Mundo de ficçãoIniciar sessãoQuando Júlia Romano aceita o trabalho de babá em uma ilha particular de Veneza, acredita estar apenas iniciando um novo capítulo profissional. Mas tudo muda no instante em que conhece Lorenzo Moretti, o bilionário misterioso que carrega um passado manchado pela perda da esposa. Ele é um homem impossível de ignorar: — olhos que parecem enxergar além da pele, — presença dominante que faz o ar pesar, — fragilidade escondida atrás de força, — e uma atração que explode entre eles desde o primeiro olhar. Júlia tenta ignorar. Lorenzo tenta controlar. Nenhum dos dois consegue. A cada dia, o vínculo entre eles se intensifica — primeiro nos silêncios, depois nos toques acidentais, depois em confissões que escapam quando a noite cai sobre Veneza. Lorenzo se vê dividido entre o dever de ser um pai perfeito e o desejo incontrolável pela única mulher capaz de trazer luz ao caos dentro dele. Júlia, por sua vez, sente-se presa entre a ética profissional, o medo crescente dos segredos da mansão e um amor que cresce de forma tão intensa que chega a doer. Enquanto o mistério sobre a morte de Isabella se aprofunda, o romance entre Júlia e Lorenzo se torna perigoso, arrebatador e impossível de evitar. O que os une parece mais forte do que qualquer lógica… mas também poderoso o suficiente para destruí-los. Entre paixão, obsessão e segredos enterrados nas águas escuras de Veneza, nasce um amor que ninguém — nem mesmo eles — consegue controlar. CLASSIFICAÇÃO INDICATIVA 16 anos Temas emocionais intensos (luto, trauma infantil) Não contém erotismo explícito, violência pesada, nem cenas inadequadas envolvendo o Matteo.
Ler mais(Júlia Romano)
O barco avançava lentamente pela lagoa enquanto um vento frio me cortava o rosto. A água escura refletia um céu acinzentado, pesado, como se carregasse presságios demais. Eu mantinha minhas mãos firmes na mala pequena que trazia no colo — o pouco que havia sobrado da minha vida anterior. Veneza sempre fora uma cidade de sonhos para mim. Mas, naquela manhã, ela parecia mais com um labirinto antigo, silencioso e misterioso. Talvez fosse apenas o nervosismo. Talvez fosse algo mais. O barqueiro, um homem de poucas palavras e expressão fechada, apontou para frente. — Lá está a ilha — murmurou. Levantei o olhar e senti o coração apertar. A ilha particular dos Moretti surgia diante de mim como algo tirado de um livro proibido: bela, solitária, com uma mansão que parecia observar o mundo em completo silêncio. Era completamente isolada, cercada por água por todos os lados, com um cais de pedra e árvores escuras que se inclinavam como se guardassem segredos demais. Não sei explicar por quê, mas naquele instante tive a sensação de que estava entrando em algo muito maior do que um simples trabalho. Quando o barco encostou, respirei fundo. Eu precisava daquilo. Precisava recomeçar. Precisava colocar minha vida em ordem — e aceitar o emprego de babá para uma família bilionária era a chance perfeita. Ou pelo menos foi o que eu pensei. Desci e o som dos meus passos ecoou no cais silencioso. Uma mulher elegante, alta, de postura rígida como uma coluna de mármore, aguardava perto da entrada. — Senhorita Romano? — perguntou ela, com uma voz firme. — Sim. Sou eu. — Sou Elisa, a governanta. Seja bem-vinda à Villa Moretti. Ela estendeu a mão, mas seu aperto foi rápido demais, frio demais. A impressão era de que ela executava cada gesto como parte de um ritual que já repetira mil vezes. Caminhamos em direção à mansão. Os portões altos de ferro se abriram com um rangido suave, como um suspiro guardado por anos. Senti um arrepio subir pela minha nuca. No momento em que pus o pé no jardim, tive a estranha sensação de que alguém me observava — não da casa, mas das sombras das árvores. Ignorei. Ou tentei. — O senhor Moretti está trabalhando — informou Elisa. — Ele é um homem muito ocupado, mas pediu que eu a conduzisse até seus aposentos para que pudesse se instalar antes