(Lorenzo)
Há um momento exato em que o instinto deixa de servir apenas para proteger.
Ele passa a existir para impedir que a gente se destrua.
Eu reconheci esse momento quando saí do quarto de Júlia naquela noite. O corredor pareceu mais estreito, mais escuro, mais consciente da minha presença — como se a mansão inteira soubesse que algo havia mudado irrevogavelmente.
Eu toquei nela.
Nada explícito. Nada que pudesse ser explicado com facilidade. Mas toquei o suficiente para admitir o que vinha negando desde o primeiro dia: Júlia Romano não era uma distração passageira. Ela era uma ameaça direta ao sistema rígido que mantive de pé por anos.
E, pior, uma ameaça que eu não queria eliminar.
Desci as escadas com passos silenciosos, minha mente trabalhando rápido demais. As palavras que vi no papel — Algumas verdades não se afogam — ecoavam como um lembrete cruel. Isabella recebera avisos semelhantes. Não exatamente assim. Mas o significado era o mesmo.
Você sabe demais.
Você não deveria sa