Inicio / Romance / Entre Sombras em Veneza: A Babá e o Bilionário / CAPÍTULO 2 — O PESO DAS SOMBRAS E A LUZ QUE NÃO ESPERAVA
CAPÍTULO 2 — O PESO DAS SOMBRAS E A LUZ QUE NÃO ESPERAVA

(Lorenzo Moretti)

Eu sempre acreditei que certas pessoas simplesmente passam pela nossa vida sem deixar marca. Que a maioria das conexões humanas são breves, rasas, esquecíveis. Depois da morte de Isabella, essa crença se tornou quase uma regra… ou uma defesa.

Mas quando vi Júlia Romano pela primeira vez no corredor, algo em mim — algo que eu pensei estar morto — reagiu.

Foi rápido. Um segundo. Um encontro de olhares. Mas foi suficiente para desestabilizar algo que venho tentando manter intacto há anos.

Ela era diferente do que eu esperava. Não tinha aquela presença rígida e previsível que todas as babás anteriores demonstravam. Não havia medo, bajulação ou frieza profissional. Havia… vida. Uma luz inquieta. Uma força silenciosa.

E eu não precisava de mais luz na minha vida. Luz ilumina sombras. Luz revela o que deve ficar escondido.

Voltei ao escritório depois daquele primeiro encontro, mas minha mente não me obedecia. Em vez de focar nos relatórios, revisões e contratos, eu me peguei repetindo a mesma cena.

Os olhos dela.

A expressão surpresa ao me ver.

A respiração que prendeu por um breve instante.

Eu não deveria ter reparado em nada disso.

Mas reparei.

Deus, como reparei.

Passei as mãos pelo rosto, tentando espantar aquela sensação incômoda que crescia em mim. A presença dela na casa já estava mexendo com Matteo — eu sentia isso. Meu filho reagia de maneira diferente quando algo novo entrava no ambiente… e Júlia não parecia algo pequeno. Ela parecia… importante demais.

E isso era perigoso.

Para ela.

Para nós.

Para o que eu tinha jurado jamais repetir.

Fechei os olhos por um instante, respirando fundo. Eu já tinha me acostumado ao peso da solidão. Ao silêncio. À ilha falando comigo de formas que ninguém entenderia. Mas a presença de Júlia… aquilo era uma nova forma de caos.

E o caos sempre cobra caro.

---

Mais tarde, quando ouvi passos leves no corredor, eu soube que eram os dela. Não sei explicar como — eu apenas soube. Como se meu corpo reconhecesse antes da minha mente.

E então ouvi outro par de passos. Pequenos.

Matteo.

Por um momento, pensei em deixar que ele a observasse sozinho. Matteo raramente se aproximava de alguém. Se ele tinha ido até ela por conta própria… era surpreendente. E isso me fez querer observar.

Fui até o corredor em silêncio e parei na porta entreaberta.

Júlia estava ajoelhada diante do meu filho, com um sorriso suave que eu não via fazia anos. Nem Isabella sorria assim para ele. Não daquele jeito. Não com tanta delicadeza, com tanta… verdade.

Meu peito apertou.

Matteo olhava para ela com curiosidade — algo raro nele. Quase um reconhecimento silencioso. Uma conexão imediata.

E eu não sei por quê, mas aquilo me deu medo.

A ligação dela com Matteo poderia ser… perigosa.

Para o menino.

Para ela.

Para mim.

Abri a porta devagar. A energia do ambiente mudou no instante em que ela percebeu minha presença. Seu corpo ficou tenso. Os olhos ergueram-se para os meus.

E meu mundo… ficou menor.

Um corredor. Ela. Meu filho. Nada mais existia.

— Matteo — chamei, tentando manter minha voz uniforme. — Não incomode a senhorita.

O menino correu para mim, como sempre fazia quando algo o deixava confuso demais. Coloquei a mão no cabelo dele, um gesto automático, mas o olhar continuou preso nela.

Júlia Romano.

A mulher que, em menos de uma hora, havia colocado rachaduras no meu controle.

Ela disse que Matteo não a incomodava. Mas o modo como falou… o modo como olhou meu filho… aquilo mexeu comigo de um jeito que eu não esperava.

Uma mulher que olha meu filho com gentileza é uma mulher que pode me destruir sem querer.

