

Orion encarou Maya.

— Açúcar.

— Morango — ela corrigiu, tranquila. — E farinha. E leite. Nada além disso.

Ele ficou em silêncio, analisando.

— Eu disse nada de açúcar.

— Eu respeitei isso — Maya respondeu. — Mas achei importante cumprir um acordo.

Orion cruzou os braços.

— Aqui, quem faz acordos sou eu.

Maya sustentou o olhar dele. O coração acelerado, mas a voz firme.

— Com todo respeito, Orion… — foi a primeira vez que ela disse o nome dele — Enzo também precisa sentir que alguém escuta o que ele sente.

O silêncio que se seguiu foi tenso.

Enzo observava os dois, atento.

Orion desviou o olhar primeiro.

— Só hoje — ele disse, seco. — Não vire rotina.

— Não vai — Maya respondeu.

Orion se virou para sair, mas parou no meio do caminho.

— Ele… — começou, hesitando. — Ele pareceu bem hoje.

Maya não sorriu. Não provocou.

— Ele só precisava disso.

Orion assentiu uma vez, quase imperceptível, e saiu.

Maya observou enquanto ele se afastava, sentindo algo estranho se formar no peito.

Ela tinha quebrado uma regra.

Mas talvez tivesse feito algo certo.

E Orion Ferraz parecia… considerar essa possibilidade.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App