de conhecer Matteo. O menino já está acostumado com rotinas rígidas. Assenti. Não adiantava demonstrar insegurança. Precisava manter a postura de profissional perfeita. Mas enquanto ela falava, minha mente repetia o nome que eu ouvira tantas vezes nos jornais: Lorenzo Moretti. O bilionário recluso. O viúvo marcado por tragédia. O homem que nunca mais foi visto sorrindo desde a morte de Isabella, a esposa amada. Eu nunca imaginei que trabalharia para alguém como ele. E, naquele instante, não fazia ideia do quanto minha vida estava prestes a se entrelaçar com a dele. Entramos na mansão. A primeira coisa que senti foi o silêncio. Não era um silêncio normal; era quase… denso. Como se cada parede carregasse memórias demais, como se a própria casa respirasse. — A senhora ficará no terceiro andar — disse Elisa. — Ao lado do quarto de Matteo. Subimos a escada de mármore e, a cada passo, eu sentia mais claramente aquela mesma presença invisível me acompanhando. Não era medo… era expectativa. Como se algo dentro da casa estivesse aguardando minha chegada. Quando chegamos ao corredor, uma porta se abriu atrás de nós. E então eu o vi. Lorenzo Moretti. Ele saiu de um dos escritórios como alguém acostumado a dominar qualquer ambiente. Alto, impecavelmente vestido de preto, com ombros largos e uma postura que transmitia força e controle absoluto. Mas não foi isso que me paralisou. Foi o olhar dele. Olhos escuros, profundos, intensos — tão intensos que eu tive a sensação absurda de que ele conseguia enxergar além da minha pele, além do meu corpo, além de todas as minhas máscaras. Quando nossos olhares se encontraram, algo dentro de mim se encaixou e desmoronou ao mesmo tempo. Ele não sorriu. Eu não pisquei. Por um segundo, o corredor inteiro pareceu parar. Elisa pigarreou. — Senhor Moretti, está é Júlia Romano… a nova babá de Matteo. Ele desviou o olhar para ela, depois voltou para mim. E não disse nada. Apenas me observou com uma intensidade que queimava mais do que qualquer palavra poderia. Por fim, sua voz baixa e rouca cortou o ar. — Bem-vinda à ilha, senhorita Romano. Só isso. Mas o modo como ele disse "senhorita Romano" fez meu estômago se contrair. — Obrigada, senhor Moretti — respondi, tentando manter firmeza. Ele deu um passo na minha direção. Foi quase imperceptível, mas meu coração disparou. Ele não me tocou — sequer chegou perto —, mas a energia que emanava dele era avassaladora. — Espero que goste do seu novo lar — completou, com uma calma perturbadora. — Esta casa tem… personalidade. O modo como ele disse aquilo me arrepiou. Personalidade. Eu tinha sentido exatamente isso. Ele recuou, passando por nós sem hesitar. O perfume dele — algo amadeirado, quente e masculino — ficou no ar, prendendo minha respiração por alguns segundos longos demais. Quando ele desapareceu escada abaixo, percebi que eu havia segurado o ar sem perceber. Elisa notou. — Ele é… intenso — comentou, quase sem expressão. Eu ri de nervosa. — Isso é um jeito educado de dizer que ele dá medo? — Senhorita Romano… — Ela me olhou de lado. — Medo é uma palavra inadequada para Lorenzo Moretti. Ele é apenas… um homem marcado pela vida. Alguns lidam com a dor em silêncio. Outros em sombras. Aquelas palavras ficaram ecoando dentro de mim. Sombras. Chegando ao quarto, larguei a mala no chão e me aproximei da janela. A vista era linda — a lagoa, a neblina suave, o vento movimentando as árvores. Mas algo ali embaixo, perto do jardim, me chamou atenção. Um vulto. Rápido. Escuro. Passando entre as árvores. Pisquei. E desapareceu. Droga. Eu devia estar cansada. Suspirei e me sentei na cama. No mesmo instante, ouvi passos pequenos no corredor. A porta se abriu devagar. Era Matteo. O filho de Lorenzo. Um menino de uns seis anos, cabelos castanhos bagunçados, olhos enormes e assustadoramente silenciosos. Ele me olhou como se tentasse decifrar quem eu era. Não sorriu. Não falou. — Oi — murmurei com carinho. — Sou a Júlia. Ele deu um