Porque eu conheço minhas fraquezas.

E a maior delas está segurando minha mão agora, se escondendo atrás da minha perna.

Respirei fundo, tentando conter o impulso — um impulso insano — de me aproximar dela.

— Você deve descansar. — Minha voz saiu baixa, mais rouca do que eu queria. — O trabalho começa cedo.

Ela assentiu, mas seus olhos… Deus. Os olhos dela têm uma calma que eu não mereço.

Então Matteo falou.

Falou.

E isso congelou tudo dentro de mim.

— A ilha fala.

O coração dela disparou, eu vi. Mas minha mente… não se surpreendeu. Matteo sempre percebe coisas que ninguém mais percebe.

Incluindo a presença.

Incluindo… Isabella.

Engoli seco.

Peguei o menino pela mão e o levei embora antes que ela fizesse perguntas que eu não estava pronto para responder.

---

Mais tarde, depois de colocar Matteo para dormir, fiquei observando ele por alguns minutos. Seu rosto era tão pacífico quando dormia… tão diferente do olhar inquieto que carregava quando estava acordado. Ele é meu único motivo para continuar. Meu único foco. Minha única responsabilidade.

Mas o modo como ele olhou para aquela mulher… algo naquele olhar me perturbou mais do que deveria.

Ela era ameaça.

Não fisicamente.

Não por intenção.

Mas porque despertava no meu filho algo que ninguém despertava desde Isabella.

Porque despertava em mim um desejo que eu não posso permitir.

Eu deveria demiti-la naquela mesma noite. Seria o mais seguro.

E, no entanto…

Desci até o pátio externo da mansão para tentar respirar melhor. A noite ali sempre foi densa, carregada de memórias. As sombras do jardim pareciam vivas, se movendo como ondas, acompanhando cada passo meu.

A ilha fala.

As palavras de Matteo ecoaram na minha mente.

Ele tinha razão.

Ela fala.

Sussurra.

Chama.

E agora, pela primeira vez em anos, a ilha estava inquieta.

Agitada.

Como se tivesse sentido a chegada de Júlia.

Como se reagisse à presença dela.

Eu passei a mão pelos cabelos e fechei os olhos, tentando ignorar a sensação constante de ser observado. Aquilo fazia parte da minha rotina. Parte da minha penitência. Mas naquela noite… estava pior.

Como se as sombras quisessem dizer algo.

Como se algo nelas tivesse mudado desde que ela chegou.

Voltei para dentro da casa e peguei uma das câmeras internas. Eu havia instalado um sistema completo depois que Isabella morreu — por proteção… e talvez por paranoia. Queria ver onde ela estava, como se comportava, como reagia à casa.

Não sei explicar.

Eu precisava vê-la.

Abri a tela e selecionei o andar onde estava o quarto dela.

E ali estava Júlia.

Sentada na cama, com as mãos apoiadas nos joelhos, respirando fundo, como se tentasse se acostumar com o peso da mansão. Seus ombros subiam e desciam com uma vulnerabilidade que me atingiu como um golpe.

Eu não devia observar.

Mas observei.

Observei como ela olhava para a janela como se esperasse que algo aparecesse.

Observei como seus dedos tremiam um pouco antes de se firmarem.

Observei sua força tentando se reorganizar.

E então ela se deitou.

E eu não consegui desviar os olhos.

Ela dormia como alguém que finalmente encontrou um pouco de paz, mesmo num lugar onde a paz não existe. Mesmo na minha casa. Na casa onde nada mais respira luz desde a perda de Isabella.

Senti um calor estranho no peito.

Uma sensação antiga.

Esquecida.

Uma sensação que não deveria existir.

Júlia Romano era um problema.

Uma ameaça.

Um convite ao caos.

E mesmo assim…

Mesmo assim, eu não conseguia tirar os olhos dela.

No momento em que fechei a tela, percebi uma verdade que deveria me assustar:

A presença dela não era apenas um risco para a ordem da mansão.

Era um risco para mim.

E perigosamente, inevitavelmente…

eu já estava cedendo.

Sigue leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la APP
Explora y lee buenas novelas sin costo
Miles de novelas gratis en BueNovela. ¡Descarga y lee en cualquier momento!
Lee libros gratis en la app
Escanea el código para leer en la APP