passo para trás, mas não fugiu. Apenas me observou com a mesma intensidade estranha que o pai tinha. — Eu posso entrar? — perguntei. Ele não respondeu, mas entrou. Caminhou até a janela e apontou para fora. — O senhor viu isso também? — perguntei, me aproximando. — Parecia um… Antes que eu terminasse a frase, senti algo atrás de mim. Um calor. Uma presença. Virei. Lorenzo estava parado na porta. Observando. Outra vez em silêncio, outra vez com aquele olhar que parecia uma confissão. — Matteo — chamou ele, com voz baixa. — Não incomode a senhorita. O menino correu para ele e se escondeu atrás da perna do pai. Lorenzo passou a mão nos cabelos do filho, mas não tirou os olhos de mim. — Ele fala pouco — explicou. — É… sensível. Sensível. Essa era a palavra mais delicada que eu jamais imaginaria saindo da boca dele. — Ele pode me incomodar sempre que quiser — murmurei. Os olhos de Lorenzo escureceram um pouco mais. Como se algo nele reagisse ao modo como eu falei do filho dele. Como se aquilo o afetasse de um jeito que ele não queria demonstrar. — É melhor você descansar — disse ele. — Começará cedo amanhã. Assenti, mas antes que eu pudesse responder, Matteo olhou para mim e disse, em voz baixinha: — A ilha fala. Meu coração parou. Olhei para Lorenzo. Mas ele não pareceu surpreso. Apenas… tenso. — Matteo — disse, firme. — Chega por hoje. E antes que eu pudesse perguntar o que aquilo significava, ele puxou o menino pela mão e saiu, fechando a porta atrás de si. Fiquei sozinha. E naquele silêncio espesso, senti outra vez a mesma coisa de antes: Alguém — ou algo — observava. Mas o que mais me assustou não foi isso. Foi o fato de que, mesmo com a casa inteira me causando arrepios, a única imagem que não saía da minha mente era a de Lorenzo Moretti me olhando como se eu fosse a primeira luz que entrava naquele lugar em anos. E, de algum modo inexplicável, uma parte de mim… queria mais.Eu não dormi naquela noite.Mesmo depois que Matteo voltou a adormecer, tranquilo, respirando de forma leve e regular, eu permaneci sentada ao lado da cama dele, com as mãos entrelaçadas no colo, o coração inquieto, o corpo ainda vibrando com o que havia acontecido no jardim.O abraço de Lorenzo não saía de mim.Não foi um abraço comum. Não foi um gesto educado ou casual. Foi um pedido mudo. Um pedido desesperado. Como se ele tivesse se segurado em mim para não afundar.E talvez tivesse mesmo.Passei os dedos pelos cabelos de Matteo uma última vez antes de sair do quarto, fechando a porta com cuidado. O corredor estava silencioso, iluminado apenas pela luz baixa das arandelas antigas. Tudo ali parecia carregar ecos — passos que já não existiam, vozes que o tempo se recusava a apagar.E eu sentia que não estava sozinha.Não no sentido literal.Mas porque Lorenzo ainda estava em mim.No meu corpo.Na minha respiração.Naquele espaço perigoso entre razão e desejo.Quando cheguei ao meu q
O vento daquela noite soprava com a suavidade de dedos invisíveis percorrendo as paredes antigas da mansão Moretti. Do meu quarto, eu conseguia ouvir o som da água batendo contra a margem da ilha, um ritmo lento, quase hipnótico, que sempre tinha o poder de me acalmar. Mas naquela noite, nenhuma calmaria me alcançava.Eu andava de um lado para o outro, inquieta, incapaz de entender o turbilhão que se agitava dentro de mim desde o momento em que Lorenzo tocara meu rosto horas antes. Um toque simples… mas que incendiara cada parte do meu corpo como se ele tivesse encostado direto no meu coração.Eu deveria ter me afastado. Deveria ter dito algo profissional, algo sensato.Mas não disse.Eu apenas senti. Senti demais.Suspirei, esfregando as mãos no rosto, tentando recuperar o autocontrole. Eu não podia me permitir sentir aquilo por ele. Não por Lorenzo Moretti. Não por um homem que carregava o peso de um passado sombrio, uma marca de luto nos olhos e uma intensidade que parecia perigosa
(Julia)O dia seguinte amanheceu com uma névoa espessa, cobrindo a ilha como um véu silencioso. Era como se o céu tivesse decidido esconder o mundo, abafando sons, apagando contornos, deixando apenas as sensações mais profundas vibrando no ar.Eu acordei antes do horário, incapaz de dormir depois do que acontecera na noite anterior.O toque dele ainda queimava na minha pele.A forma como Lorenzo segurara meu rosto, como seu olhar parecia prender minha alma, como se estivesse tão próximo de me beijar que meu coração saltava contra meu peito… tudo aquilo continuava pulsando dentro de mim, como uma lembrança viva, indomável, insistente.Eu não deveria me sentir assim.Eu não poderia me sentir assim.Mas eu sentia.E aquilo estava me destruindo por dentro.---Desci para a cozinha em silêncio, imaginando que encontraria apenas Dona Carmela preparando o café. Mas quando virei o corredor, quase colidi com alguém.Alguém alto. Forte. Com cheiro de roupas bem cortadas, perfume amadeirado e pr
(Lorenzo)Há um momento exato em que o instinto deixa de servir apenas para proteger.Ele passa a existir para impedir que a gente se destrua.Eu reconheci esse momento quando saí do quarto de Júlia naquela noite. O corredor pareceu mais estreito, mais escuro, mais consciente da minha presença — como se a mansão inteira soubesse que algo havia mudado irrevogavelmente.Eu toquei nela.Nada explícito. Nada que pudesse ser explicado com facilidade. Mas toquei o suficiente para admitir o que vinha negando desde o primeiro dia: Júlia Romano não era uma distração passageira. Ela era uma ameaça direta ao sistema rígido que mantive de pé por anos.E, pior, uma ameaça que eu não queria eliminar.Desci as escadas com passos silenciosos, minha mente trabalhando rápido demais. As palavras que vi no papel — Algumas verdades não se afogam — ecoavam como um lembrete cruel. Isabella recebera avisos semelhantes. Não exatamente assim. Mas o significado era o mesmo.Você sabe demais.Você não deveria sa
(Júlia)Há lugares que nos observam antes mesmo de sabermos que estamos sendo observados.Naquela manhã, acordei com essa sensação cravada no peito. Não foi um barulho. Não foi um sonho ruim. Foi a certeza incômoda de que algo — alguém — havia ultrapassado uma linha invisível.A mansão estava silenciosa demais.Levantei-me devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse acordar não apenas a casa, mas o que quer que estivesse espreitando por trás dela. Caminhei até a janela. A névoa matinal envolvia os canais de Veneza como um véu antigo, escondendo mais do que revelando.Senti um arrepio.Desde a noite anterior, desde o medalhão, nada parecia normal. E Lorenzo… Lorenzo era uma presença constante nos meus pensamentos, mesmo quando eu tentava afastá-lo.Ou principalmente quando tentava.Desci para a cozinha e encontrei Matteo desenhando à mesa. Ele levantou a cabeça e sorriu ao me ver, aquele sorriso que aquecia algo ferido dentro de mim.— Bom dia, Júlia.— Bom dia, campeão.Observe
(Lorenzo )O medalhão não deveria estar ali.Essa foi a primeira coisa que pensei quando a luz do salão se estabilizou e o objeto refletiu um brilho pálido contra o mármore. Por um instante, cheguei a acreditar que meus olhos estavam me enganando — que a noite, o cansaço e os fantasmas haviam decidido brincar comigo. Mas não era ilusão. Eu conhecia aquele medalhão melhor do que qualquer outra coisa neste mundo.O frio que ele carregava não vinha do metal.Vinha da memória.Eu o segurei com cuidado demais, como se tocar nele pudesse acordar algo que nunca deveria acordar. Na minha mente, vi Isabella usando-o, inclinando a cabeça de leve enquanto sorria para mim, sempre daquele jeito que misturava mistério e algo indecifrável. Isabella nunca foi simples. Nunca foi frágil. Nunca foi previsível.E ninguém nunca entendeu isso além de mim.Ou talvez… eu tenha fingido não entender.— Vá para o quarto de Matteo — eu disse a Júlia, a voz saindo mais dura do que eu pretendia.Não porque ela tiv
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